CRIMES CONTRA A HUMANIDADE

DERRIDA, Jacques. Le siècle et le pardon. Le Débat, Paris, n. 103, p. 11-17, jan./fév. 1999.

Mesmo que palavras como “crime contra a humanidade” façam agora parte da linguagem quotidiana. Este acontecimento foi, ele próprio, produzido e autorizado por uma comunidade internacional numa data específica e de acordo com um padrão específico da sua história. Uma história que se entrelaça, mas não se confunde, com a história de uma reafirmação dos direitos humanos, de uma nova Declaração dos Direitos do Homem. Esta espécie de mutação estruturou o espaço teatral em que se desenrola — sinceramente ou não — o grande perdão, a grande cena de arrependimento de que estamos a tratar. Na sua própria teatralidade, tem muitas vezes as características de uma grande convulsão — atrevemo-nos a dizer uma compulsão frenética? Não, felizmente também responde a um “bom” movimento. Mas o simulacro, o ritual automático, a hipocrisia, o cálculo ou a anedota fazem muitas vezes parte do jogo e convidam-se como parasitas para esta cerimônia da culpa. Eis uma humanidade inteira abalada por um movimento que se pretende unânime, eis um gênero humano que, de repente, pretende acusar-se a si próprio, pública e espetacularmente, de todos os crimes que cometeu contra si próprio, “contra a humanidade”. Porque se começássemos a acusar-nos e a pedir perdão por todos os crimes cometidos contra a humanidade no passado, deixaria de haver um inocente na Terra — e, portanto, ninguém em posição de julgar ou arbitrar. Todos nós somos herdeiros, pelo menos, de pessoas ou acontecimentos marcados de forma essencial, interior, inefável, por crimes contra a humanidade. Por vezes, esses acontecimentos, esses assassínios maciços, organizados, cruéis, que podem ter sido revoluções, grandes revoluções canônicas e “legítimas”, foram precisamente os que levaram à emergência de conceitos como os direitos humanos ou os crimes contra a humanidade.

Quer se veja nisso um imenso progresso, uma transformação histórica ou um conceito ainda obscuro em seus limites, frágil em seus fundamentos (e é possível considerar as duas coisas ao mesmo tempo — eu, pessoalmente, me inclino para isso), não se pode negar este fato: o conceito de “crime contra a humanidade” permanece no horizonte de toda a geopolítica do perdão. É ele que lhe fornece seu discurso e sua legitimação. Veja-se o exemplo marcante da Comissão da Verdade e Reconciliação na África do Sul. Ela continua sendo única, apesar das analogias — apenas analogias — com alguns precedentes sul-americanos, notadamente no Chile. Pois bem, o que conferiu sua justificativa definitiva, sua legitimidade declarada a essa comissão, foi a definição do apartheid como “crime contra a humanidade” pela comunidade internacional, representada pela ONU.

Essa convulsão de que eu falava assumiria hoje a forma de uma conversão. Uma conversão de fato e tendencialmente universal: em vias de globalização. Pois se, como acredito, o conceito de crime contra a humanidade é a acusação central dessa autoacusação, desse arrependimento e desse perdão solicitado; se, por outro lado, somente a sacralidade do ser humano pode, em última instância, justificar esse conceito (nada é pior, nessa lógica, do que um crime contra a humanidade cometido pelo homem e contra os direitos humanos); se essa sacralidade encontra seu sentido na memória abraâmica das religiões do Livro e em uma interpretação judaica, mas sobretudo cristã, do “próximo” ou do “semelhante”; se, portanto, o crime contra a humanidade é um crime contra o que há de mais sagrado no ser vivo e, portanto, já contra o divino no homem, no Deus-feito-homem ou no homem-feito-Deus-por-Deus (a morte do homem e a morte de Deus revelariam aqui o mesmo crime), então a “globalização” do perdão se assemelha a uma imensa cena de confissão em andamento, portanto, a uma convulsão-conversão-confissão virtualmente cristã, um processo de cristianização que já não precisa mais da Igreja cristã.

Se, como sugeri há pouco, tal linguagem cruza e acumula em si tradições poderosas (a cultura “abraâmica” e a de um humanismo filosófico, mais precisamente de um cosmopolitismo que, por sua vez, nasceu de uma fusão entre o estoicismo e o cristianismo paulino), por que ela se impõe hoje a culturas que, em sua origem, não são nem europeias nem “bíblicas”? Penso nessas cenas em que um primeiro-ministro japonês “pediu perdão” aos coreanos e aos chineses pelas violências do passado. É verdade que ele apresentou suas “heartfelt apologies” em nome próprio, inicialmente sem envolver o Imperador, chefe de Estado, mas um primeiro-ministro sempre representa mais do que um simples cidadão. Recentemente, houve verdadeiras negociações — desta vez, oficiais e intensas — entre o governo japonês e o governo sul-coreano sobre esse assunto. Estavam em jogo reparações e uma reorientação político-econômica. Essas negociações visavam, como quase sempre acontece, promover uma reconciliação (nacional ou internacional) propícia à normalização. A linguagem do perdão, a serviço de objetivos específicos, estava longe de ser pura e desinteressada. Como sempre na esfera política.