Informação e seus correlatos motivam uma nova variedade de vivências: as atitudes (crença na existência a partir da percepção, convicção da continuidade a partir do conhecimento de um estado de coisas, admiração a partir da apreensão de qualidades). A formação de atitudes, tal como a absorção de informação, é algo que “acomete” o sujeito, não podendo ser executada da mesma maneira livre que a atenção, nem decidida por arbítrio.
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Dupla razão para a ausência de liberdade: (1) A atitude deve-se ao objeto ao qual se refere, sendo por ele exigida e, portanto, não meramente despertada, mas fundamentada; decidir contra ela seria ofensa a normas de insight. (2) Atitudes não se oferecem antes de sua emergência como ocorre com a atenção, mas tomam posse do sujeito com base na absorção de informação; impossibilidade de providenciá-las por si mesmo se não aparecem espontaneamente (o ansiar pela fé não a produz, nem a absorção na grandeza de um caráter garante a admiração devida).
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Existência de uma possibilidade indisponível à mera informação: o “tomar posição” perante a atitude num novo sentido, seja aceitando-a (entregando-se a ela alegremente) ou comportando-se negativamente contra ela. A negação não significa eliminação da atitude — o que exigiria novos motivos para invalidar os originais — mas o ato de não reconhecê-la, comportando-se como se ela não estivesse presente e tornando-a inoperante; tal comportar-se é o que
Husserl designou como
epochē, onde os atos tornam-se “neutralizados”.
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Exemplo da expectativa de viagem: diante de relato não confirmado de um evento, a crença impõe-se, mas o sujeito “quer” não acreditar enquanto não houver confirmação, não realizando preparativos e agindo como se a crença estivesse ausente, embora a postura de crença inegavelmente persista.
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A
epochē pode tornar a atitude presente inoperante na atualidade, de modo que não apenas se abstém das ações “livres”, mas também se descontinuam as atitudes não-livres que seriam evocadas.
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Exemplo da mãe e o filho na guerra: a convicção da morte impõe-se, mas o “querer” não acreditar enquanto falta o relato oficial retém o assentimento, impedindo o despertar da dor que a crença desinibida desenvolveria imediatamente; tal prevenção difere essencialmente da luta contra a dor imposta.
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Exemplo do ateu e a experiência religiosa: impossibilidade de escapar à crença, mas recusa em “fincar o pé” nela ou permitir sua operatividade, mantendo-se na visão de mundo científica que seria destruída pela crença não modificada.
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Exemplo da afeição indesejada: impossibilidade de preveni-la, mas recusa em assumi-la interiormente, o que faz cessar expressões involuntárias de inclinação genuína; difere da luta contra uma tendência à qual não se quer ceder, pois a luta não faz sentido sem o consentimento interno prévio.
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Adoção (ou negação) de uma atitude, à qual a atitude deve seu caráter de ser plenamente viva e operativa (ou neutra), não requer ato executado independentemente para existir, podendo emergir equipada com uma ou outra desde o início, embora possam ser executadas como atos próprios em outro momento. O sentimento de ser “livre” nesta execução demonstra que a consciência não desperta a crença para a vida propriamente dita naquele instante, mas confere existência ao estado de coisas acreditado; ao conferir crença irrestrita ou recusar assentimento, o sujeito age como se tornasse o evento irrevogável ou mantivesse o destino à distância.
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Contrapartida da negação de atitude presente é a adoção de uma não presente: o “fincar o pé” numa crença que, em verdade, não se possui e não está viva interiormente.
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Exemplo do planejamento futuro: arranjo da vida presente com base em planos, a despeito de convicção profunda de que um evento intervirá arruinando-os; nega-se consentimento a esta crença real viva, impedindo sua operatividade. A negação de uma atitude equivale, em todo caso, à adoção de uma postura oposta a ela; esta última, embora não seja postura viva genuína, torna-se determinante para o comportamento subsequente.
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Adoção e negação de atitudes possuem motivos e fundamentos, assim como as próprias atitudes. Motivo e fundamento podem coincidir (como na recusa de crença por falta de confiabilidade do mensageiro, onde a não-confiabilidade motiva e fundamenta a epochē). Podem também divergir (recusa de crença por ser desagradável; o desagrado é motivo, mas o fundamento pode ser outro). Possibilidade, ainda, de o comportamento ser inteiramente desprovido de fundamento objetivo, resultando em atitude irrazoável e comportamento livre, porém ininteligível.
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No campo da informação e atitude, um motivo nunca é irrelevante para a fundamentação racional, possuindo poder fundante para uma abordagem racional pelo sujeito. Todavia, é possível o erro na abordagem, fazendo-se algo diverso do exigido pelo motivo dominante; o feito tem fundamento suficiente num estado de coisas não objetivo para o sujeito.
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Exemplo: preconceito contra relato inaceitável atua como medida defensiva, onde a epochē interpola-se como substituta para uma defesa funcional. Tal “erro” ou cisão entre motivo e fundamento ocorre principalmente quando a motivação não é explicitamente executada, sendo a implicação fonte de engano e a explicitação o meio de assegurar a supremacia da razão; motivações “irracionais” são possíveis apenas no reino da razão, devendo ser consideradas “tropeços” da mesma.