DUFRENNE, Mikel. The notion of the A Priori. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2009.
A Noção do A Priori
1. A noção de a priori é um tema central na filosofia de Kant, originando sua revolução copernicana, e o conhecimento a priori puro é um fato da razão teórica e prática, cuja descoberta atribui à metafísica o programa de sistematizar esse conhecimento e exige uma crítica que investigue a faculdade da razão em relação a todo conhecimento a priori puro.
2. A crítica kantiana distingue o a priori do transcendental, onde o termo “transcendental” não caracteriza o conhecimento a priori, mas descreve o conhecimento do caráter a priori do a priori, ou seja, a reflexão sobre sua natureza e função, e o que pode ser chamado de transcendental é o conhecimento de que certas representações não são de origem empírica e, no entanto, podem se relacionar a priori com objetos da experiência.
3. O a priori é definido por sua relação com a experiência, sendo anterior a ela, e essa anterioridade é uma indicação primária de sua natureza transcendental, e a experiência envolve sempre o reconhecimento de um dado que é recebido pela sensibilidade e que não pode ser justificado pela razão.
4. Kant identifica o elemento material com o dado e o elemento formal com o a priori, seguindo a influência de Hume, e o a priori só pode ser formal, pertencendo à atividade constitutiva da mente, nunca se apresentando como algo constituído, e a intuição pura, dada a priori como forma da intuição, não oferece nada material.
5. A anterioridade do a priori tem um significado lógico, pois ser anterior à experiência significa ser independente dela, e as proposições empíricas sobre a matéria dos fenômenos são particulares e contingentes, enquanto as proposições sobre sua forma são necessárias e universais, e a necessidade tem um significado lógico primário.
6. O a priori tem uma função transcendental, pois, se é anterior à experiência e sua validade não depende dela, ainda assim ele a fundamenta, e fundamentar significa tornar possível, não na ordem dos fatos, mas na ordem das razões, ou seja, conferir significado a algo para um sujeito.
7. O fundamento da experiência é tanto sensível quanto intelectual, devido à finitude de um conhecimento submetido à intuição sensível, e essa forma, que é o a priori, é transcendental porque é a condição para a possibilidade do conhecimento a posteriori.
8. O a priori visa a experiência, e a tarefa da Crítica é apresentar o a priori nesse papel e delinear seus limites, pois todo o entendimento que extrai de si mesmo só é útil quando empregado na experiência, e não se pode fazer um uso transcendente do transcendental.
9. O a priori, embora seja o princípio da experiência, também precisa da experiência, como se vê na noção de princípios dinâmicos, onde a síntese se aplica à existência de um fenômeno em geral, e a demonstração dos princípios não se realiza apenas no plano lógico.
10. O a priori é essencialmente uma regra ou princípio, e os princípios do entendimento fundamentam na razão o que se pode chamar de princípios da sensibilidade, e o princípio confere às representações a dignidade de uma relação com um objeto, convertendo a intencionalidade de facto em intencionalidade de jure.
11. A reflexão transcendental sobre o emprego do a priori o faz aparecer como a condição para a objetividade do a posteriori, e o a posteriori aparece como a condição para a legitimidade do a priori, e essa reciprocidade levanta a questão de saber se se pode manter algum equilíbrio entre racionalismo e empirismo.
12. O primeiro problema decorrente da filosofia transcendental diz respeito à natureza do sujeito como possuidor do a priori, que, ao fundamentar a objetividade, só pode ser atribuído a uma subjetividade na medida em que é constitutivo, tornando a experiência possível sem ser nela discernível.
13. O conhecimento a priori se refere ao cogito, mas esse cogito talvez seja impessoal, e o “eu penso” torna-se um “eu posso”, e esses dois termos se combinam para definir a subjetividade como capaz de conhecer o a priori.
14. O conhecimento a priori puro pode ser tornado explícito, exigindo um sujeito concreto, mas ele é realmente apreendido em sua pureza apenas quando considerado em seu funcionamento real, e todo progresso na matemática é feito desenvolvendo o implícito, e o mesmo ocorre com a moralidade natural.
15. O a priori é imanente na consciência empírica e está ligado à subjetividade psicológica, e a distinção entre o transcendental e o psicológico se torna problemática, e a análise reflexiva que descobre o sujeito transcendental se justapõe a uma análise que tende a psicologizar o transcendental.
16. O “eu penso” é um princípio absolutamente primário, mas ele também aparece como um agente, e a hesitação quanto à primazia da imaginação significa que o “eu penso” aparece tanto como um princípio quanto como um agente, resultando na ambiguidade do elemento transcendental.
17. A subjetividade não é apenas determinante, mas determinada, e a questão fundamental torna-se “o que é o homem?”, e o a priori deve designar tanto uma condição formal da experiência quanto uma condição que emana da natureza subjetiva da mente, expressando a natureza do sujeito.
18. O a priori é a forma impressa no que é conhecido pela ação do conhecimento, e a dedução das categorias a partir da forma lógica dos juízos é justificada porque os juízos são “atos do entendimento”, e as categorias devem ser concebidas como métodos, mas esses métodos devem ser praticados pelo sujeito como Gemüt.
19. O dilema de Kant decorre da necessidade de distinguir o transcendental do psicológico no sujeito, e o sujeito da análise reflexiva não é constituído, sendo a apercepção apenas um poder transcendental, e o “eu” do “eu penso” ainda não é a primeira pessoa do verbo.
