Aniquilação

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

IV. Entre o vazio e a aniquilação

13. Reter o vazio

1. Visão padrão sustenta que o niilismo emprega nada e vazio para destruir sentido e valor, deixando a humanidade desamparada em cosmos cruel e indiferente, clamando as crises da modernidade por sujeito humano ou divino renovado que confira sentido ao esforço humano.

2. O Daodejing 28 recomenda praticar virtuosidade permanecendo infantil, dizendo: “conhece a claridade e preserva a escuridão” (知其白, 守其黑), comentando Wang Bi não haver necessidade de buscar nem claridade nem escuridão, pois as coisas naturalmente surgem e retornam de si mesmas.

3. Heidegger menciona essa frase na versão de Bremen de 1930 de “A Essência da Verdade”, onde a interpretou como ocultamento e desvelamento no contexto de deixar os entes serem e do mistério, referindo-se e citando a versão de Strauss várias vezes ao longo de décadas.

4. Questiona-se então quanto ao vazio do vaso, não sendo sua solidez o que efetua o conter, sendo o espaço vazio, esse nada do jarro, aquilo de que o jarro é composto enquanto vaso conteúdo e contentor, sendo, quando o jarro é preenchido, o derramar que o enche fluindo em seu vazio.

5. O jarro é aquilo que contém através de seu vazio, sendo produzido (herstellen) para erguer-se para frente (Herstand) enquanto esse vaso contentor, significando erguer-se para frente, primeiro, brotar e emergir da escuridão, seja isso ocorrendo como autofazer-se ou ser formado por outros.

6. O jarro foi antes associado ao festival, ligando-se aqui a ritual religioso e sacrifício, nos quais os deuses se aproximam, não sendo esta a retórica violenta de polemos e sacrifício de meados dos anos 1930, estando agora posta no contexto de generosidade, doação e concessão.

7. Intrigantemente, Wilhelm intitulou o Daodejing 28 como o retorno ou reversão à simplicidade (Einfalt), vertendo a frase traduzida por Strauss e citada por Heidegger como “quem reconhece a luz e, contudo, permanece na escuridão é o modelo exemplar do mundo”.

8. O contexto daoista de mundo envolvente de quatro cantos sem gumes cortantes foi delineado no capítulo anterior, aparecendo o quádruplo, na palestra de Heidegger, como o intervalo das coisas, ocultado na posicionalidade enquadrante e no colapso de todas as distâncias e intervalos entre as coisas.

14. Formadores do vazio e da aniquilação

9. Heidegger continua afirmando que o artesão não cria ou produz o jarro enquanto jarro ao trabalhar e moldar seu fundo, lados e bordas, mas antes retém e molda o vazio, no qual a coisidade do vaso surge e se ergue, trazendo-o à frente como o vaso contentor a ser preenchido e derramado.

10. Não é a natureza enquanto matéria abstrata ou matéria-prima útil que forma a base dos processos humanos de produção, sendo a natureza enquanto quádruplo abarcante e enquanto o assim-de-si das coisas e suas relações formadoras-de-mundo interentre-coisas (Ge-ding) que forma a base da ação e inação humanas.

11. A terra significa, na palestra de Heidegger, o elemental à medida que forma, sustenta e frutifica, nutrindo águas, rochas, plantas e animais, sendo o céu retratado como o elemental de sol, lua e estrelas; a alteração das estações e da luz do dia e da escuridão da noite.

12. Questiona-se então quanto aos mortais e suas atividades, sendo os mortais aqueles entes cientes de sua própria morte, não incluindo, portanto, pedras e animais que pertencem à terra, não rompendo Heidegger, nessa medida, plenamente com o paradigma antropocêntrico de Ser e Tempo aqui ou na “Carta sobre o Humanismo” de 1946.

