DUFRENNE, Mikel. Pour l’homme. Paris: Seuil, 1968.
1. A filosofia de Heidegger, embora se encontre com uma filosofia de tom positivista na medida em que ambas se propõem a pensar o nosso tempo, não é nesse aspecto que pode atrair a adesão positivista, pois sua reflexão sobre a técnica e a história é curta e se concentra no passado, e o que realmente retém a atenção de Heidegger é a história da filosofia concebida como historial do Ser.
2. A filosofia de Heidegger é um poema e, como tal, inutilizável para um projeto de rigor científico, e os positivistas lógicos, como Carnap, consideram seus enunciados como pseudo-enunciados, não verificáveis e sem sentido, mas os positivistas franceses mostram mais respeito por sua obra.
3. O erro não é apenas o fato do homem que sucumbe à tentação, mas tem seu fundamento no Ser, que se dissimula tanto quanto se revela, sendo ao mesmo tempo revelação e obnubilação, e há no Ser o princípio mesmo do nada, e o homem só nega sobre o fundamento de um nada imanente ao Ser.
4. Entre o Ser e o não-Ser, nenhuma dialética joga, que seria ainda uma coerção para o Ser, uma norma para sua radical liberdade, e a testemunha dessa liberdade é a História, que é o historial do Ser, o lugar de suas épocas, de seu desdobramento e de seu recuo, onde se joga o destino do homem.
5. Na raiz dessa história, no coração mesmo do Ser, há o tempo, não o tempo dos eventos, mas o tempo originário que se revela como o fundamento do fundamento, a energia da transcendência do Ser, pelo qual o Nada abre o espaço onde surge a luz.
6. A historicidade do Ser não se identifica com as Potências da Natureza, e Heidegger pensa menos o Ser como Devir do que o Devir como Ser, e ele não dá à Natureza senão seu nome grego, apoyado em uma etimologia que identifica o surgir da planta com o desabrochar da luz.
7. Mas o impulso do Ser se identifica com o surgimento da luz, e para que o devir seja a aparência do Ser e a aparência seja um devir do Ser, não é preciso conferir ao Ser a densidade e o dinamismo de uma Natureza, que é outra coisa que luz, e a ontologia de Heidegger não é uma cosmologia, pois identifica Natureza e luz.
8. O homem não tem domínio sobre o Ser, mas é convocado a invocá-lo, e o destino que o chama lhe atribui uma missão: anunciar o Evangelho do Ser, dizer não o que se revela, mas que há revelação, abertura do Ser, e a questão “quem é o homem?” só pode ser perguntada no questionar sobre o Ser.
9. A preocupação com o Ser define o homem, melhor do que qualquer determinação positiva, e a autenticidade é ontológica e não ética, significando que a essência do homem é ter parte, e não tomar parte, no Ser, e o homem como ser-no-mundo não é coisa entre as coisas.
10. O homem está presente à Presença, e essa presença é o reino do Ser, e o homem é o “lá”, o Da-sein, e sendo presente, sendo no mundo, ele é ele mesmo essa presença, ou essa abertura, ou essa luz, e a ambiguidade da identidade do transcendental com a transcendência está presente em toda a filosofia de Heidegger.
11. Heidegger mantém o homem em uma subordinação radical ao Ser, que sempre guarda a iniciativa, e o homem perde, ou vê relegadas a segundo plano, todas as determinações positivas que fazem dele o objeto de um saber, mas ele não ganha a liberdade irredutível do para-si.
12. O homem é o “lá”, porque ele se encontra lá, porque é lançado lá, e esse “lá” é o lugar que o Ser exige para si, para sua patência, e todos os seus predicados são à imagem do Ser porque são exigidos pelo Ser, e a liberdade que o transpassa é a liberdade do Ser.
13. O homem pensa, mas o logos não é seu, e o pensamento é o recolhimento e a gestão do desvelamento, e o homem não inventa a linguagem, ele a encontra já lá, e a linguagem é a morada do Ser, e a questão “quem é homem?” só pode ser perguntada no questionar sobre o Ser.
14. A compreensão pré-ontológica do Ser é o que torna o homem capaz de se interrogar, e essa compreensão não é um bem do qual seríamos dotados, mas o evento que possui o homem, e a abertura nos faz abertos, e a Presença nos torna presentes.
15. A virtude essencial do homem é a docilidade, mas uma docilidade que deve ser conquistada por uma espécie de violência, e o homem deve se decidir radicalmente pelo Ser contra o Nada, arrancando-se aos prestígios do ente, e o logos é a necessidade do recolhimento, e é por isso que ele funda o homem.
16. Dois traços do pensamento heideggeriano vão fazer carreira através da filosofia do conceito: a subordinação do homem ao Ser e a identificação do Ser com a abertura, e o homem não é responsável pelo Ser, mas responde a ele, e sua palavra e seu pensamento não lhe pertencem verdadeiramente.