Inutilidade

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

II. Vazio, inutilidade e espera

4. Deixar e curar nas Conversas do Caminho de Campo

1. Há três diálogos em Conversas do Caminho de Campo: uma Conversa a Três num Caminho de Campo entre um Cientista, um Erudito e um Guia (Weisen), delineada no capítulo anterior; O Professor Encontra o Guarda da Torre à Porta da Escadaria da Torre; e Conversa Noturna: Num Campo de Prisioneiros de Guerra na Rússia, entre um Homem Mais Jovem e um Mais Velho.

2. É já atípica ao girar em torno do Zhuangzi em vez do texto mais tipicamente destacado, o Laozi, sendo retratada como ocorrendo em campo de prisioneiros de guerra soviético nas vastas florestas siberianas entre soldado alemão mais jovem capturado e outro mais velho.

3. A conversa começa com o soldado mais jovem encontrando “o que cura” (das Heilsame), que Heidegger elucida na “Carta sobre o Humanismo” três anos depois, encontrando-o na vasta expansividade, imagem de pensamento (mas não símbolo) do cosmos na conversa anterior da vasta floresta.

4. Ocorre por ser “deixado entrar eingelassen] naquilo que cura”, “do deixar de seu acontecer Veranlassung]”, sendo esse diálogo moldado por seu jogo com os vários sentidos de deixar, permitir e liberar relacionados à palavra-tronco “lassen” e às complexidades da cura terapêutica.

5. Questiona-se então como ocorre o mistério desse deixar em Heidegger, e como tal deixar pode ser pensado, dadas as realidades de ferimento e dano, sendo a conversa assombrada pelo espectro do insalubre como aquilo que não pode curar (das Unheilsame).

6. Essa situação de encobrimento e perplexidade conduzindo à devastação é retratada pelo homem mais velho em referência ao fenômeno do mal, sendo o mal interpretado em referência a fúria e malícia: “a devastação da terra e a aniquilação da essência humana que a acompanha são de algum modo mal [das Böse].”

7. Essa desolação é “da terra e da existência humana”, deixando para trás um ermo deserto: “a extensão deserta verlassene] do abandono Verlassenheit] de toda vida”, definindo Heidegger o deserto, em carta posterior, como “a área onde não há crescimento” em que “nada é deixado crescer”.

8. O texto do Zhuangzi e Heidegger revelam facetas-chave da problemática de nutrir a vida frente a regimes propositados de utilidade instrumental, mesmo que não exprimam apropriadamente a autoordenação pública e política espontânea indispensável para contestar e limitar os poderes coercitivos de partido, Estado ou mercado.

9. Questiona-se então quanto às circunstâncias políticas dessa conversa sobre devastação e cura, não confrontando Heidegger diretamente a banalidade do mal sistematizado nem sua própria cumplicidade durante os anos 1930.

10. Quanto aos próprios Cadernos Negros, majoritariamente filosóficos em vez de diretamente políticos, documentam as transformações de seu pensamento, desde a ascendência da autoafirmação nacional através da consequente devastação até recusa tanto do nacional quanto da afirmação em prol da reticência e do desprendimento.

11. Em conversa extensa preocupada com a espera, que ecoa o coração-mente esvaziado que espera as coisas no Zhuangzi, os conversantes diferenciam esperar por “algo” estruturado por antecipação e expectativa (auf etwas warten, Erwarten) e “espera pura” (reines Warten), sem antecipação e projeção.

12. O texto recebido do Zhuangzi refere-se à espera numerosas vezes, não havendo razão para esperar e depender das opiniões alheias ou do que ocorrerá ou será correto no futuro, havendo espera pelas revoluções dos céus e estações.

13. As filosofias chinesas antigas enfatizavam variedades de ação interveniente forçosa (wei 為), a minimização da ação coercitiva (wuwei), ou sua alternância dependendo das circunstâncias no Livro das Mutações, preocupando-se Döblin e Brecht, em seus encontros com o pensamento chinês, com questões de como intervir transformativamente.

