Esses dois comportamentos, embora se sustentem mutuamente, ocorrem também em tensão essencial, pois o envolvimento com entes presentes depende da abertura ao conceder-em-retração do ser e, ao mesmo tempo, tende a esquecer o evento originário de presenciar/ausentar, obscurecendo a responsabilidade de participar ek-staticamente do evento do ser.
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Engajamento com entes como condição da abertura ao ser.
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Tendência do engajamento a produzir esquecimento do originário.
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Resposta-abilidade como participação no evento do ser.
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Obscurecimento do presenciar/ausentar pelo envolvimento íntimo.
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Em “A essência da verdade”, a ambivalência desse duplo comportamento é articulada pela coimplicação de ek-sistência e in-sistência, segundo a qual o Dasein, ao mesmo tempo que se projeta para a clareira, prende-se ao que os entes oferecem e assim já se encontra na errância.
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Ek-sistência como ultrapassagem das determinações presentes dos entes.
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In-sistência como apego ao que é oferecido pelos entes.
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Errância como condição permanente do homem.
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Coimplicação entre abertura e apego.
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A liberdade da ek-sistência é sempre complementada e contrariada pela in-sistência que se fixa nos entes e volta as costas à abertura que os deixa aparecer, esquecendo inclusive que a in-sistência só ocorre porque já há ek-sistência.
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Fixação nos entes como contramovimento.
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Esquecimento da prioridade da ek-sistência.
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Clareira como condição do aparecer dos entes.
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Complementaridade tensa entre liberdade e fixação.
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A relação entre os movimentos não é apenas conflitual, pois a ek-sistência já envolve essencialmente uma viragem para longe do mistério e uma tendência ao encobrimento ao revelar entes de modo determinado, de modo que a ek-sistência já se efetua voltando-se para a in-sistência e a liberdade deve ser concebida a partir da ek-sistência in-sistente.
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Viragem para longe do mistério como traço intrínseco.
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Revelação determinante como fonte de encobrimento.
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Ek-sistir como já voltar-se para in-sistir.
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Liberdade fundada na ek-sistência in-sistente.
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O deixar-ser como liberdade não constitui estado permanente, ocorrendo apenas de tempos em tempos como vislumbre do mistério a partir da errância, pois o ser só se revela em retração e a abertura resoluta ao mistério já caminha para a errância, já que deixar-ser revela entes em determinado comportamento e por isso mesmo encobre o todo dos entes.
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Vislumbre do mistério como interrupção do trato cotidiano.
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Retração como modo da revelação do ser.
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Entschlossenheit zum Geheimnis como caminho para a errância.
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Deixar-ser como revelar e simultaneamente encobrir.
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Ek-sistência e in-sistência são tão entrelaçadas quanto revelar e encobrir, verdade e errância, de modo que humanos no outro começo não superariam esse jogo ambivalente, mas o reconheceriam e nele participariam atentamente, pois o problema moderno não é o encobrimento ou a errância, mas o fato de o encobrimento fundamental ter caído no esquecimento e a ineradicabilidade da contraessência já não ser reconhecida.
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Reconhecimento do entrelaçamento como tarefa.
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Esquecimento do encobrimento como problema histórico.
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Contraessência da verdade como ineradicável.
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Crítica à vontade de verdade absoluta como desvelamento ilimitado.
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A tarefa não consiste em erradicar a in-sistência, mas em reconhecê-la como contraessência da liberdade e aprender a viver no perpétuo ir e vir que condiciona a finitude, cultivando a possibilidade de não se deixar desorientar ao experimentar a própria errância sem confundir o mistério do Da-sein.
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In-sistência como contraessência e não como falha eliminável.
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Perpétuo ir e vir como condição finita.
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Experiência da errância como via de sobriedade.
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Não se deixar desviar como disciplina de atenção.
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A distinção entre errância como contraessência necessária e o “deixar-se conduzir ao erro” torna-se decisiva quando o esquecimento do encobrimento abandona o homem à auto-instituição de padrões e fins, de modo que a tomada do sujeito como medida exclusiva de todos os entes produz uma “esquecidão desmedida” que persiste em assegurar-se pelo disponível e encontra apoio inadvertido no comportamento pelo qual o Dasein ao mesmo tempo ek-siste e in-siste.
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Homem como instaurador autônomo de valores e padrões.
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Sujeito como Maß exclusivo como fonte de desmedida.
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Vermessene Vergessenheit como persistência no disponível.
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Apoio inadvertido da in-sistência na autossustentação.
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O envolvimento in-sistente com entes e o encobrimento do mistério pertencem ao ocorrer da verdade como liberdade de deixar-ser, mas a persistência desmedida corresponde a uma in-sistência que já não ek-siste propriamente e culmina numa incorporação extática malformada, numa Aneignung voluntariosa que integra entes numa ordem de mundo posta pela subjetividade.
