Coisa

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

1. Fenomenologia, daoismo e a coisa

1. Questiona-se o que é uma coisa, parecendo, em descrição preliminar, ser aquilo que se apresenta ou se manifesta, oscilando a linguagem ordinária e os discursos filosóficos da coisa entre o sentido estrito de mera coisa como ferramenta disponível e objeto presente, o sentido epistêmico de objeto atualmente existente, e a plenitude da coisa em seu modo de ser.

2. Nas palavras poéticas de Hugo von Hofmannsthal, o encontro se dá com a “beleza relutante das coisas pequenas”, tendo poetas de língua alemã, como Hofmannsthal e Rilke, deixado a coisa moldar as palavras e o clima do poema, parecendo a coisa epistêmica e metafísica da teorização árida e deficiente frente à coisa encontrada pelos poetas.

3. Sua filosofia inicial da coisa emergiu no contexto de debates entre filosofias idealistas e realistas da coisa e sua formação em fenomenologia como metodologia que descreve a consciência e seus objetos, tendo seu mestre Edmund Husserl descrito a fenomenologia como movimento rumo às próprias coisas (zu den Sachen selbst).

4. As estratégias fenomenológicas de Husserl produziram vários dilemas para Heidegger, designando a coisa, primeiro, aparentemente o mais concreto ao mesmo tempo em que, como objeto, abstrai das características específicas que fazem as coisas particulares serem unicamente o que são.

5. A fenomenologia simultaneamente promoveu e impediu, para Heidegger, responder à questão da coisa enquanto coisa, tendo ele reposto repetidamente a pergunta “o que é uma coisa?”, indagando em resposta a essas tensões entre coisa concreta e objeto intencional.

6. Antes de prosseguir, cabe perguntar o que é o daoismo e por que é significativo para Heidegger e sua geração, tendo a expressão variedade de significados históricos, sendo, primeiro, o daoismo (daojia 道家) aplicado a Laozi em construção e categorização retrospectivas de escolas nos Registros Históricos (Shiji 史記) dos historiadores da dinastia Han Sima Tan e seu filho Sima Qian, para quem significava as formações discursivas biopolítico-cosmológicas Huanglao.

7. “Ziran” é termo interpretativo-chave ao longo desta investigação, não devendo o que se designa “ziranismo” ser interpretado como “naturalismo”, na medida em que o naturalismo perde o que significaria ao limitar a natureza a imagem-de-mundo fixamente posicionada num en-quadramento que desmundaniza coisas e existência humana.

2. A arte do chá, a escuridão salvaguardadora e a alegria dos peixes

8. Questiona-se quando esse encontro começou a emergir, ajudando duas anedotas a responder essa questão, recontando velha anedota japonesa de presente em 1919 como o jovem Heidegger encontrou inicialmente concepções daoistas da coisa e do ser-no-mundo na edição alemã de O Livro do Chá, de Okakura Kakuzō (1862–1913), recebido de presente em 1919 de Itō Kichinosuke (1885–1961).

9. Segundo Okakura, o caminho e a arte de fazer e beber chá realiza a “arte daoista do ser-no-mundo” (Kunst des In-der-Welt-Seins), parecendo ser este o primeiro uso hifenizado dessa expressão em alemão, exprimindo a consciência daoista de como si e mundo estão relacionalmente atados, só ocorrendo a liberdade em práticas.

10. Uma segunda anedota conta das afinidades daoistas de Heidegger uma década depois, nos anos finais da malfadada República de Weimar, tendo o amigo de Heidegger, o crítico de arte Heinrich Wiegand Petzet (1909–1997), recontado como Heidegger visitou Bremen em outubro de 1930 para proferir a palestra que se tornou “Da Essência da Verdade”.

11. Heidegger referiu-se à tradução de Strauss do capítulo 28 na terceira versão da palestra em Freiburg e Marburgo, em cartas e notas, e décadas depois em Identidade e Diferença, retornando persistentemente a imagens de pensamento de inflexão daoista de deixar entes e coisas serem si mesmos.

