NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024
I. Os caminhos de Heidegger com o Zhuangzi
1. Heidegger em Bremen
1. Consideram-se, neste capítulo, alguns exemplos que conduzem a percepções sobre o contexto histórico e a significação conceitual da adaptação heideggeriana do Zhuangzi e de uma interpretação zhuangziana de Heidegger, parecendo Heidegger comunicar mais avidamente seus interesses por fontes daoistas e arte e cultura leste-asiáticas durante suas visitas a Bremen.
2. Foi discutido antes, na introdução ao Capítulo 1, seu retrato da recitação e interpretação heideggerianas da alegria dos peixes do Zhuangzi numa reunião noturna de 1930, mencionando, para esboçar brevemente amostra dessas referências daoistas discutidas com mais detalhe alhures no presente livro.
3. O autor bremense Hans Jürgen Seekamp, mais conhecido por sua obra sobre o poeta Stefan George, notou o engajamento heideggeriano com o daoismo e reflexões sobre o sentido de dao durante sua palestra proferida em 4 de maio de 1951 sobre Lógos, em Bremen.
4. Ao falar de potencialmente construir ponte genuína no futuro, Seekamp introduz Heidegger e sua hesitação quanto a se é possível entendimento genuíno através de línguas distintivas, concluindo seu ensaio ao citar da palestra de Heidegger.
5. O dao fala sem dúvida ao Ocidente, que não tem ouvidos para compreendê-lo, podendo Heidegger ouvi-lo até certo ponto, mas sendo reticente em falar dele, talvez seguindo o conselho do Daodejing 56 de que aqueles que falam não sabem e aqueles que sabem não falam.
2. Heidegger entre Polemos e Gelassenheit
6. A reticência e reserva respeitosas salvaguardam, para Heidegger, o que está oculto, não negando sua reticência pública sua história estendida de atenção ao Laozi e ao Zhuangzi, desaparecendo essa atenção aparentemente entre 1931 e 1942, era de seu pensamento da primazia da vontade.
7. Reavalia sua própria filosofia e os perigos de seu próprio discurso anterior de decisão, autoafirmação, conflito criativo e confronto violento (polemos), e a primazia da vontade, tendo-se apoiado sistematicamente nessa configuração discursiva em sua defesa inicial, como reitor da Universidade de Freiburg durante 1933–1935.
8. Heidegger afirmou repetidamente, depois da guerra, ter rompido com o Nacional-Socialismo em 1934, quando renunciou como reitor e recusou-se a participar da transferência de poder ao novo reitor, sendo a questão mais complicada, observando Lyotard que Heidegger sabia, desde o início, que o Nacional-Socialismo era absurdo.
9. A visão heideggeriana de “revolução ontológica” e renovação poética era, além disso, periférica às motivações e temas principais do movimento, não sendo pensador do Estado racial totalitário, mas de um povo poetizante, evitando facetas-chave do Nacional-Socialismo como seu arianismo.
10. Heidegger é assim melhor classificado como intelectual-literato elitista conservador (fala Habermas de “mandarins alemães”) e seguidor comprometido (Mitläufer), em vez de ativista nazista, ideólogo, ocupante de cargo ou, para falar do ponto de vista de nossa própria situação, populista de direita.
11. Questiona-se então como transitou o pensamento heideggeriano de ética sacrificial e violenta apologética e ideologicamente conduzida de polemos e obra rumo à liberdade do deixar desprender (lassen), do reinar violento criativo do ser como physis rumo à autoordenação gerativa das coisas e do mundo no reinar do ser.
12. Esse texto reporta recusas repetidas de participação e coordenação políticas coercitivas, sendo Zhuangzi retratado no capítulo “Enchentes de Outono” como preferindo a vida de tartaruga vagando livre e inutilmente na margem lamacenta do rio, em vez de servir utilmente, embalsamada e fixada, na corte do príncipe.
13. Essa ideia é expressa em passagens do Zhuangzi, do Liezi, e negativamente no capítulo “Interrogando Bao” (Jie Bao 詰鮑) do Baopuzi de Ge Hong, onde essa tendência sociopolítica ziranista “Lao-Zhuang” anárquica é condenada na legitimação por Ge Hong de ordem política confuciano-legalista autoritária e hierárquica.