20. O “eu penso” é formal e impessoal, e a consciência transcendental só pode ser autoconsciência, não autoconhecimento, e o conhecedor não pode ser conhecido, pois o que é conhecido é imediatamente reduzido ao status de objeto, mas a consciência é pelo menos autoconsciência.
21. Embora Kant mantenha a distinção entre o transcendental e o psicológico, seus intérpretes, em sua maioria, desenvolveram o tema de uma filosofia transcendental, purificando-o de qualquer psicologismo, e Cohen denuncia uma interpretação psicológica em Fichte, afirmando que o problema real é epistemológico.
22. A consciência, interpretada como princípio da possibilidade da experiência, não precisa ser real e, portanto, é impessoal, e a filosofia transcendental se distingue do positivismo, mas o possível deriva seu significado de sua referência ao real.
23. A fenomenologia também enfrenta a dificuldade de distinguir o transcendental do psicológico, e a condenação do psicologismo pode ter dois sentidos: condenar uma doutrina psicológica que reduz os atos da consciência a estados, e recusar qualquer compromisso com a psicologia para preservar a pureza do transcendental.
24. Merleau-Ponty identifica o psicológico e o transcendental na noção de existência, e a atividade constitutiva consiste em apreender um significado oferecido em uma forma concreta, pertencendo a um ser no mundo, e o constitutivo é constituinte apenas porque é ao mesmo tempo constituído.
25. Fink aprofunda a interpretação da fenomenologia, distinguindo a intencionalidade operante da intencionalidade já dada, e a redução fenomenológica leva à descoberta do ego transcendental para quem o mundo é um universum de valor transcendental, representando um salto para o absoluto.
26. A distinção entre o psicológico e o transcendental, levada ao extremo, cria sérias dificuldades, como na fenomenologia de Fink e na ontologia de Heidegger, onde a transcendência é o movimento pelo qual o Dasein projeta as bases de um mundo enquanto se sente possuído por ele, sendo tanto fonte quanto paixão.
27. Heidegger identifica o transcendental com o Ser, e o a priori se torna a manifestação, no homem, do movimento pelo qual o Ser se revela e, ao se revelar, se constitui como tempo, expressando a finitude do homem, mas isso exclui a possibilidade de uma dedução transcendental e dissolve o problema da relação sujeito-objeto.
28. Kant, ao contrário, mantém o dualismo entre mente e mundo, e o a priori só ganha significado no a posteriori, e a distinção entre fenômeno e númeno afirma o em-si, a recusa do idealismo e do monismo, e a finitude é inequívoca porque a intuição não é produtiva, e o ver não é criar.
29. O segundo problema decorrente da filosofia transcendental é o da relação sujeito-objeto, e Kant evita os impasses de Leibniz ao afirmar que o real é primariamente dado, juntamente com a autoconsciência, e a existência do objeto está implicada pela própria experiência da autoconsciência.
30. Kant introduz a ideia de subsumção (ou constituição) para explicar como o a priori estrutura o a posteriori, mas a atividade constitutiva do Gemüt levanta a questão de como descrevê-la sem cair em uma mitologia das operações intelectuais ou sem negar o tema da finitude.
31. Hegel denuncia o psicologismo que ameaça a revolução copernicana, pois o sujeito constitutivo se opõe ao objeto, e a redução do transcendental ao antropológico pode abrir caminho para o especulativo, pois o entendimento é reconhecido como algo não absoluto.
32. Hegel encontra em Kant, na ética e na estética, prenúncios da identidade especulativa, e a imaginação é o lugar privilegiado onde a mediação requerida pelo pensamento especulativo pode ocorrer, pois ela é a origem da unidade sintética original, distinguindo-se do eu abstrato.
33. A imaginação, concebida ontologicamente, é o logos cujo movimento dialético engendra a natureza e o espírito, e todas as doutrinas que tentam salvar o transcendental do psicológico, direcionando-o para o metafísico, enfatizam o papel da imaginação.
34. Hegel exige que a filosofia especulativa supere o dualismo concebendo a identidade absoluta do pensamento e do ser, e a identidade do Absoluto é a identidade da certeza e da verdade, e o que a consciência deve descobrir ao chegar à verdade é sua própria identidade com o objeto.
35. A noção de dialética, embora implícita nas primeiras obras de Hegel, é explicitada posteriormente, e a dialética significa que o movimento é mais real do que o que é movido, e que a mediação é mais real do que os termos que ela opõe e une, e o Absoluto triunfa, mas apenas como Ideia.
36. Hegel elimina o transcendental, ou permite a reflexão transcendental apenas com a condição de que ela seja finalmente interpretada como reflexão absoluta, e a lógica transcendental de Kant, propriamente interpretada, é uma ontologia, e o a priori é o logos em relação ao qual o a posteriori é a experiência.
37. A teoria da subsumção ou constituição, que pressupõe que o transcendental se encontra fora da experiência, é eliminada, e para evitar o problema da constituição, não se deve adotar a solução de Hegel, que identifica experiência e possibilidade da experiência, e a ideia de constituição leva à fenomenologia husserliana.
38. Tanto Hegel quanto Husserl absolutizam o transcendental, e a noção de a priori exige ser desenvolvida em outra direção, e a pergunta é se podemos compreender o a priori em sua função transcendental sem atribuí-lo exclusivamente à subjetividade e sem identificar radicalmente a priori e a posteriori.