Saber

DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947

1. Chega-se agora ao ponto de apreciar o sentido da ciência, reunindo os principais temas que conduziram à ideia de um fracasso do saber, o que obriga a recusar doutrinas como o positivismo e o idealismo que concedem à ciência crédito ilimitado, exigindo que a filosofia se separe da ciência onde esta se revela impotente, sem que esse divórcio seja jamais total.

O fracasso do saber

2. Nenhum saber se completa, pois em toda parte subsiste um resto que lhe constitui limite, e nenhum dos votos do entendimento em busca de objetividade é definitivamente cumprido.

3. Além de sempre precário e fragmentário, o saber, em sua busca sistemática de objetividade, é obrigado a ignorar ou trair certos aspectos do ser, excluindo tudo o que é subjetivo como distorção de perspectiva ou simples ponto de vista.

4. Esse pesar mais ou menos confuso por uma harmonia nutriz com o mundo anima os processos frequentemente movidos contra os saberes, sustentados por três acusações principais que Jaspers recusa.

Crítica do positivismo e do idealismo

1. A aproximação entre positivismo e idealismo, paradoxal à primeira vista, justifica-se quando o idealismo é concebido à maneira de Hegel, como doutrina que identifica o ser ao ser do espírito explorado pelas ciências do espírito, revelando ambas as doutrinas o mesmo princípio comum de que o ser é de direito inteiramente permeável ao saber.

2. Apesar de sua convergência, positivismo e idealismo travam entre si debate interminável, suscitando cada um reação salutar do outro, podendo até inverter seus papéis, como quando o positivista testemunha inconscientemente a favor da existência por sua aspereza heroica diante da realidade nua.

3. O impulso da existência só pode ser concebido superando resolutamente positivismo e idealismo, sem que isso signifique rejeitar sem reserva sua lição, pois as noções deixadas para trás ao transcender recuperam sentido quando examinadas do ponto de vista superior alcançado.

O advento da filosofia

1. As análises precedentes, ao revelar os limites da exploração científica do mundo, abrem caminho à filosofia, sem que sua entrada em cena constitua consequência imediata dessa crítica, pois filosofar é transcender, e a filosofia não se define tanto pelo sistema que propõe quanto pelo ato original de filosofar que exige.

2. Essa descrição, destinada a acusar a diferença entre ciência e filosofia, esclarece-se ao mostrar como as visões de mundo constituem um primeiro esboço da filosofia, não se deixando facilmente definir.

3. Uma visão de mundo pode ser dita ponto de vista de um sujeito sobre o ser, desde que se entenda que, assim que reconheço um ponto de vista como ponto de vista, ele deixa de ser minha visão de mundo, pois deixo de identificar-me a ele ao assumi-lo.

4. Sendo a visão de mundo a alma da filosofia, essa breve análise permite compreender que a filosofia, demarche incomparável do sujeito para captar o ser, transcende toda ciência, restando ainda voltar-se para a ciência a fim de perceber que essa demarche já se esboça nela, constituindo, por vezes sem que ela o saiba, a condição da filosofia e já seu primeiro ato.

O significado último da ciência

1. A ciência se estende tão longe quanto o saber necessário, mas é ainda mais que isso, e explicitar esse excedente é captar o sentido da ciência, registrando sua afinidade secreta com a filosofia, cujo domínio comum é o espírito, jamais redutível a fórmulas objetivas.

2. A afinidade entre ciência e filosofia não se encontra na determinação de seus objetos ou métodos, mas mais profundamente no espírito que anima a ciência, em sua vontade originária de saber que nada pode satisfazer, vontade que não depende de causas nem de necessidade prática.

3. A vocação da ciência não é equívoca, pois deve ater-se aos fatos positivos, e é precisamente ao cumprir seu próprio fim, rompendo com a metafísica, que confessa mais claramente o impulso metafísico do qual procede.

4. Dizer que a ciência é sustentada por um impulso filosófico é dizer ao mesmo tempo que o cientista já é existência possível, pois a significação metafísica do ser só pode ser pressentida por quem já se elevou à existência.

5. O drama da ciência é buscar o ser onde só pode encontrar um aspecto incompleto, a objetividade, mas sua obstinação não é vã, pois o ser só pode ser alcançado a partir do ser objetivo, e transcender o mundo supõe tê-lo primeiro explorado.

6. A ciência tem sua dignidade por ser complementar tanto quanto oposta à filosofia, encontrando nela seu impulso e realizando-se primeiro na vontade de saber que a filosofia também procura satisfazer, configurando menos luta hostil que luta fraterna entre as duas por uma verdadeira ciência e uma verdadeira filosofia.