Recepção Taoismo

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

I. Dao com e sem imagem e palavra

1. Heidegger e a recepção alemã do daoismo

1. Há longa tradição de ceticismo quanto às afinidades daoistas de Heidegger, tendo Karl Löwith, aluno e crítico subsequente de Heidegger que lecionou no Japão de 1936 a 1941, notado a linguagem heideggeriana de som daoista e duvidado de sua genuinidade.

2. Medido segundo o padrão da afirmação de Löwith, Heidegger oferece, na melhor das hipóteses, apropriação indevida falha do daoismo incapaz de aproximar-se de sua verdade, nunca tendo Heidegger, é claro, se apresentado como defensor ou estudioso do daoismo.

3. Sua guinada quase daoista (no sentido ziranista) comumente mal interpretada rumo à coisa (isto é, a coisa como indicando muito mais que entidade pragmática sem mundo) nos anos 1940 entrelaça-se com seus múltiplos engajamentos imperfeitos, mas provocativos, com a coisa daoista tal como articulada no Daodejing e no Zhuangzi.

4. Os problemas da modernidade alemã moldaram a resposta de Heidegger ao daoismo, tal como moldaram a de seus contemporâneos, tendo o notável romance modernista-daoista de Alfred Döblin de 1916 Os Três Saltos de Wang Lun (Die drei Sprünge des Wang-lun) começado com Döblin “sacrificando” a obra em dedicação ao sábio daoista Liezi.

5. Esse romance ajudou a inspirar o engajamento com o pensamento chinês em escritores marxistas como Bertolt Brecht e Anna Seghers, tendo as reflexões de Brecht, de meados dos anos 1930, no não publicado Livro das Reviravoltas (Buch der Wendungen), expressas através de versão ficcionalizada do filósofo moral não daoista Me Ti (Mo Di 墨翟, c. 470–391 a.C.).

6. O encontro interpretativo de Heidegger com essas fontes daoistas antigas em tradução, que intrigantemente se cruza com outras explicitações do daoismo da era de Weimar, da direita política de Ludwig Klages à esquerda de Buber e Bloch, oscila em torno de suas preocupações com a coisa e a palavra em relação à sua própria situação hermenêutica.

2. Imagens chinesas e alemãs de reunião e vazio

7. Pode-se considerar aqui conexões entre reunião e vazio anteriores a Heidegger, tendo, segundo o Daodejing, o dao nem imagem nem nome, e, no entanto, evocando e ressoando na imagem e na palavra, sendo a primeira imagem sem imagem a ser perseguida neste capítulo a de reunir-se no vazio.

8. Joseph von Görres pioneirizou o estudo da mitologia na Alemanha, escrevendo em sua História dos Mitos do Mundo Asiático (1810) que “o Dao é vida, abismo de todas as perfeições, contém todos os seres, é ele mesmo decreto e exemplo, mas (para a criatura) é insondável”.

9. O dao gera e nutre, e também reúne e dispersa, vendo-se essa função reunidora em variedade de traduções e interpretações alemãs que continuam a ressoar nos modos de falar de Heidegger, sendo “reunir” palavra-guia na terminologia heideggeriana, interpretando o sentido raiz do dizer (logos) como reunir.

10. Imagem que reaparece em textos clássicos Lao-Zhuang é a de que o vazio reúne e envolve, estabelecendo lugares e formas de vir-junto, sendo o dao a cavidade vazia (chong 沖) preenchida e esvaziada por águas turbilhonantes, e o encher e derramar do vaso vazio nos Daodejing 4 e 11.

11. Outro termo para vazio ocorre no Daodejing e em passagem conhecida do Zhuangzi, afirmando que o “jejum do coração-mente” (xinzhai 心齋) é esperar as coisas na quietude e no vazio (xuer daiwu 虛而待物), que Heidegger evoca na terceira Conversa do Caminho de Campo.

12. As traduções de Victor von Strauss (1870), Martin Buber (1910) e Richard Wilhelm (1911, 1912), com as quais Heidegger estava familiarizado, deram aos leitores senso da proeminência do vazio nos textos atribuídos a Laozi e Zhuangzi.

13. Os vínculos entre coisa, reunião e vazio na Gelassenheit heideggeriana, como forma de habitar, são indicativos de configuração daoista, em particular no modo como prioriza movimento reunidor e dispersor no vazio (como em Misch) e abertura a receber o mundo (como em Wilhelm).

14. A segunda parte delineará a interação de variedades ocidentais, daoistas e budistas de nada e vazio em Heidegger e sua recepção leste-asiática inicial, considerando-se, na parte posterior, para adiantar um vislumbre, em que medida o vazio é o sítio da reunião em “A Partir de um Diálogo sobre a Linguagem”.

3. Dao como palavra-guia

15. A presente obra centra-se em torno de palavra chinesa, aparecendo no título do texto chinês, o Daodejing, mais frequentemente mencionado e evocado no corpus de Heidegger, sendo a palavra leste-asiática (na verdade, não ocidental) mais frequentemente mencionada em suas obras dao 道.

16. Isso tem contexto hermenêutico mais amplo digno de consideração, lembrando os modos de falar de Heidegger interpretações alemãs anteriores de dao que informam a comunidade linguística de Heidegger, sendo, contudo, distintivos delas.

17. Misch criticou a fenomenologia de Husserl e Heidegger em 1930 da perspectiva da filosofia hermenêutica da vida de Dilthey, obra que Husserl e Heidegger mencionam, descrevendo nela a força da fala originária e como o lógos, palavra-raiz dos começos da filosofia ocidental e da ciência da lógica.

18. Os argumentos de Misch para as múltiplas origens globais da filosofia em 1926 e 1930 levaram Husserl e Heidegger a reiterar repetidamente suas origens exclusivamente gregas e caráter ocidental, reconhecendo, ao mesmo tempo, Heidegger a força elemental formadora-de-mundo de palavras como lógos e dao.

19. Questiona-se então o que é dao como palavra primordial, notando Buber, antes de Misch e Heidegger, que a primeira palavra já é desintegração do dao, que falha em nomear, apoiando-se no paradoxo dos nomes no próprio Daodejing.

20. Heidegger foca em ponto diferente desses outros exemplos: a intraduzibilidade, mencionando em vários lugares como a palavra elemental originária dao evade a tradução, estando a questão da intraduzibilidade e a necessidade de hesitação respeitosa no coração de “A Partir de um Diálogo sobre a Linguagem”.

21. O Heidegger inicial exprime senso da coisa na formação da palavra, exprimindo as palavras originais o encontro com aquilo que se encontra no Heidegger inicial: “a palavra original é um a-ser-chamado, não mera nomeação; é antes algo que se dirige ao que se encontra no mundo tal como é encontrado.”