Vazio

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

III. Vazio e a coisa entre desprendimento e enquadramento

9. O jarro vazio, a coisa e o desprendimento (1944–1945)

1. A questão da utilidade pragmática tem longa história nos escritos de Heidegger, ocupando papel crucial na forma da à-mão-idade pragmática na primeira divisão de Ser e Tempo e enfatizada em reconstruções pragmatistas da filosofia heideggeriana.

2. Heidegger, como outros intelectuais alemães da primeira metade do século XX (notavelmente Buber, Keyserling e Wilhelm, entre outros), associa essas fontes chinesas antigas à problemática moderna da tecnologia através de noções de coisidade, utilidade e usabilidade.

3. Heidegger coloca uma vez mais a questão da coisa, de como iluminar a coisa enquanto coisa em vez de como objeto representado, no contexto da tékhnē, lembrando a abordagem inicial seu ensaio de 1935 sobre a obra de arte, à medida que a coisa surge da terra.

4. Lembrando sua tradução e interpretação anteriores do Daodejing 11, é o vazio dele enquanto vaso (Gefäss) que faz o jarro (Krug) o que é, sendo o vazio entre os lados, o fundo e as bordas o conter do vaso enquanto aquilo que contém (“das Fassende des Gefäßes”).

5. Heidegger procede a inter-relacionar referencialmente a coisa, o encontrar (gegnen em seu sentido arcaico) a contraparte (entgegnen), e o desprendimento no qual a coisa é reconhecida como “enregionada” (vergegnet) em região local (Gegend).

6. A elucidação inicial de Heidegger do desprendimento na primeira Conversa do Caminho de Campo não se refere a estado mental como serenidade, nem à constelação de alma, nada e Deus do misticismo alemão, sendo esta uma investigação inspirada — via jornada longa e complexa interculturalmente mediada — pelo texto atribuído a Laozi tal como mediado por Wilhelm e outros.

10. O wuwei e o ziran de Heidegger

7. Questiona-se se o pensamento de Heidegger pode ser interpretado ou reimaginado como pensamento do wuwei e do ziran, refletindo, sem dúvida, ao menos em parte, a estratégia interpretativa de Heidegger historicamente sua discussão anterior do Daodejing e correlacionando-se conceitualmente com wuwei e ziran.

8. Numa obra que Heidegger mencionou desdenhosamente em 1929, Klages sustentou, em seu Espírito como Adversário da Alma de 1929, que a crítica nietzschiana do não-querer não pode ser aplicada ao daoismo, afirmando Heidegger que essa coisa não é “coisa em si”, mas antes “coisa para si”.

9. O discurso místico das coisas deixa-as ser ao mesmo tempo em que visa suspendê-las em prol do desprendimento da alma, libertando-a do pecado e para a união com Deus, sendo distintiva a linguagem heideggeriana do desprendimento.

10. Se não Eckhart ou Schopenhauer, muito menos seus epígonos, questiona-se se o Daodejing, com sua humildade diante das coisas, pode ser interpretado como oferecendo fio condutor para pensar a liberdade rumo aos e dos entes mundanos, sendo insuficientes as fontes europeias de Heidegger.

11. Essa tendência é evidente em sua recepção e tradução alemãs, que afirmam a liberdade e o ser-de-si da coisa, tendo Strauss traduzido ziran como liberdade (frei, freiwillig, Freiheit), segundo a natureza (naturgemäss), e medida de si mesmo (Richtmaß sein Selbst).

12. Os modos típicos pelos quais a coisa é representada e explicada como objeto passam por cima da coisa e a negligenciam tal como é de si mesma, perdendo-se a coisa em sua redução aos elementos pragmaticamente úteis e teoricamente postos que a compõem.

13. O recuar do sujeito e da vontade ocorre em Heidegger ao esperar atenta e pensativamente pelo essenciar da coisa em sua própria abertura constitutiva, sendo a coisa encontrada temporalmente como permanecendo no momento de seu próprio “por-um-tempo” e espacialmente como enregionando-se em seu lugar.

14. O permanecer da coisa na duração de seu momento e em sua localidade circundante pode também ser referido a fios encontrados no Daodejing e fontes relacionadas, nas quais a vida geracional da coisa é reconhecida e admitida em seu próprio momento e lugar.

15. Heidegger parece adotar tom diferente — embora um que ressoe com poéticas leste-asiáticas de ruínas, vida esmaecente e luto — em rememoração pensativa das ausências que ainda nos endereçam: as ferramentas abandonadas e ruínas cobertas de mato ao longo do caminho de campo.

16. A busca de Heidegger por “arcaísmos modernos” (para adotar termo interpretativo de Wu 2014), estratégia dirigida a recuperar o passado e o arcaico moldados pelos paradoxos da modernidade, foi ridicularizada como anacrônica, melancólica, nostálgica, provinciana e rústica.

17. Heidegger parece ingênuo, oportunista e ideologicamente iludido em 1933, tendo Bloch notado as dinâmicas reativas e revolucionárias que informam Hebel e outros autores camponeses rurais que atraíram Heidegger.

