GEIST

DERRIDA, Jacques. Do Espírito. Paris: GF-Flammarion, 1990, 32-36)

Que se chama então de espírito, Geist?

No Sein und Zeit, trata-se, de início, de uma palavra cujo significado permanece mergulhado numa espécie de obscuridade ontológica. Heidegger o recorda e pede, quanto a isto, a máxima vigilância. Essa palavra remete a uma série de significados que têm um traço comum: opor-se à coisa, à determinação metafísica da coisidade e principalmente à coisificação do sujeito, da subjetividade do sujeito, no seu enfoque cartesiano. É a série da alma, da consciência, do espírito, da pessoa. O espírito não é a coisa, não é o corpo. Bem entendido, essa determinação subjetiva do espírito é o que uma delimitação (Abgrenzung) deve expor, poder-se-ia dizer liberar a analítica existencial do Dasein. Aqui se vê assinalar a tarefa de preparar um tratamento filosófico da questão “Que é o homem?”. É preciso lembrar que ela precede (liegt vor, sublinha Heidegger) toda biologia, toda antropologia, toda psicologia. Poder-se-ia dizer toda pneumatologia, este outro nome que Hegel dá à psicologia racional, que ele critica aliás também como “metafísica abstrata do entendimento”.

A analítica existencial deve, em particular, marcar distância perante duas tentativas, duas tentações também, posto que se poderia correr o risco de ver uma genealogia onde haveria um salto, uma ruptura, em todo o caso, uma problematização radical.

De um lado, nos perderíamos — seria irreführend — se considerássemos o cogito cartesiano como o bom exemplo histórico, o precedente exemplar que abre caminho à analítica existencial. Esta põe a questão ontológica do sum que Descartes teria deixado totalmente fora de cogitação ou fora de lugar (völlig unerörtet) (parágrafo 10, p. 46). Teria sido necessário determinar o ser do sum, para definir em seguida o modo de ser de suas cogitationes. Partindo, como Descartes faz, de um ego e de um sujeito imediatamente dados, deixa-se escapar a fenomenalidade do Dasein (parágrafo 10, p. 46). A acusação visa também a fenomenologia do espírito e, em silêncio, a fenomenologia transcendental e o cogito husserliano. Enquanto não a submetemos a um esclarecimento ontológico, a ideia do sujeito continua a participar da posição (Ansatz) de um subjectum ou de um hypokeimenon, portanto de qualquer substância ou substrato, mesmo que, no plano apenas ôntico, oponha-mo-nos ao que se poderia chamar Seelensubstanz, ao substancialismo psíquico ou a toda a reificação da consciência (Verdinglichung des bewusstseins) (parágrafo 10, p. 46). Porque, para rejeitar a coisificação ou a substancialização, gasto corrente na época do Sein und Zeit, seria preciso esclarecer ainda a proveniência ontológica daquilo que se entende por “coisa”, realidade ou coisidade (Dinglichkeit). Na falta de se ter esclarecido a proveniência ontológica da coisidade, a fortiori, da substancialidade, tudo o que se entende “positivamente” (positiv) quando se fala de ser não-coisificado (dem nichtverdinglichten Sein) do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa etc permanecerá ontologicamente problemático. A esta série, Heidegger já acrescentara o eu e a razão. É óbvio que o inconsciente pertence ao mesmo conjunto. Antes, no parágrafo 6, intitulado “A tarefa de uma desconstrução (Destruktion) da história da ontologia” (principalmente p. 22).

Geist faz parte então da série das não-coisas, do que se pretende, em geral, opor à coisa. É o que não se deixa de modo nenhum coisificar. Mas enquanto o ser daquilo que se entende por coisa não está ontologicamente esclarecido — e não o será nem por Descartes, nem por Husserl, nem por quem quer que tenha recomendado não coisificar o sujeito, a alma, a consciência, o espírito, a pessoa — esses conceitos permanecem problemáticos ou dogmáticos. Pelo menos permanecem assim do ponto de vista de uma analítica existencial do Dasein. Todas essas palavras, e pois a palavra espírito, podem certamente designar campos da fenomenalidade que uma fenomenologia poderia explorar. Mas só podemos utilizá-los assim, tornando-nos indiferentes a toda a questão sobre o ser de cada um desses entes.

Esses termos e esses conceitos não têm lugar numa analítica do Dasein, que busca determinar o ente que somos. Heidegger anuncia então que vai evitá-los (vermeiden). Para dizer o que somos, quem somos, parece indispensável evitar todos os conceitos da série subjetiva ou subjetal: em particular o de espírito (p. 46).