13. São os humanos que pressupõem, dependem de, e intervêm em mundo interentre-coisas consistindo em coisas, suas relações e os lugares que reúnem e concedem, já não sendo senhores e mestres reinando sobre o ser, retendo, contudo, ainda estatuto especial em dizer, salvaguardar e pastorear os entes.

14. A discussão heideggeriana da aniquilação nuclear ressoa com a alusão de J. Robert Oppenheimer às palavras de Kṛṣṇa no Bhagavad Gītā 11.32: “agora eu [o tempo, no texto original] me tornei a morte, a destruidora de mundos”, e com os temores nucleares da era.

15. Isso indica de modo preliminar questionamento ambiental do consumo e destruição de coisas e localidades, não ocorrendo tal destruição apenas com o uso de armas de obliteração em massa, pois confirmam, para Heidegger, a tendência já existente rumo a aniquilar e reduzir a coisa a nada.

16. Em tal configuração enquadrante da realidade, o essenciar oculto da coisa não pode vir à luz, sua palavra não pode ser ouvida, e a coisidade da coisa permanece oculta e esquecida, sendo, contudo, a coisa preservada em seu ocultamento e escuridão mesmo enquanto é consumida e aniquilada em sua utilidade e luz.

17. A aniquilação da coisa encena dupla decepção para Heidegger: primeiro, a supremacia e excepcionalidade da ciência, que marginaliza e exclui outras variedades de encontrar o real em sua realidade; segundo, o equívoco de que as coisas são, não obstante, ainda coisas em sua posicionalidade enquadrada.

18. É contraditório em outros textos que ou apelam a ou hesitam diante de formas de pensamento sul e leste-asiáticas e outros modos prospectivos de habitar-no-mundo, suspeitando Heidegger que os discursos ocidentais concernentes à China e à Índia refletem mais seus próprios pressupostos e representações que qualquer encontro genuíno.

19. Fontes daoistas ziranistas iniciais exprimem que a coisa deveria ser encontrada através do deixar do wuwei em seu momento, observada receptivamente e seguida em suas flutuações, e deixada partir em sua extinção, notando Heidegger, em contraste, que a coisa ainda não foi genuinamente encontrada enquanto coisa.

20. Esses processos transcorreram e continuam a transcorrer tão fundamentalmente que já não é permitido às coisas ocorrer como si mesmas num nexo de ação e intervenção coercitivas (o wei nos contextos chineses antigos que o wuwei suspende).

15. Mundo entre Ásia e Europa

21. Questiona-se como pode tal enquadramento e erradicação de coisa e mundo ser pensado, muito menos contestado e transformado, tornando a situação global moderna isso difícil, senão impossível, para Heidegger.

22. Na “Entrevista à Spiegel”, publicada postumamente, afirma tanto (1) que não se pode desconsiderar a possibilidade de que pensamento nascido de transmissões mais primordiais possa surgir na Rússia e na China, capaz de possibilitar relação livre com a tecnologia.

23. Essa observação bem posterior é esclarecida em seus Cadernos Negros de junho de 1950, onde afirma que a tecnologia forma constelação diferente e assume problemática diferente na China, na Europa e na Rússia, clamando cada uma — e, nessa passagem, fala de Europa, Leste Asiático e Índia.

24. A própria situação intercultural de Heidegger revela a complexidade de tal resposta e — em contraste com o essencialismo de um povo idêntico — a necessidade de pensamento intercultural formalmente indicativo, democrático e pluralista do local e do global.

25. A avaliação de Heidegger pode parecer excessivamente unilateral, devendo ser ressituada no contexto da análise social crítica, sendo a modernidade diagnosticada em Heidegger como administrativo-burocrática (que confrontou na forma do planejamento e da desintegração da existência humana em “recursos humanos”).

26. A devastação do lugar e a aflição do sem-lar identificadas em seu pensamento tardio não são meramente questões teóricas ou técnicas, concernindo a questionar, construir e habitar, para os quais os discursos ziranistas indicam imagens de pensamento e modelos sugestivos.