12. Petzet retrata como Heidegger ainda ponderava imagens de pensamento daoistas após sua palestra de 1930 sobre a verdade, surpreendendo os presentes de um jantar ao solicitar cópia de livro chamado Discursos e Parábolas de Zhuangzi, que Buber traduzira cerca de duas décadas antes com base em traduções inglesas de Balfour, Giles e Legge, sendo livro familiar entre a intelligentsia da era de Weimar.

13. Heidegger passou a ler e interpretar a narrativa da alegria dos peixes (yule 魚樂) da tradução de Buber do capítulo “Enchentes de Outono” (qiushui 秋水) do Zhuangzi, tendo Zhuangzi e seu amigo o cético Huizi debatido possibilidades de reconhecer genuinamente a alegria dos peixes enquanto observavam seus movimentos lúdicos da ponte acima.

14. Heidegger parece ter percebido que esse diálogo concerne a relações intersubjetivas e interentre-coisas, descrevendo Petzet como, nessa noite em Bremen, Heidegger se aprofundou nas implicações desse encontro com a alteridade do peixe para o ser-com (Mitsein).

3. A coisa e o mundanizar do mundo

15. Não se sabe como Heidegger especificamente respondeu ao Livro do Chá de Okakura, já pensando o Heidegger de trinta anos, em 1919, no caráter verbal do mundo, buscando despersonalizar e verbalizar substantivos reificados em expressões formalmente indicativas como “mundaniza-se” (es weltet) e “valora-se” (es wertet).

16. Heidegger examinou no curso seguinte de 1919/20, Problemas Básicos da Fenomenologia, como o mundo é engolfado nas reificações das vivências (Verdinglichungen der Erlebnisse) e na desvitalização da vida (Entlebung), significando reificação tornar-se coisal na asserção paradigmática de Karl Marx de que pessoas tornam-se coisas e coisas tornam-se pessoas pela mercantilização.

17. As coisas são entendidas nos cursos dos anos 1920 como objetos de noção constrangida de experiência externa imediata e de investigação teórica e científico-natural, sendo tal conhecimento objetivizante das coisas modalidade inapropriada para apreender o si-mundo.

18. O objeto tem duas dimensões primárias, e terceira, inadequadamente pensada, de natureza não antropocêntrica que assombra o projeto inicial de Heidegger e compele sua guinada subsequente, sendo o objeto predominantemente (1) instrumentalmente à-mão (zuhanden) na rotina pragmática num nexo ôntico de ferramentas e equipamento, ou (2) objetivamente presente-à-mão (vorhanden) para investigação teórica.

19. As coisas são experienciadas e percebidas primariamente como objetos de uso, troca e, como presentes-à-mão, investigação objetiva, estando, contudo, ainda além dessa objetificação em terceira dimensão subterrânea que se estende da vida da coisa em 1919 às poucas observações insuficientes sobre a coisa natural (Naturding) no final dos anos 1920, até a coisa que reúne, diz (Sagen), e me endereça (spricht mich an) nos anos 1950.

20. Dito simplesmente, a versão inicial do holismo relacional de Heidegger centrava-se no ser-aí da existência humana, e sua versão tardia centrou-se na coisa, sendo essa análise inicial inadequada segundo suas próprias observações posteriores, que deram maior prioridade à coisa como geradora do sentido de lugar e mundo.

21. Em “A Origem da Obra de Arte” (1935–37), a coisa aparentemente natural, a coisa como objetidade equipamental instrumental (Zeug, Gebrauchsding), e a obra (Werk) são diferenciadas ao revelar a obra de arte a coisa que porta e abre o “aí” e a liberta do nexo da instrumentalidade, revelando a obra o papel constitutivo das coisas na aidade da existência humana.

