Verdade

Daniel O. Dahlstrom. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.

A verdade como aletheia e a clareira do ser

1. A palavra grega alethéia é tipicamente traduzida como “verdade”, operando as interpretações de alethéia, uma vez estabelecida essa tradução, com os sentidos primariamente associados a “verdade”, sendo o sentido tradicionalmente dominante o de correção (a correção de um pensamento ou de uma asserção), tendo já em Homero um cognato de correção, homoíosis, servido de sinônimo para alethéia.

2. Ainda que realização notável, a apreciação da verdade como não-ocultamento está, insiste Heidegger, longe de ser o fim da história, pois, como sugere sua natureza privativa, o “não-ocultamento” (a-lethéia) supõe um ocultamento.

3. Embora Heidegger investigue a verdade como alethéia ao longo de toda sua carreira, as investigações tipicamente percorrem os três passos recém-mencionados: a correção de pensamentos e asserções, o não-ocultamento dos entes e a clareira para o autoencobrimento do ser.

Correção, não-ocultamento dos entes e a clareira do ser

4. No discurso ordinário, usa-se tipicamente o adjetivo “verdadeiro” para designar propriedade de alguma coisa ou de algum pensamento ou asserção, estando esses usos relacionados: diz-se que alguém é um amigo verdadeiro porque corresponde à ideia do que um amigo deveria ser; diz-se que uma asserção é verdadeira porque corresponde ao estado de coisas de que se afirma.

5. A teoria da correspondência da verdade é, contudo, atormentada por problemas básicos: correspondência não é identidade nem sequer semelhança, não sendo asserções imagens comparáveis, quanto à precisão, com algo retratado.

6. Ainda assim, distinguem-se asserções verdadeiras (corretas) das falsas, tendo Heidegger uma explicação para essa capacidade, submetendo que uma asserção corresponde corretamente a uma coisa quando consegue representar o que se apresenta e, de fato, representá-lo “como é”.

7. Os gregos, enfatiza Heidegger, já experimentavam essa abertura como o não-ocultamento (Unverborgenheit) das coisas e, de fato, fundaram a concepção de verdade como correção nessa noção de não-ocultamento, mesmo quando não lhes era realmente óbvio que o faziam.

8. Em suas conferências de 1937-8, Heidegger expande o relato da abertura pressuposta pela verdade como correção para incluir, além da abertura (não-ocultamento) das coisas para nós e de nossa abertura (liberdade) em relação a elas, a abertura do âmbito “entre a coisa e o ser humano”, bem como a abertura de uma pessoa a outra.

9. Explorando um tropo familiar em toda a sua obra, Heidegger refere-se a essa abertura como uma clareira (Lichtung) e “a verdade do ser” (dado que o ser dos entes é equiparado a seu não-ocultamento), sendo a significância direta de Lichtung em alemão, como “clareira” em português, um espaço aberto numa floresta, por exemplo uma clareira propriamente dita.

10. A metáfora de uma clareira seria enganosa se fosse tomada por algo já estabelecido e estático, imóvel tanto pela floresta que avança quanto por nossa chegada, não sendo a clareira, tal como Heidegger compreende a abertura que funda os outros sentidos de verdade, nada disso, tampouco o é uma clareira real.

11. Esse comentário sobre a significância que Heidegger atribui à clareira ajuda a explicar por que também fala da “verdade do ser” para caracterizar a abertura subjacente aos outros sentidos de verdade, significando “ser” (Sein) o sentido em que se compreende que entes particulares (Seiendes) são, ao passo que “o ser” (Seyn) se refere ao evento (Ereignis) no qual essa significação e compreensão historicamente se estabelecem — mesmo que apenas para serem esquecidas ou tratadas com indiferença.

A liberdade da verdade

12. A clareira, o sentido mais básico de verdade implicado ao conceber a verdade como alethéia, inclui, como notado, uma abertura de nossa parte, a saber, uma abertura ao que pode se abrir em nosso meio, sendo, na medida em que a verdade como correção pressupõe nossa liberdade-para a autoapresentação por parte dos entes, a liberdade nesse sentido designado essencial à verdade.

