Liberdade

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

III. Liberdade, alotamento e autonaturação após o Zhuangzi

8. Liberdade e destino na autonaturação do si e do mundo

1. O daoismo ziranista é filosofia de liberdade relacional radical e participação responsiva no mundo, mas, sendo a reversão parte do próprio movimento das coisas e podendo qualquer constelação assumir forma ideológica, a liberdade é perpetuamente traída.

2. Questiona-se qual o contexto e estatuto do Zhuangzi com seu ensinamento radical de liberdade anárquica, imanente, deste-mundo, em meio à faticidade da existência, filiando o historiador da dinastia Han Sima Qian, no Shiji 史記, Zhuangzi a Laozi.

3. A liberdade e o à-vontade da responsividade mundana da pessoa genuína exemplar surgem por colocar entre parênteses a ação intencional calculativa (wuwei) e o ser-afetado sintonizado ou ressonante (ying), vislumbrando-se isso nas imagens de pensamento do Açougueiro Ding (Paoding 庖丁) nutrindo a vida.

4. Primeiro, dada sua mescla de indiferença e responsividade, questiona-se como sábios e pessoas são afetados a responder por estímulos, tendo o período Wei-Jin visto controvérsia sobre as emoções dos sábios quanto a se as superavam completamente em indiferença afetiva (He Yan 何晏, c. 190–249 d.C.) ou as equilibravam harmoniosamente a partir do nada (Wang Bi).

5. Segundo, dado o modelo estímulo-resposta, questiona-se como devem ser entendidos liberdade e determinação, tendo a liberdade zhuangziana atraído intelectuais em busca de liberdade relacional alternativa, distinta das ideias alemãs de liberdade que abraçam dever, necessidade e Estado.

6. Além do notável aparecimento da edição de 1927 do Daodejing por J. G. Weiss no segundo panfleto de 1942 do movimento de resistência estudantil Rosa Branca, que enfatizava boa governança através da autoordenação não coercitiva dos assuntos, outros ligaram o Zhuangzi à liberdade antitotalitária.

7. A perspectiva da liberdade fica turva na perspectiva da diferenciação e determinação, tendo o modo de vida daoista exemplar em liberdade e desprendimento potencial crítico e transformativo próprio frente à reificação e alienação reproduzidas pela ordem sociopolítica existente.

8. Os modos ziranistas de habitar, ou ser-no-mundo para lembrar a expressão de Okakura, não negam conceitualmente, mas antes consistem em deslocar-se através dessas condições e posições limitantes nas quais a liberdade do dao é descoberta nas próprias situações e coisas.

9. A autodeterminação da coisa aparece no Zhuangzi em seu autotransformar-se (zihua) e autoagir (ziwei), correlacionando-se a disposição adaptativa e receptiva do wuwei com a autotransformação da coisa por si mesma nos capítulos 11 (Zaiyou 在宥) e 17 (Qiushui 秋水).

10. O Zhuangzi contestou subordinar o modo da coisa de ser si mesma em seu ambiente, como o caos existindo livremente sem aberturas ou a tartaruga desfrutando a margem lamacenta do rio, a papel externo, por exemplo, ter buracos perfurados ou ser exibida na corte, enfatizando seu próprio autodevir.

9. Liberdade com as coisas: reflexões zhuangzianas e budistas

11. Os discursos do aprendizado misterioso da era Wei-Jin de Wang Bi e Guo Xiang centram-se no nada e na coisa, sendo pivotais em modificar e transmitir o Daodejing e o Zhuangzi ziranistas, sendo a interpretação ziran-orientada de Wang Bi do nada examinada mais adiante na Parte Dois.

12. Tal visão de interdependência e independência, de harmonia e autodeterminação monádica para descrever essa relação nas categorias de Leibniz, arrisca, para seus críticos, bifurcar a coisa entre outro-determinada e autodeterminante, identidade e diferença, e anfitriã e hóspede.

13. Zhi Dun 支遁 (Zhi Dao Lin 支道林, 314–366 d.C.), Dao'an 道安 (312–385 d.C.), e fontes budistas chinesas do século IV informadas por ensinamentos Lao-Zhuang e de aprendizado misterioso oferecem pontos de referência salientes para reconstruir controvérsias filosóficas envolvendo estratégias argumentativas e hermenêuticas Lao-Zhuang.

14. O pensamento de Zhi Dun poderia ser descrito como “budismo daoístico”, categoria inventada por acadêmicos modernos, na qual o daoismo Lao-Zhuang inicial se cumpre no budismo e o budismo é empregado para resolver questões filosóficas daoistas e do aprendizado misterioso.

15. Questiona-se se a liberdade é a liberdade de encenar a própria autonatureza fatídica e caráter inato, seja lá o que for, ou liberdade de transformar — em termos discursivos budistas — as sementes da autonatureza que é em última análise vazia de si mesma.

16. Se as críticas de Zhi Dun ao determinismo de Guo Xiang são válidas, então ziran, que prometia no Zhuangzi igualar e libertar as coisas em sua autodeterminação anárquica de servirem como meros objetos sacrificiais e instrumentais, tornou-se a autodeterminação da autonatureza (zixing) predeterminada da coisa em sua parte fatídica alotada.

17. Permanecendo com a situação chinesa desta época, a problemática do determinismo e da liberdade que emergiu entre Guo e Zhi apresenta numerosas dificuldades interpretativas, articulando o próprio Zhuangzi, primeiro, no Capítulo Interno “Grande Mestre”, a significação do autoocorrer do dao em vez de natureza fixa nas discussões da coisa.

10. Autorrelacionalidade

18. O igualar (qi 齊) do Zhuangzi é descrito no capítulo “Enchentes de Outono” como a “coerência e igualdade das miríades de coisas” (wanwu yiqi 萬物一齊), sendo esse igualar mais harmonização musical fluente transformativa que subordinação a uniformidade determinada fixa.

19. O Anti-Climacus de Kierkegaard afirmou que o si é relação entre uma relação e uma relação, sendo a relacionalidade da realidade expressa de modo ainda mais radical em Laozi e Zhuangzi.

20. Em conclusão, para brevemente reiterar, ziran significa a autonaturação e, se não monadicamente isolada, a mundonaturação da coisa, sendo a coisa relacional em sua autonaturação temporal e transformativa o que distingue a coisa no Daodejing e no Zhuangzi.