18. Segundo, a alegação é unilateral, ainda tendo a articulação heideggeriana do momento e localidade da coisa em seu pensamento tardio, em forma alterada, a estrutura tripla da temporalidade.

11. Beber do vaso vazio e estagiar na expansão

19. O jarro vazio não é vazio indeterminado como tal, sendo vazio de bebida, não caracterizando mais, contudo, a dabilidade e utilidade da bebida para o bebedor o próprio modo de ser do jarro, concedendo o jarro, enquanto ente (Seiende) que concede seu uso, beber.

20. O jarro vazio não está meramente à-mão para uso como em Ser e Tempo, concedendo e permitindo receber e beber vinho, concedendo e permitindo, por extensão, a roda vazia que o carro seja puxado pela estrada, e o quarto vazio que pessoas e coisas se reúnam e habitem dentro dele.

21. A bebida não é simplesmente usada, ainda que pareça sê-lo na pressa do consumo, valendo-se a bebida de e permanecendo no vinho e no elemental: nos ramos, na terra, no sol e na chuva, nos dons do céu.

22. Consequentemente, os interlocutores de Heidegger reconhecem como o jarro só é si mesmo por repousar nessa expansão e no elemental em videira, água e sol, delineando Heidegger ainda mais como a coisa é permanência e sojour (verweilen) em e retorno (Rückkehr) a si mesma.

23. Outra palavra tem papel interessante na recepção em língua alemã do Daodejing e do Zhuangzi: o verbo verweilen significa permanência, demora e sojorno temporais, tendo os sentidos diferentes de (1) permanecer como momento apropriado e (2) demorar-se como ficar além do devido levado a dois conjuntos diferentes de usos no contexto alemão.

24. Segundo, o verbo significa aquilo a ser evitado em algumas interpretações, usando August Pfizmaier e Hertha Federmann verweilen no sentido de permanecer e demorar-se inapropriadamente além do momento próprio.

25. Questiona-se então qual é o momento e localidade apropriados do jarro de vinho, afirmando Heidegger ser beber em celebração, sendo o jarro algo festivo na vastidão expansiva na qual pessoas, coisas, terra e céu permanecem e estagiam.

26. Questiona-se como se deve interpretar a “contraparte” no encontro, significando Gegnen em seu sentido arcaico encontrar a contraparte bem como encarar aquilo que se opõe, não sendo, contudo, o contraparcear (gegnen) em seu enregionar (vergegnen) horizonte de nosso comportamento de desprendimento (como no misticismo).

27. A priorização heideggeriana da coisa, que seu contemporâneo Adorno ecoou na liberdade rumo ao e primazia do objeto, é reversão da instrumentalidade pragmática, presença teórica objetificada e sem-mundanidade fundamental da coisa do final dos anos 1920.

28. Essa configuração de palavras e seus usos é mais que coincidência dado o engajamento focado de Heidegger com o Daodejing e o Zhuangzi nos anos finais da Segunda Guerra Mundial e nos anos iniciais de seu rescaldo, fazendo sentido dado seu engajamento de longo prazo em ler várias traduções desses textos.

12. A prioridade da coisa (1949–1950)

29. As quatro Palestras de Bremen de 1949, intituladas “Visão do Que É”, investigam a coisa, a posicionalidade enquadrante, o perigo e a virada, oferecendo diagnóstico e, assim, indicando modelo crítico, da supressão e destruição da coisa.

30. Lugares e coisas podem ser interpretados como continuum relacional de singulares no qual cada evento — em seu próprio hiato — reúne e desvela mundo, perdendo seu espaçamento intervalar à medida que proximidade e distância se perdem na presença fixa limitante.

31. Lugares e coisas sem intervalo e espaçamento parecem trazer disponibilidade universal, característica da à-mão-idade pragmática em Ser e Tempo, não podendo, contudo, presença pura, indiferenciada e não espaçada trazer proximidade genuína a lugar ou coisa específicos.

32. A coisa parece adjacente e à-mão em ser usada e gasta, mas falha em aparecer como coisa em tal nexo referencial instrumental, permanecendo ainda distante e não encontrada em sua coisidade quando experienciada através de disponibilidade e utilidade e representada como mero objeto objetivamente presente.

33. A coisa demanda ser pensada em e a partir de seu próprio sentido, seu próprio assim-de-si coisal independente, para lembrar o Daodejing, não pressupondo a rejeição do idealismo na prioridade da coisa a afirmação de realismo dogmático ingênuo.

34. As reflexões heideggerianas sobre a coisa como autoerguida em seu vazio, inutilidade e consequente disponibilidade e usabilidade são informadas por capítulo crucial do Daodejing, sendo, no capítulo 11, a coisa exemplar o vaso vazio.

35. O jarro é vaso que contém formado através do trabalho do artesão com a terra, não sendo, contudo, apenas os elementos materiais terrenos e a subjetividade e obra do artesão que formam o jarro, sendo o jarro um vazio que contém, e seu ser enquanto vazio-que-contém o que o traz ao ser por meio de terra e artista.