14. Várias transmissões chinesas e interculturais interpretam o daoismo como filosofia da liberdade, tendo fontes daoistas antigas sido repetidamente ligadas à liberdade individual frente à coerção do Estado e da sociedade na imaginação chinesa e europeia.
15. O Zhuangzi foi aliado ao anarquismo e individualismo em sua recepção alemã do início do século XX, tendo Richard Wilhelm descrito essa tendência como exprimindo ideal anarquista de idade dourada sem governantes, tendo Liang Chiang (Liang Qiang 梁强), em dissertação de Jena de 1938 em língua alemã sobre economia e sociedade chinesas.
16. Diferentemente desses bravos estudantes em Munique, Heidegger falhara em ver, nos anos 1930, as diferenças cruciais entre povo, Estado e liderança carismática, tendo o sinólogo alemão exilado Werner Eichhorn iluminado a liberdade zhuangziana contra o pano de fundo do totalitarismo nazista.
17. O daoismo ofereceu modelos de liberdade relacional mundana em contraste com a liberdade de sis atomísticos autointeressados ou sujeitos coletivos totalitários legitimando o poder do Estado, estando o entendimento alemão da liberdade daoista, com suas complexas transmissões históricas, operante nas reflexões de Heidegger nos anos finais da Segunda Guerra Mundial.
18. Heidegger foi, segundo a análise de Löwith de Ser e Tempo, filósofo da utilidade, do propositado em-vista-de-que, da coisa-na-obra, e do evento do ser, opostos ao daoismo, questionando-se então como Heidegger se tornou pensador que evocou e abordou formas Lao-Zhuang de inutilidade, liberdade da propositividade e deixar a coisa ser em seu próprio modo de ser.
19. As reflexões de Heidegger revelam elementos consideráveis relacionados ao daoismo em seu pensamento pós-1943, falando seus “poemas-de-pensamento” e cadernos pós-guerra de retorno-virada entre ser e nada, desprendimento ao permanecer si mesmo em transformar-se e vaguear, e estar livremente a caminho.
20. Os motivos daoistas adotados por Heidegger não podem ser ditos constituir “guinada daoista” como tal, sendo, ainda assim, sintomáticos de encontro e engajamento, não sendo esses traços e toques facetas acidentais ou contingentes do pensamento tardio de Heidegger.
3. Palavras, imagens e fios condutores
21. Heidegger refere-se mais frequentemente a palavras e imagens associadas ao Laozi, como evidente nas Palestras de Bremen de 1949 e em múltiplas discussões da coisa, exprimindo, direta e indiretamente, familiaridade com as edições alemãs do Zhuangzi de Buber (1910) e Wilhelm (1912).
22. Imagem e palavra são temas em textos daoistas antigos que empregam imagens de pensamento e palavras sugestivas e paradoxais para indicar a grande imagem sem imagem e a palavra sem palavra expressas no Daodejing 41, falando outro capítulo, Daodejing 14, de ver o que não pode ser visto.
23. Heidegger refere-se, nessa palestra, sobretudo a exemplos ocidentais (Agostinho, Klee, Heráclito), exceto pelo retrato instrutivo do artesão do santo “suporte de sino” da versão de Buber do capítulo 19 do Zhuangzi, “Cumprindo a Vida” (dasheng 達生).
24. Serve de fio condutor (Leitfaden) para a direção do caminho para Heidegger, sendo um fio parte de teia de fios que velam e revelam em seu velar a ausência-de-imagem do sem-palavra, notando Heidegger como a reunião de textos e palavras clama por prontidão e preparação para a misteriosidade das coisas.
25. Nessa narrativa, artesania não instrumental serve de imagem de pensamento para como interagir com as coisas, emergindo o suporte de sino de madeira (Glockenspielstande) como se fosse a própria árvore expressa através da obra dos espíritos, sendo moldado através de artesania responsiva nascida do “jejum que aquieta o coração-mente”.
26. Heidegger aborda a inutilidade das coisas e palavras através da “necessidade do desnecessário” e da “utilidade da inutilidade” (wuyong zhiyong 無用之用) no Zhuangzi, na terceira das Conversas do Caminho de Campo e em sua palestra de 1962 “Linguagem Transmitida e Tecnológica”.
