Verificação inicial da prioridade ontico-ontológica de Dasein
A correspondência entre a distinção tomista entitativum–intentionale e a distinção heideggeriana ontisch–ontologisch confirma a legitimidade da reivindicação de originalidade problemática de Heidegger.
A prioridade ontico-ontológica de Dasein foi reconhecida na tradição, mas sem que sua estrutura ontológica própria fosse tematizada como problema.
O pensamento tomista reconhece a não identidade entre inteligir e ser, mas orienta sua análise principalmente ao esse enquanto existentia exercita.
A insuficiência dessa orientação manifesta-se na incapacidade de integrar plenamente fenômenos históricos, culturais, sociais e psicológicos.
Tais fenômenos encontram seu fundamento primário não no esse entitativo, mas no esse do ens intentionale.
A análise adequada desses domínios exige uma Daseinsanalyse, isto é, uma investigação da estrutura intencional da existência humana.
Deslocamento da análise da vida intencional para sua fonte originária
A vida intencional não deve ser considerada apenas como meio suprassubjetivo de união, mas em seu processo dinâmico de origem.
Esse processo tem sua raiz única na fonte comum das potências da alma.
Os textos de Kant und das Problem der Metaphysik são privilegiados para essa análise.
Neles, Dasein é articulado como imaginação transcendental, entendida como fonte comum do sensível e do inteligível.
Essa articulação permite situar Dasein como origem transcendental da experiência.
Introdução da distinção entre inconsciente espiritual e inconsciente automático
O inconsciente não designa necessariamente uma atividade totalmente inconsciente.
Designa antes uma atividade cuja origem é inconsciente, mas cujo ápice emerge na consciência.
Deve-se distinguir rigorosamente dois domínios.
O inconsciente espiritual ou pré-consciente, próprio das dinâmicas do espírito.
O inconsciente automático, ligado às dinâmicas instintivas e psíquicas de base orgânica.
Ambos pertencem ao domínio do esse intentionale, embora por modos distintos.
O primeiro por imaterialidade espiritual.
O segundo por uma imaterialidade intermediária própria de certas organizações materiais.
Unidade existencial dos dois domínios do inconsciente
Apesar de sua distinção essencial, ambos operam simultaneamente na existência concreta.
Seus efeitos interferem e se entrelaçam na vida consciente ordinária.
O inconsciente espiritual raramente opera de modo absolutamente isolado.
Mesmo nas formas mais elevadas de atividade espiritual, subsiste alguma mediação com o inconsciente automático.
Fundamentação pré-consciente da atividade intelectual e volitiva
A atividade ordinária da inteligência revela a precedência de uma vida pré-consciente.
Ideias, descobertas e decisões livres emergem de um fundo não tematizado.
A razão não se reduz a suas operações lógicas conscientes.
Sob a superfície conceitual, opera uma vida intelectual profunda, translúcida e fecunda.
Essa vida pré-consciente constitui a fonte da criatividade, do conhecimento e da liberdade.
Emergência do conceito de si-mesmo onto-consciente
O si-mesmo consciente emerge de um fundo ontológico não consciente.
Esse fundo constitui a dimensão ontológica do si-mesmo enquanto consciente.
A investigação desse si-mesmo exige a superação do subjetivismo moderno.
O subjetivismo cartesiano reduz o ser à oposição sujeito–objeto.
Essa redução implica o esquecimento do mistério da presença do ser.
Superação do subjetivismo e reabilitação do inconsciente ontológico
A redescoberta do inconsciente por Freud obriga a filosofia a reconhecer sua existência.
Heidegger obriga a ir além desse reconhecimento, tematizando seu modo próprio de ser.
Antes de Descartes, a alma era concebida como substância distinta de suas operações.
Embora não tematizassem o inconsciente, os escolásticos pressupunham sua realidade.
Intelecto agente como raiz ontológica da transcendência
A doutrina do intellectus agens explica a passagem do sensível ao inteligível.
O intelecto agente atualiza a inteligibilidade potencial dos fantasmas.
Em Tomás de Aquino, o intelecto agente é intrínseco à alma individual.
Ele constitui uma fonte espiritual sempre em ato.
Essa fonte é identificada como raiz do processo de transcendência.
Dasein é compreendido como esse processo enquanto modo de ser humano.
Relação entre imaginação, intelecto e transcendência
As potências da alma emanam da essência da alma segundo uma ordem natural.
As potências mais perfeitas são princípio e razão de ser das menos perfeitas.
A imaginação procede da essência da alma mediante o intelecto.
Por isso, a imaginação pode ser dita transcendental em sentido próprio.
Todas as potências convergem numa raiz comum pré-consciente.
Essa convergência constitui a unidade da vida intencional.
Dasein como totalidade estrutural da vida intencional
A vida intencional constitui um único universo articulado internamente.
Sensação, imaginação, inteligência e afeto interpenetram-se.
Esse universo existe segundo o modo próprio do esse intentionale.
É por isso que pode ser designado como a vida intencional do homem.
O centro dessa totalidade é a transcendência.
Identificada com a imaginação transcendental em Kant.
Identificada com Dasein em Sein und Zeit.
Relação entre si-mesmo, ego e consciência
O ego acompanha toda representação, mas não a funda.
A consciência do ego é explicada pelo ser do si-mesmo.
O si-mesmo onto-consciente precede ontologicamente a consciência reflexiva.
A consciência é derivada, não originária.
Liberdade, verdade e tempo como dimensões cooriginárias
A liberdade originária identifica-se com a transcendência.
Não se trata de liberdade ontica, mas ontológico-existencial.
Verdade, tempo e história emergem do mesmo processo.
O processo de transcendência de Dasein para o ser.
Ser e verdade são cooriginários.
A verdade judicativa pressupõe a abertura originária dos entes.
Sentido como existenciale de Dasein
O sentido não é propriedade dos entes.
É um existenciale de Dasein.
Somente Dasein pode ser significativo ou insignificativo.
Os entes não dotados de Dasein são, nesse sentido, desprovidos de significado.
A questão do sentido do ser refere-se ao horizonte de inteligibilidade de Dasein.
O ser entra na compreensão apenas enquanto referido à estrutura de Dasein.
Historicidade de Dasein e constituição do mundo histórico
Dasein é essencialmente temporal.
Sua unidade é a unidade do futuro, do passado e do presente.
Por isso, Dasein é histórico por essência.
A historicidade funda a possibilidade da história.
A vida intencional de Dasein constitui o mundo histórico.
O sentido e o valor emergem apenas na história humana.
Conclusão provisória sobre Dasein como vida intencional
A tradução de Dasein como vida intencional é legítima sob condições estritas.
Exige a consideração integral do esse intentionale.
Esse domínio constitui uma ordem metafísica irredutível.
O esquecimento dessa ordem torna impossível o diálogo entre Heidegger e Tomás.
A precisão conceitual de Dasein revela-se decisiva.
Ela permite integrar fenomenologia e metafísica sem redução.