14. Foi essa a transformação do agir em esperar, em contraste com o agir em intervir e sua maximização ou minimização, evocando de perto as descrições heideggerianas de espera, vazio e reunião essa e outras passagens do Zhuangzi.

15. O vazio que reúne é, nessa medida, o oposto da aniquilação niilista que destrói coisas e obscurece o mundo com tecnologias devastadoras de guerra e o paradigma da utilidade pragmática onipenetrante, sendo nesse momento da conversa que começam a emergir temas zhuangzianos.

16. Há aqui reversão interpretativa contra o paradigma instrumentalista que pressupõe e invoca a tradução de Wilhelm do Zhuangzi: “só aquele que aprendeu a conhecer a necessidade do desnecessário…” e “o desnecessário permanece em todos os tempos o mais necessário de todos.”

5. A dependência heideggeriana do Zhuangzi de Richard Wilhelm

17. A negação do impacto do Zhuangzi no pensamento de Heidegger seria mais fácil de fazer se a linguagem de Heidegger não dependesse de idiossincrasias nas traduções de Wilhelm, sendo Wilhelm tradutor prolífico, tendo suas edições dos clássicos chineses sido meio crucial para os leitores alemães da geração de Heidegger acessarem textos chineses.

18. A despeito da quantidade prolífica de traduções de Wilhelm e sua especialidade e autoridade sinológicas, Heidegger aborda explicitamente apenas os textos Laozi e Zhuangzi e não necessariamente segue as traduções e comentários de Wilhelm, mesmo reagindo a eles em pontos.

19. Heidegger não emprega as traduções filosófico-vitais de Wilhelm de dao como sentido ou significado (Sinn) e de 德 como vida (Leben) ou força-vital (Lebenskraft), nem aceitaria os registros conceituais kantianos e filosófico-vitais que Wilhelm emprega para introduzir o Daodejing e o Zhuangzi a audiências linguísticas alemãs.

20. Isso é parcialmente apropriado na medida em que o texto do Zhuangzi deveria ser lido como ceticamente minando o ceticismo de Huizi, afim à crítica cética wittgensteiniana do ceticismo dogmático como pressupondo jogos-de-linguagem e formas e práticas de vida em Da Certeza.

21. Significa antes como a liberdade zhuangziana abraça anarquicamente cada coisa como singularmente si mesma, autoordenando-se a seu próprio modo, e seguindo sua própria geratividade (ziran), classificou Wilhelm, recorrendo ao sistema onipresente de classificação de formas de filosofia desse período.

22. O idealismo objetivo do Zhuangzi oferece, consequentemente, visão geral impessoal objetiva da totalidade da existência na qual tudo é igualado da perspectiva da eternidade, sendo o equilíbrio entre céu e terra descrito como condição quieta, insípida, liberta.

23. “Ajudar as coisas” é a interpretação de Buber de nutrir as coisas daoistas, tendo autores alemães anteriores descrito o dao “como o solo primordial, o sustentador e nutridor de todas as coisas”, sendo essa faceta do daoismo inicial retomada na linguagem heideggeriana de “salvaguardar” e “curar”.

24. Há numerosas diferenças entre Wilhelm e Heidegger, categorizando Wilhelm o daoismo de Zhuangzi como forma de misticismo imanente ativo que abraça e se une à vida e suas forças em vez de fugir delas, sendo panteísmo e misticismo categorias homogeneizantes ocidentais modernas.

25. Heidegger expressou ceticismo quanto a tais categorizações e às filosofias de visão-de-mundo que as promoveram, especificando Wilhelm o pensamento fundamental do Zhuangzi como “liberdade soberana”, na qual a pessoa genuína é una com a vida em forma ativa e deste-mundo de misticismo.

26. Há divergências significativas entre como Heidegger e Wilhelm interpretam palavras e conceitos daoistas básicos, não obstante as claras diferenças conceituais entre Wilhelm e Heidegger, estando suas interpretações entrelaçadas na dependência de Heidegger das traduções de Wilhelm.

