Objetividade transcendida

DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947

1. O ser que se revela como objeto não se esgota nessa condição, assim como o sujeito não se reduz à consciência em geral intemporal e intercambiável; trata-se de reconhecer no sujeito sua natureza singular e sua vocação mais alta através da figura da existência, e de acessar a forma última do ser mediante a transcendência e o vínculo inexprimível que a une à existência.

2. As filosofias da existência pressentiram ou esboçaram o ato de transcender, especialmente Kierkegaard e Nietzsche, ainda que a ambos tenha faltado o sentido de método e rigor.

3. A elaboração de um método para o transcender enfrenta a dificuldade de que método implica objetividade, o que se ilustra no destino de Descartes, cuja descoberta existencial no cogito acaba destruída por sua própria lucidez racionalista.

4. É antes em Kant, cujo método se chama transcendental, que se encontra um exemplo capaz de indicar o caminho, pois ele deslocou o alvo da metafísica ao recusar buscar a transcendência em qualquer ser ainda objetivo.

5. Transcender é também um ato sobre si mesmo, tarefa que cada um deve refazer por conta própria, não um exercício dialético ou artifício retórico, e por isso a filosofia de Jaspers assume caráter de apelo ético e não de coerção demonstrativa.

6. Transcender significa dois movimentos distintos: ultrapassar a objetividade dos saberes e ultrapassar toda representação, sendo esta segunda via a decisiva, pois nela o ser da existência e da transcendência não pode sequer figurar como objeto de pensamento sem ser irremediavelmente alterado.

7. A primeira via, que visa transcender a objetividade dos saberes, realiza-se por uma crítica das ciências, cujo programa consiste em restringir as pretensões inevitáveis das ciências e mostrar as fronteiras do domínio dos objetos que elas governam.

8. O processo movido contra as pretensões ilegítimas da ciência e do entendimento abre uma primeira via ao transcender, revelando que o mundo objetivo não é a figura última do ser, e exige permanecer atento tanto às insuficiências epistemológicas do saber quanto às armadilhas éticas dos princípios e normas objetivos.

9. O ser absoluto é irredutível a toda representação, transbordando não apenas as normas do saber mas a própria consciência, e transcender consiste em recusar o princípio de imanência que liga o pensamento ao objeto da representação.

10. O princípio de imanência não rege toda consciência, pois tanto a consciência empírica quanto a consciência absoluta escapam à intencionalidade que caracteriza a consciência em geral.

11. A dupla experiência do inconsciente e do caráter inefável da transcendência testemunha a ruptura da frente da imanência em suas duas extremidades, ainda que essa demonstração só valha para quem já se transcendeu a si mesmo e se tornou existência, tal como só se compreende os poetas quem entra no jogo poético.

12. Jaspers busca conferir maior autoridade ao método nas coletâneas de conferências de 1935 e 1938, onde retraça o caminho sinuoso da filosofia e propõe outra definição do transcender como concepção do caráter ao mesmo tempo envolvente e transbordante do ser, operação regida por uma alógica, já que a lógica que preside a esse gesto consiste em pensar o que não pode mais ser pensado.

13. No segundo volume dessas conferências, distinguem-se três etapas sucessivas do pensamento que transcende, correspondendo a diferentes modos de incomensurabilidade.

14. Essas duas obras conduzem ao mesmo termo da Filosofia, fazendo aparecer existência e transcendência como as noções descobertas ao transcender, sendo a existência a inspiradora não nomeada dessa lógica, que dá sentido a cada modo de incomensurabilidade e recebe da razão sua direção, vínculo dos modos do incomensurável.

15. Esclarecido o princípio dessa demarche, cabe antecipar sua conclusão perguntando se é possível conceber um ser que escape totalmente ao princípio de imanência, uma consciência que não participe da consciência em geral, e um pensamento capaz de recusar os serviços da razão e do entendimento e a objetividade do saber.