4. Desprendimento e estar a caminho: ethos sem misticismo

22. A principal objeção contra a importância do daoismo para Heidegger apela a poetas e místicos alemães, questionando-se se o abraço de Heidegger à sensibilidade da coisa significa forma de experiência mística religiosa ou “misticismo da coisa” (Dingmystik) poético.

23. Discursos anteriores de desprendimento concerniam à alma ou ao si, e não às coisas, sendo isso palpável em múltiplas leituras comparativas de Laozi e Mestre Eckhart dos séculos XIX e XX, ligando essas fontes, a despeito de seus contextos distintivos, o “agir sem agir” daoista, ou agir a partir de sintonia responsiva de mínima asserção e cálculo (wei wuwei 為無為), e o “desprendimento” (Gelassenheit) de Eckhart sob a bandeira do misticismo.

24. Examinar tais fontes revela como o cotejo e classificação transculturais de significados dentro da mesma comunidade linguística podem chegar a resultados surpreendentemente divergentes, tendo essa problemática levado Schleiermacher a concluir que a hermenêutica requer tanto interpretação linguística contextualizadora quanto interpretação psicológica individualizadora para formar perspectiva holística sobre autor ou texto.

25. Reflita-se sobre alguns exemplos e digressões contextualizadores, tendo Victor von Strauss, em sua tradução de 1870 do Daodejing, traduzido o “mais alto vazio” (xuji 虛極) no início do capítulo 16 como o ápice da renúncia (Entäußerung), acrescentando, em nota, ser isso o que Eckhart chamava desprendimento recluso (Abgeschiedenheit).

26. O vínculo transcultural entre Gelassenheit e o Daodejing não é novidade com Heidegger, encontrando-se já as expressões Gelassenheit e, mais frequentemente, gelassen em edições alemãs familiares a Heidegger para referir quietude calma e não perturbada, tal como nas traduções do Daodejing de Strauss e Wilhelm e nas edições do Zhuangzi de Buber e Wilhelm.

27. A orientação-coisa da concepção de desprendimento de Heidegger é notavelmente diferente das discussões místicas típicas que acentuam alma e si, incluindo discursos místicos alemães e as primeiras traduções alemãs de clássicos daoistas acessíveis a Heidegger, sendo seu desprendimento sem dúvida informado por seus sentidos em Eckhart, Jakob Böhme e tradições místicas alemãs.

28. Não obstante, como porte (Haltung) relacionado ao autodevir e autoessenciar das coisas, em vez do si unindo-se misticamente a Deus, Heidegger faz mais que evocar o wuwei daoista, já há muito associado à palavra francesa laisser desde os fisiocratas e à palavra alemã lassen desde o século XIX.

29. Há várias indicações ainda por elucidar de que o Laozi e o Zhuangzi fornecem não apenas dados históricos brutos ou conteúdo, mas modelos orientacionais-guia do que Heidegger designa pensamento poético, mais próximo do acontecer e desvelar da verdade que a filosofia como metafísica, onto-teologia e técnica positivista.

30. A articulação heideggeriana do desprendimento tem tom e ethos distintivos ao enfatizar a relação com as coisas além do comportamento disposicional próprio, conexão encontrada no Daodejing, distinguindo o capítulo 64 duas modalidades que se correlacionam com a concepção inicial de Heidegger do ser-com intra-humano e sua concepção tardia de habitar com as coisas.

31. A transformação de Heidegger é moldada por seus engajamentos persistentes com fontes daoistas antigas, recorrendo, com base em sua co-tradução do Daodejing com Paul Shih-yi Hsiao, que frequentou seus cursos sobre Heráclito e Parmênides em 1943–44, Heidegger descreve, em outros escritos, tanto Gelassenheit quanto dao na mesma linguagem de “caminho”.

32. Como examinado ao longo da Parte Um, a guinada mais inovadora de Heidegger não é o caminho do ser aos entes em meados dos anos 1930, mas suas voltas e reviravoltas através de seu confronto com a filosofia da vontade que emerge no final dos anos 1930, rumo ao desprendimento de coisa e mundo no vazio nos anos 1940.