27. Na “Conversa Noturna” de 1945, Heidegger não se refere à tradução de Wilhelm de wuyong zhiyong 無用之用 da passagem concludente do capítulo quatro (Renjian shi 人間世, que Wilhelm traduz como “In der Menschenwelt” / “No Mundo Humano”) nos Capítulos Internos.

28. A “Conversa Noturna” refere-se a passagem diferente do Zhuangzi de Wilhelm, sendo “Die Notwendigkeit des Unnötigen” o título de Wilhelm para o diálogo entre Zhuangzi e seu amigo sofista cético Huizi no capítulo 26 (Waiwu 外物 como “Coisas Externas” Aussendinge]) dos Capítulos Diversos.

29. Cita-se a tradução: “um disse: 'você está falando sobre o desnecessário.' O outro disse: 'uma pessoa deve primeiro ter reconhecido o desnecessário antes que se possa falar com ela sobre o necessário. A terra é ampla e vasta, e, contudo, para ficar de pé, o humano precisa apenas de espaço suficiente para poder pôr o pé no chão. Mas se, bem ao lado de seu pé, se abrisse uma fenda que caísse no submundo, o espaço onde ele está ainda lhe seria útil?' O outro disse: 'não lhe seria mais útil.' O outro disse: 'disso a necessidade do desnecessário é claramente evidente.'”

30. Argumentou-se ser infeliz a tradução de Wilhelm de yong como necessidade, mesmo aceitando-se essa avaliação, pois indica um sentido possível dessa ideia, dada a situação hermenêutica de Wilhelm, poder-se-ia bem perguntar qual é a diferença específica entre a primeira expressão do capítulo quatro (wuyong zhi yong 無用之用) e a segunda do capítulo 26 (wuyong zhi wei yong 無用之為用).

6. Deixar, esperar e desprendimento

31. O desnecessário é explicitamente justaposto ao caráter instrumental e técnico da razão como ratio e racionalidade moderna neste texto, bem como à essência ocidental do pensar que não se permite esperar e deixar, levantando Heidegger questão retomada na “Carta sobre o Humanismo”.

32. Na paciência da espera, observou Heidegger, nós (devendo-se considerar quem é esse “nós”) somos a entrada ou deixar-entrar (Einlass) para aquilo que está vindo.

33. Jogando com a palavra alemã para o momento presente, Gegenwart, interpreta a palavra segundo seus dois componentes: como “momento presente” (Gegenwart) entendido em sentido verbal como “esperar-rumo-a” (gegen-warten), transcorrendo o presente genuíno como espera pura (warten) rumo a (gegen).

34. Questiona-se o que significa a espera paciente nesse cenário, se é o coração-mente esvaziado que espera as coisas no vazio do Zhuangzi, sendo a espera delineada alhures em Heidegger como essencialmente um deixar, não sendo produto de querer e agir.

35. Esse deixar as coisas serem si mesmas em seu desprendimento ocorre através do vazio e significa liberdade anárquica: “a liberdade repousa em poder deixar Lassenkönnen], não em ordenar e dominar.”

36. Essas adaptações modernas são possíveis porque a liberdade daoista não pertence ao si monádico, nem é o comando e a vontade do sujeito, que melhor definem poder, surgindo a liberdade genuína em relações mundanas com outros e coisas nas quais têm espaço para sua própria liberdade.

37. Argumentou-se que o senso heideggeriano de deixar aqui poderia ter fontes inspiradoras em Mestre Eckhart, Böhme e Schelling, sem necessidade alguma de mencionar Laozi ou Zhuangzi, podendo-se, contudo, lembrar a interpretação de Wilhelm do Zhuangzi como ensinando liberdade soberana e Gelassenheit em meio à vida.

38. Incluem estes o wuwei (ligado a deixar e esperar em fontes chinesas e alemãs), o ziran (como naturalidade não instrumentalizada acontecendo em e para si mesma), e a liberdade vagante e o desprendimento das coisas, questionando-se se isso justifica falar de “guinada daoista” em Heidegger.

