Mundo

DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947

Ambiguidade da noção de mundo

1. Remontando às fontes da noção de mundo, verifica-se nela um equívoco irredutível, pois o mundo é primeiramente o não-eu que se opõe ao eu, o outro com quem sempre convivo, já que nunca esgoto o ser sozinho.

2. No mundo privado onde venho a ser, recuso-me a sepultar-me, recusando viver nele de vida cega e passiva, promovendo antes a consciência em geral e entregando-me a uma busca sem fim, tentativa de romper o círculo do eu e do não-eu para descobrir o mundo objetivo sobrevoando os mundos particulares.

3. Quem pensa o mundo objetivo não pode abandonar o mundo subjetivo, pois além de tudo que nele é animal, é também nesse mundo subjetivo que se realiza a salvação espiritual e as mais altas possibilidades, de modo que a vida e o pensamento arriscam-se a permanecer dilacerados entre os dois mundos, que jamais se justapõem sem interferir.

4. A mesma dialética se repete no plano da ação, pois o mundo é ao mesmo tempo um mundo dado, lugar das descobertas, e um mundo produzido, lugar das invenções, aspectos que sempre se conjugam, já que o dado só é acessível pela atividade e toda produção deve contar com o dado.

5. Dessas análises decorre uma dupla conclusão: primeiro, a noção de mundo comporta ambiguidade irrevogável, pois ao dizer o mundo visam-se sempre dois mundos que permanecem ligados apesar de toda distinção, o que compromete de saída qualquer estatuto objetivo do mundo e a possibilidade de identificá-lo ao ser absoluto.

O mundo dividido entre as esferas da realidade

1. A consciência imediata do homem e a vontade metódica do sábio concordam em buscar a unidade do mundo, mas esse voto não pode ser satisfeito e deve permanecer, a título de ideia, a estrela polar da pesquisa, pois a realidade encontra-se fragmentada por falhas tão profundas que exigem um salto para transpô-las, sendo impossível reconduzir todo o real a um princípio único.

2. Cada um desses graus do real comporta uma dimensão inteiramente nova e uma objetividade própria, o que basta para medir o fosso que separa cada esfera.

3. O estudo das esferas do espírito revela que sua pluralidade permanece irredutível e sem solução, pois o combate travado entre religião, arte, política, ética e economia por supremacia não pode ser conciliado nem submetido a arbitragem soberana, de modo que querer compô-las em sistema é tomar consciência de sua incompatibilidade.

4. Se o espírito encontra seu limite na existência que o anima e o ultrapassa, a matéria, no polo oposto do real, porta sua limitação em si mesma, sendo a desordem impenetrável que só se manifesta através da estatística, o irracional e o inconcebível refletido nos movimentos imprevisíveis dos átomos e na contingência das leis da natureza.