Escolhemos designar este ente como “Dasein”, um termo que é puramente uma expressão de seu Ser.
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Não podemos definir a essência do Dasein citando um “quê” do tipo que pertence a um assunto, porque sua essência reside no fato de que, em cada caso, ele tem seu Ser a ser, e o tem como seu.
A questão sobre o significado do Ser de um ente toma como tema o “sobre-o-quê” daquela compreensão do Ser que subjaz a todo Ser dos entes.
O significado do Ser do Dasein não é algo livre, outro e “fora de” si mesmo, mas é o próprio Dasein auto-compreensivo.
A questão torna-se: o que torna possível o Ser do Dasein, e com isso sua existência fática?
Trata-se de ver uma estrutura primária do Ser do Dasein – uma estrutura de acordo com cujo conteúdo fenomênico os conceitos de Ser devem ser articulados.
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Esta estrutura não pode ser apreendida pelas categorias ontológicas tradicionais, pois não cai, segundo o que lhe é próprio, em nenhuma categoria entitativa.
A radicalização da compreensão pré-ontológica e a tarefa da ontologia fundamental
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O Ser do Dasein só se tornará acessível se olharmos “por todo este todo até um único fenômeno primordialmente unitário” que já está neste todo de tal modo que fornece o fundamento ontológico para cada item estrutural.
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A questão do Ser mesma não é nada mais que a radicalização de uma tendência-essencial-de-Ser que pertence ao próprio Dasein: a compreensão pré-ontológica do Ser.
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O sentido do Ser como tal não será desengajado definindo os entes por suas causas ônticas, como se o Ser tivesse o caráter de algum ente possível.
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O Ser, como aquilo sobre o que se pergunta, deve ser exibido de um modo próprio, essencialmente diferente do modo como os entes são descobertos.
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O significado do Ser também exige ser concebido de um modo próprio, essencialmente contrastante com os conceitos nos quais as entidades adquirem sua significação determinada.
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Basicamente, toda ontologia permanece cega e pervertida em seu objetivo mais próprio se não tiver primeiro clarificado adequadamente o significado do Ser.
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Portanto, a ontologia fundamental, da qual todas as outras podem surgir, deve ser buscada na analítica existencial do Dasein.
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Isto apenas na medida em que esta analítica é guiada e determinada de antemão pela questão do sentido do Ser como tal.
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O Dasein funciona como aquele ente que, em princípio, deve ser interrogado de antemão quanto a seu Ser.
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A transformação fenomenológica da noção de natureza humana
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A distinção entre o homem como animal rationale e o homem como Dasein é traçada fenomenologicamente.
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Se há uma transformação da noção de natureza humana em linha com as exigências da questão do Ser, esta transformação deve ser trazida fenomenologicamente.
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Esta transformação é tão decisiva para qualquer investigação autêntica do sentido do Ser que Heidegger a chama de “tarefa prévia” para o pensamento do Ser.
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Compreender o conceito inicial de Dasein como uma estrutura fenomênica, o “precipitado” imediato que resulta de contemplar a realidade humana através de um olhar puramente fenomenológico, é crucial para apreender o sentido original da questão do Ser em Heidegger.
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A necessidade de pensar a natureza humana e o significado do termo “Dasein”
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No serviço da questão sobre a verdade do Ser, torna-se necessário parar e pensar sobre a natureza humana.
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A experiência do esquecimento do Ser envolve a conjectura crucial de que, em vista do desvelamento do Ser, o envolvimento do Ser na natureza humana é uma característica essencial do Ser.
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Para que esta conjectura se torne uma questão explícita, é preciso libertar a determinação da natureza humana do conceito de subjetividade e do conceito de “animal rationale”.
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Para caracterizar tanto o envolvimento do Ser na natureza humana quanto a relação essencial do homem com a abertura do Ser, escolheu-se o nome “Dasein”.
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Repensar Ser e Tempo é frustrado se nos satisfazemos com a observação de que o termo “Dasein” é usado em lugar de “consciência”.
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Não se trata do mero uso de palavras diferentes.
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O que está em jogo é fazer o homem pensar sobre o envolvimento do Ser na natureza humana e apresentar uma experiência da natureza humana que possa provar-se suficiente para dirigir nossa investigação.
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“Dasein” nem substitui o termo “consciência” nem o “objeto” designado substitui o que pensamos ao falar de “consciência”.
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O Dasein e a Vida Intencional na perspectiva tomista
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A noção de Dasein, transposta para as perspectivas de São Tomás, demandaria uma análise temática da Vida Intencional do homem como tal.
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“Intencional” aqui deve ser entendido no sentido tomista de esse intentionale, e não no sentido husserliano de intencionalidade como estrutura básica da consciência derivada de um ego transcendental.
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Nesta perspectiva transposta, o Ser como processo de iluminação aponta para duas direções fundamentais de análise.
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A primeira direção apontaria para a análise da natureza e função do intelecto agente.
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Estas linhas de análise marcariam o caráter do Ser que define a correlação que liga o Dasein ao homem em sua facticidade.
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Isto equivaleria a uma clarificação em princípio da inter-relação essencial entre o homem como Dasein e o homem como ente.
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Surge a questão: a interarticulação estrutural ôntico-ontológica, que dá origem à possibilidade de uma compreensão categorial e existencialista da realidade humana, pode ser inteiramente subsumida sob uma pesquisa fenomenológica pura?
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Se os existenciais e as categorias são as duas possibilidades básicas para caracteres de Ser, exigindo modos de interrogação primária diferentes, como trabalhar adequadamente o conceito de Dasein sem trazer tematicamente sua dimensão entitativa para a problemática?
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A introdução temática do aspecto entitativo do Dasein já pressuporia a validade de uma Interpretação metafísica.
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Neste caso, a Fenomenologia sozinha não seria suficiente para atender a todas as exigências problemáticas da questão do Ser.
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A segunda direção apontaria para a necessidade de uma reinterrogação do problema do primum cognitum.
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Esta linha de análise buscaria penetrar a ambiguidade crucial na relação entre Dasein e Ser.
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Neste registro, “entes” significariam realidade extramental precisamente na medida em que tivessem entrado na existência intencional, tornando-se esse intentionale.
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Quando estas várias linhas de análise são consideradas juntas, resultam na ideia da Vida Intencional do homem.
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Se esta Vida Intencional for tornada temática, ela produz, dentro das perspectivas do pensamento tomista, um paralelo à noção de Dasein.
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O que está em jogo é a ideia fundamental que governa nossa recuperação da problemática heideggeriana.