39. A linguagem de esperar, deixar e Gelassenheit mal aparece no texto anterior, enredado em questões geopolíticas de vontade, poder e conflito, desempenhando papel cada vez mais notável no posterior, à medida que a vontade se torna a contraimagem, em vez de expressão e obra, da physis.

7. O desnecessário, o inútil e um povo desnecessário e inútil

40. É notável que Heidegger tenha seus dois interlocutores intrigantemente rejeitando a noção de nações e nacionalismos na “Conversa Noturna”, incluindo o que considera sua forma internacionalizada, articulando, no contexto de rejeitar o nacionalismo, as páginas concludentes.

41. O deixar humano só é possível por causa do deixar-ser-das-coisas do ser: “só aprendemos a deixar ir no deixar-ser do ser”, sendo, no contexto daoista, ziran a condição do wuwei, reverberando o emprego heideggeriano de Gelassenheit com a herança linguística da palavra desde Eckhart através de Schelling.

42. Ainda assim, Heidegger afirma que seu pensamento do desprendimento não é afim ao afastamento de Eckhart da vontade terrena pecaminosa rumo à vontade divina, não concernindo seu desprendimento, como retrata Böhme, o desapego mundano da Gelassenheit.

43. A coisa depende de seus próprios modos autogenerativos co-criativos de ser, em vez de criação divina ou projeção idealista, podendo o si desprendido transitar através de perspectivas unidimensionais restritivas e deslocar-se com as miríades de coisas seguindo sua própria autonaturação.

44. O deixar-desprender de Heidegger ocorre muito mais nas linhas da recepção alemã do Zhuangzi e seu senso de libertação como precisamente estar em e com o mundo, e nutrir, salvaguardar e curar a vida das coisas, sendo, nesse sentido, ethos em vez de estado místico.

45. O deixar libera tanto coisas quanto humanos naquilo que cura (das Heilsame), sendo, nessa passagem, a cura clamada em resposta a aflição: é modo para povo que fora desencaminhado por “falsos líderes” e seus objetivos postos como “necessários”, confrontado por sua própria inutilidade e desnecessidade.

46. Heidegger tem, consequentemente, razões para falar da necessidade do desnecessário, primeiro, parecendo que, para Heidegger, o útil é identificável com o necessário segundo o paradigma instrumental que equipara os dois, sendo desafiado pelo desnecessário que promete modo único de habitar e modalidade de ser.

47. O necessário, nas reflexões de Heidegger, é o que é urgente e necessitado (nötig) em responder à aflição numa situação de necessidade e emergência (Not), sendo o desnecessário que responde a essa situação de necessitude.

48. A “Conversa Noturna” de Heidegger termina com a confirmação de seu contexto zhuangziano ao citar explicitamente o capítulo 26 do Zhuangzi, no qual Huizi e Zhuangzi debatem os significados do necessário e desnecessário (útil e inútil), conversa que reverberou ao longo da conversa dos homens velho e jovem presos em campo de prisioneiros soviético.

49. Os confrontos historicamente delimitados de Heidegger com a destrutividade do Nacional-Socialismo, e sua própria cumplicidade inicial, ocorrem aqui e em outras reflexões pós-guerra, como em suas reflexões pessoais dos Cadernos Negros publicados em GA98.

50. Há múltiplos problemas com democracias existentes disfuncionais e sistematicamente distorcidas, falhando Heidegger, para contemplar brevemente seu pensamento político, em considerar suficientemente as funções normativas e críticas das esferas pública e privada, repúblicas elementares e participação democrática, e direitos pessoais.

51. Não se referem à espontaneidade anárquica e às tendências autorganizadoras dos discursos políticos daoistas que fascinaram Buber em suas palestras de Ascona de 1924 sobre o Daodejing, nem ponderam as poderosas análises de Arendt de esfera pública irredutivelmente plural e irrestrita.