Objetividade insuperável

DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947

A objetividade insuperável

1. A objetividade revela-se insuperável, e Jaspers, longe de ceder aos prestígios de uma filosofia do inefável, mantém-se fiel aos ensinamentos do racionalismo, o que confere à sua obra um acento por vezes dramático.

Necessidade da representação

2. O ser fora da correlação com uma consciência seria nada, o que se verifica tanto no inconsciente, que só tem ser para nós enquanto se torna consciente, quanto nas sensações da consciência empírica, submetidas ao princípio de imanência, e igualmente na existência e na transcendência, que só se submetem à reflexão filosófica sob condição de anexação a uma representação.

3. O princípio de imanência, embora ameace bloquear o horizonte do ser, jamais pode ser definitivamente contornado, pois o próprio movimento pelo qual o pensamento o ultrapassa ainda se submete à sua exigência, de modo que a consciência em geral, apesar de ocupar lugar singular na hierarquia dos modos de consciência, não constitui forma isolável, já que toda consciência participa dela.

4. A impossibilidade de transcender a consciência em geral deve-se ainda a ela mesma já ser, em sentido ativo, transcendente, pois para elevar-se da condição empírica à intencionalidade o sujeito precisou transcender, constituindo talvez já uma iniciativa da existência.

5. A pensão que transcende conduz a uma clareza sempre mais viva das representações, exigência da qual o pensamento não pode escapar sob pena de tornar-se incomunicável.

Necessidade da clareza

6. O pensamento que transcende rumo ao ser inevitavelmente excedente a toda representação deve ainda assim nomeá-lo, exprimindo-se sob pena de afundar no informe e no arbitrário, sem poder renunciar à objetividade nem à universalidade que a caracteriza.

7. A teoria da existência utilizará primeiro as categorias da psicologia e da metafísica tradicionais, até convencer-se de sua inadequação e inventar novo idioma segundo o qual a existência não será mais explorada como o mundo, mas iluminada indiretamente por instrumentos de pensamento de caráter específico, os signa.

8. Mesmo recorrendo a representações inéditas como signos e números, a filosofia não pode dispensar as exigências de clareza e universalidade, de modo que, assim como a consciência em geral, a razão tampouco pode ser transcendida.

Necessidade do mundo objetivo

9. A impossibilidade de desvencilhar-se de toda objetividade não compromete o destino do pensamento que transcende, pois transcender não é abandonar o mundo, mas paradoxalmente ultrapassar o mundo dentro do mundo, já que a existência e a transcendência, embora ultrapassem o mundo, permanecem presentes a ele.

10. É no ser empírico que o homem constitui existência possível, alcançando-a não por evasão ilusória, mas permanecendo no mundo e consciente da situação nele ocupada.

11. A filosofia, ao ultrapassar a ciência depositária da objetividade cujos limites já foram revelados, ainda reivindica sua colaboração, pois renunciar à ciência e esquivar-se da realidade empírica equivale a cair no vazio.

12. Transcender não significa abandonar irrevogavelmente a objetividade, mas ultrapassá-la retornando sempre a ela, sob risco de nela se perder tanto por excesso quanto por negligência.