27. A “inutilidade útil” zhuangziana, exibida em série de narrativas nas quais a coisa inútil (no sentido expansivo de pedra, árvore, pessoa, e assim por diante) floresce, enquanto a coisa útil é destruída ao ser usada, e se torna a condição do uso, em contraste com a coisa sendo caracterizada principalmente por sua disponibilidade e usabilidade pragmáticas à-mão.
28. Várias passagens ajudam a contextualizar a noção da coisa e do uso no Zhuangzi, notando-se, no capítulo externo “Vagar Setentrional do Conhecimento” (zhibeiyou 知北遊), que “o que coisifica as coisas não é ele mesmo coisa” (物物者非物).
29. É seu próprio vazio ou nada e autonaturação (isto é, a ausência-de-coisidade das coisas) que coisa (reúne) a coisa, sendo a sintonia exemplar com as coisas uma de inutilidade e não-propositividade, deixando isso as coisas coisarem, tal como são de si mesmas.
30. As reflexões tardias de Heidegger concernentes à inutilidade divergem de seus sentidos nos textos de meados dos anos 1930, sendo expressão a que Heidegger recorrentemente revisita em suas obras tardias, tipicamente sem referir-se direta ou indiretamente ao Zhuangzi.
31. É também insuficiente identificar seu pensamento do desprendimento exclusivamente com o misticismo alemão medieval ou o daoismo Lao-Zhuang antigo, sendo, contudo, claramente forte sua herança daoista, ao retratar Heidegger, através de imagens de pensamento exemplares e modelos ilustrativos, modo de ser-no-mundo.
32. Igualmente, seu deixar-desprender não significa nem unificação mística de outro mundo da alma com Deus, nem passividade contemplativa fixa, negando Heidegger repetidamente que seu pensamento seja forma de misticismo, descrevendo Pöggeler as últimas conversas de Heidegger com Bernhard Welte.
33. O deixar-desprender, com suas claras raízes eckhartianas, adquire tonalidade e estilo menos monoteístas e quase daoísticos no pensamento de Heidegger, funcionando seu desprendimento de modos significativos como o wuwei, tendo sua jornada intercultural já o associado a deixar (laissez do antigo germânico lazan).
34. O wuwei não é política econômica em textos daoistas antigos, nem é retiro místico à interioridade do si interno, sendo agir e sintonizar-se a partir da não-ação (wei wuwei) arte intramundana do ser-no-mundo que esvazia, aquieta e simplifica o si, o desejo e a vontade com humildade.
35. Essa inclinação ziranista do pensamento de Heidegger é orientada ao indivíduo nos anos 1920 e orientada à coisa depois de 1943, sendo, no pensamento inicial de Heidegger, de aproximadamente 1919 a 1930, operante em noções de retornar ao próprio autoessenciar singular e ser-com momento anárquico ou libertário símile-laissez-faire.
36. Em 1929, Heidegger pode falar de habitar co-existencialmente com a coisa ao mesmo tempo em que prioriza o Dasein e a liberdade de seu próprio autoacontecer, sendo aqui a coisa a matéria correlacional fenomenológica a ser encontrada e pensada.
37. Na primeira das Conversas do Caminho de Campo, o deixar-desprender é descrito como ajudar sem assertivamente querer e efetuar, aparecendo essa propensão quase daoista ou ziranista mais fortemente no pensamento de Heidegger após 1943.
38. Os enredamentos daoistas de Heidegger tornam-se mais claros a partir de cerca de 1943, primeiro, não se tratando o desprendimento de afastar-se e retirar-se para tranquilidade ou serenidade de espírito, como na ataraxia estoica.
39. A natureza existe não apenas através de atividade e projeção humanas, mas através do deixar emergir e mundanizar da terra, não sendo o que é inadequadamente chamado “natureza”, na medida em que natureza significa presença objetiva, ouvido no agir, querer ou anti-querer, que são necessariamente obstruções.
40. Segundo, em meio a essas mesmas reflexões, Heidegger articula afirmação que se liga a suas outras discussões relacionadas à tradução de Wilhelm do Zhuangzi: “o mais necessário é o desnecessário e o útil é o necessário.”
41. Isso não é tudo, espelhando algumas das reflexões de Heidegger durante esse período, de modos significativos, ideias expressas nas edições do Zhuangzi de Buber e Wilhelm, leitura familiar a Heidegger desde a República de Weimar, sendo a lista extensa.