A caracterização de Dasein como vida intencional do homem revela uma insuficiência fundamental, pois permanece dependente de categorias ligadas à consciência explícita e, assim, mantém-se no horizonte da referência temática a objetos enquanto dados da awareness.
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Mesmo quando a análise ultrapassa a polaridade sujeito-objeto, a referência aos elementos da consciência explícita conserva-se no nível do comportamento ôntico com os entes, não alcançando a dimensão ontológica que constitui a possibilidade desse comportamento.
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A redução de Dasein à vida intencional entendida como campo de awareness explícita destrói a possibilidade de uma retomada autêntica de Sein und Zeit, pois confunde o plano do ser da consciência com o plano do ser que torna a consciência possível.
A substituição terminológica de consciência por Dasein não pode ser compreendida como mera troca lexical, mas como deslocamento do problema para o ser da consciência.
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A consciência não cria a abertura dos entes nem possibilita que o homem esteja aberto a eles, sendo essa abertura constitutiva de Dasein.
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A questão fundamental não é psicológica nem gnosiológica, mas ontológica, pois diz respeito ao modo de ser que funda qualquer relação consciente.
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Distinção entre consciência e a abertura ontológica de Dasein
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A abertura de Dasein ao ser é mais originária do que o acesso do intelecto ao seu primum cognitum.
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Tal abertura pertence ao homem inteiro em sua essência e não apenas à faculdade intelectual.
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Essa estrutura permite que os entes sejam acessíveis como entes, inclusive em níveis pré-intelectuais de contato.
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A caracterização de Dasein como campo de awareness é enganosa, pois sugere uma estrutura subjetiva.
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O ser-no-mundo expressa transcendência e não subjetividade.
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A transcendência designa a estrutura pela qual Dasein já se encontra além de si mesmo nos entes, antes de qualquer tematização consciente.
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A compreensão do ser como fundamento da consciência
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O homem é definido pela compreensão do ser, mas tal compreensão não pertence à ordem do entendimento no sentido clássico.
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A intencionalidade da consciência não é idêntica à transcendência.
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A intencionalidade pressupõe a transcendência, mas não a constitui nem a origina.
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A transcendência é a estrutura ontológica pela qual Dasein é aberto ao ser dos entes.
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Análise do esse intentionale e sua distinção em relação ao sujeito cognoscente
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O esse intentionale enquanto constitutivo de um campo de awareness não se identifica com a atualidade do sujeito que conhece nem com a do objeto conhecido.
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Mesmo assim, identificar a intencionalidade com transcendência permanece inadequado.
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A intencionalidade, mesmo entendida como esse intentionale, permanece no nível do comportamento ôntico-existencial.
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A transcendência pertence à estrutura ontológica de Dasein e constitui a condição de possibilidade de toda intencionalidade.
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A estrutura existencial de Dasein como fundamento da representação e da consciência
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A natureza existencial do homem explica por que ele pode representar os entes como tais e ter consciência deles.
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A existência não se reduz ao ser-si-mesmo nem pode ser definida nesses termos.
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Superação da intencionalidade em direção à abertura originária
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Para alcançar a noção de Dasein em sua raiz, é necessário ultrapassar a intencionalidade da consciência.
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A crítica heideggeriana às interpretações baseadas primariamente na intencionalidade é radical.
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Distinção entre níveis ôntico-existencial e ontológico
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A intencionalidade fenomenológica descreve uma relação entre entes.
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O comportamento ôntico-existencial só é possível porque Dasein é aberto ao ser dos entes.
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A concepção do homem como mero sujeito de atos conscientes implica esquecimento do ser.
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Dasein como si-mesmo não subjetivo
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Dasein possui estrutura de si-mesmo, mas não de sujeito consciente.
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A estrutura ontológica de Dasein permite que ele se torne sujeito e consciente, sem que essa estrutura seja ela mesma consciente.
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Relação entre intencionalidade fenomenológica e análise da transcendência
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A intencionalidade visada por Heidegger é a da fenomenologia, especialmente a de
Husserl.
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Dasein, considerado em sua totalidade, é um si-mesmo trans-subjetivo.
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Introdução da noção operatória de si-mesmo onto-consciente
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A expressão onto-consciente não possui fundamento textual em Heidegger.
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Essa dimensão não é consciente e pode ser dita inconsciente apenas no sentido ontológico.
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Reavaliação da crítica heideggeriana à intencionalidade à luz do tomismo
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A interpretação de Dasein como vida intencional só é incompatível com Heidegger se o esse intentionale for reduzido a suas condições secundárias.
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Para a filosofia tomista, o conceito é o nível mais elevado da atualização intencional, mas não o único.
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Somente aquilo que entra no modo de esse intentionale pode contribuir para a constituição do cognoscente enquanto tal.
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Prioridade ontológica da transcendência sobre a consciência
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A consciência é ontologicamente posterior à orientação transcendental do si-mesmo.
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Inverter essa ordem implica distorcer todo o problema.
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Paralelo final entre
Tomás de Aquino e Heidegger
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A distinção tomista entre esse materiale e esse immateriale ou intentionale expressa duas condições fundamentais do ser.
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Heidegger distingue, em termos fenomenológicos, níveis análogos.
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A análise do ser-junto-a revela que a relação originária com o mundo não é justaposição espacial.
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Os dois textos convergem ao tocar a mesma realidade fundamental.
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Conclusão provisória sobre Dasein como vida intencional
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Dasein pode ser dito vida intencional do homem apenas se essa intencionalidade for entendida em sua integridade e em sua fonte.
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A precisão do sentido de Dasein como si-mesmo onto-consciente mostra-se necessária para a continuação da investigação.