13. Ao conceber a liberdade humana como essencial à verdade, Heidegger se expõe à objeção de que viola o sentido tradicional, “metafísico”, da objetividade da verdade, onde a verdade é concebida como uma das condições do conhecimento (“crença verdadeira devidamente justificada”), e não vice-versa.

14. Heidegger responde a essa objeção notando que a liberdade em questão não é de modo algum capricho nem sequer algo à disposição do ser humano, consistindo antes, em antecedência a qualquer sentido de liberdade “negativa” e “positiva” (estar desimpedido e capacitado), uma liberdade para a verdade num engajamento ativo com os entes precisamente com vistas a deixá-los apresentar-se como são.

15. O relato precedente, embora acurado em alguns aspectos, é, porém, enganoso na medida em que sugere (a) que a clareira é essencialmente esse não-ocultamento, (b) que entes e seres humanos já estão de algum modo na clareira, e © que consequentemente sabemos (possuímos a verdade sobre) quem somos como seres humanos.

O erro e o mistério da verdade

16. Embora derivada, a concepção de verdade como correção é o ponto de partida para a investigação da verdade como alethéia, residindo sua relevância, entre outras coisas, na centralidade da bivalência, a possibilidade de correção ou incorreção.

17. A verdade do ser funda essa bivalência, assim como funda a verdade como alethéia, já se tendo notado como a possibilidade de asserções corretas depende tanto de nossa abertura aos entes quanto de sua abertura a nós, não precisando, porém, nenhuma dessas condições ser satisfeita, ou, melhor, plenamente satisfeita, nem, aliás, podendo sê-lo.

18. Assim como a verdade não é primariamente uma asserção, a inverdade não pode ser invariavelmente remetida apenas a um juízo incorreto, sendo, na medida em que se compreende a abertura dos entes para nós e, correlativamente, nosso ser-livre-para essa abertura como essencial à verdade, o próprio oposto da verdade nesse sentido, um ocultamento, essencial à verdade.

19. O ocultamento ou ausência (lethé) implicado ao experimentar a verdade como alethéia é o ocultamento não simplesmente deste ou daquele ente particular, mas dos entes como um todo: “o ocultamento dos entes como um todo, a genuína não-verdade, é mais antigo que toda manifestação deste ou daquele ente”.

As transformações da verdade

20. O sentido básico de liberdade que consiste em deixar os entes ser, trazê-los ao aberto e estar aberto para eles, é fundacional para todo comportamento, tendo essa liberdade, contudo, chegado a ser “resolutamente” orientada para a presença das coisas, tendo “se fechado” a qualquer ocultamento ou ausência.

21. A interpretação heideggeriana da verdade como alethéia é, em seus termos, inteiramente histórica, exigindo compreensão de nós mesmos como algo que começou com a experiência grega pioneira da verdade, sendo o objetivo de interpretar a verdade como alethéia fazer um outro começo, baseado na apreciação dos limites dessa compreensão.

22. Esse modo “técnico” de lidar com as coisas, necessitado pelo assombro, fornece solo fértil para distorcer a alethéia como não-ocultamento em mera correção, tornando-se cada vez mais inevitável, quanto mais o reconhecimento dos entes em seu não-ocultamento se desenvolve em technē, que apenas os aspectos dos entes (as “ideias”) forneçam sua medida e exijam correspondência constante com esses “aspectos”.

23. A concepção de verdade como correção não é, contende Heidegger, hoje mais questão do que a concepção de alethéia como não-ocultamento o era para a maioria dos gregos, reforçando o caráter aparentemente autoevidente de conceber a verdade em termos de correção apenas, e sendo reforçado por, uma indiferença à questão do que significa ser de todo, indiferença que Heidegger, famosamente, chama “o esquecimento do ser”.

24. Esse humor fundamental envolveria, entre outras coisas, um tipo de contenção (Verhaltenheit) no qual o questionamento se volta para o que merece ser questionado acima de tudo o mais, o ocultamento do ser, e o faz “por causa do ser dos entes como um todo”.