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In-sistência ordinária como condição do engajamento concreto.
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Persistência desmedida como deformação do par ek-sistir/in-sistir.
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Ecstatic-incorporation como malformação.
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Aneignung voluntariosa como ordenação subjetiva do mundo.
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A interrogação sobre se a tendência à persistência poderia ser finalmente superada conduz à ideia de que o outro começo exigiria não apenas afinação ao jogo ek-sistência/in-sistência, mas também reconhecimento vigilante de uma força tentadora de retorno à subjetividade voluntariosa, identificada como impulso persistente designado por ur-willing.
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Tentação de recaída como perigo permanente.
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Vigilância como condição do não-querer.
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Persistência como deriva para a subjetividade voluntariosa.
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Ur-willing como nome do impulso à persistência.
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Em “O fragmento de
Anaximandro”, ao pensar o entre do ainda-não e do já-não, a presença é compreendida como junção (Fuge) enunciada por dike como ordem enlaçante, e adikia aparece como traço fundamental dos entes na medida em que o persistir voluntarioso extrai-se de sua estada transitória, endurece e visa apenas continuidade e subsistência.
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Entre do not-yet e do no-longer como estrutura do “demorar”.
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Presenciar como junção (Fuge).
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Dike traduzida como ordem que enlaça e ordena.
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Adikia como desordem fundamental vinculada ao Beharren.
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A descrição do persistir como pose voluntariosa que ignora o restante do presente sugere uma raiz pré-metafísica de ur-willing, na qual o demorar rebelde insiste em pura continuidade, deixando entrever que a disposição a permanecer pode pavimentar o caminho para formas de subjetividade conquistadora e para a redução de outros entes a meios de preservação e aumento de poder.
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Bestehen e Beharren como insistência no perdurar.
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Despreocupação com o outro como sinal de desordem.
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Mediação possível entre persistência originária e vontade de conquista.
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Redução de entes a meios como preparação para o poder.
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A leitura de Hannah
Arendt identifica nesse texto uma “ânsia de persistir” e um “apego a si” como figura do querer destrutivo, mas a equiparação entre Eigensinn e instinto natural de autopreservação torna-se problemática quando a autopreservação não excede a medida do demorar próprio e a desmedida emerge sobretudo onde se ultrapassa essa medida, como em guerras de conquista ou consumo tecnológico de recursos.
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Arendt: craving to persist e cling to themselves.
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Crítica à redução do querer ao instinto natural.
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Diferença entre autopreservação ordinária e excesso.
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Exemplos de excesso: conquista e consumo tecnológico.
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A distinção heideggeriana entre usar a terra e receber sua bênção descreve que a tecnologia devoradora força a terra além de suas possibilidades, enquanto um comportamento de reserva (Verhaltenheit) re-afina os humanos à lei discreta da terra e ao cuidado do mistério do ser, preservando a inviolabilidade do possível.
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Lei discreta da terra como preservação do emergir e perecer.
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Tecnologia como consumo e exaustão do artificial.
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Diferença entre usar e poupar (schonen).
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Recepção e habitação como guarda do mistério.
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A leitura de Anaximandro implica que a disjunção da Fuge não começa apenas com o querer tecnológico extremo, pois a junção do ser já é perturbada por uma tendência a persistência voluntariosa, havendo continuidade e descontinuidade entre ur-willing e as formas metafísicas e tecnológicas da vontade, de modo que o outro começo dependeria de uma consciência vigilante dessa persistência ineradicável e não da presunção de consonância plena.
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Perturbação originária como anterior ao tecnológico.
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Continuidade e descontinuidade entre ur-willing e “a vontade” epocal.
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Crítica à ideia de harmonia sem dissonância.
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Vigilância como condição de inauguração do outro começo.
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A ressalva quanto ao antropomorfismo na leitura heideggeriana torna necessária uma distinção decisiva entre o ur-willing humano e qualquer persistência atribuível a animais ou coisas, pois a capacidade de rebelião desmedida e de queda abaixo do animal delimita o humano pela possibilidade do mal, reconhecida na interpretação de
Schelling.
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Ta onta em geral e foco predominante em hoi anthropoi.
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Ur-willing humano como capacidade disruptiva específica.
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Possibilidade do mal como traço humano.
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Queda abaixo do animal como marca do humano.
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A abertura do problema do mal levanta a questão de uma discórdia originária no próprio ser e exige avaliar se a atribuição do mal a uma negatividade do ser justificaria o mal como errância ontologicamente necessária, bem como se tal deslocamento enfraqueceria a responsabilidade de retomar, sempre de novo, o caminho para a não-vontade.
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Mal como questão de strife no coração do ser.
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Risco de justificar o mal como necessidade ontológica.
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Responsabilidade humana como questão ineliminável.
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Não-vontade como tarefa reiterada.