Charles E. Scott. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.
O cuidado e a autenticidade
1. Numa história citada por Heidegger sobre o “Cuidado” (Cura), ao atravessar um rio, ela viu um pouco de argila e, pensativa, tomou um pedaço e começou a moldá-lo, e enquanto refletia sobre o que fizera, Júpiter passou por ali, pedindo-lhe o Cuidado que lhe desse espírito, o que ele de bom grado concedeu.
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Quando o Cuidado quis que se lhe desse seu próprio nome, Júpiter proibiu isso e exigiu que se lhe desse o seu, discutindo então o Cuidado e Júpiter, até que a Terra (Tellus) se levantou, desejando que seu nome fosse conferido à criatura, já que lhe oferecera parte de seu corpo, pedindo-se então a Saturno que fosse o juiz.
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Saturno decidiu que, tendo Júpiter dado o espírito, deveria recebê-lo de volta na morte, e tendo a Terra dado o corpo, receberia o corpo; mas, tendo o Cuidado sido quem primeiro moldou a criatura, possuí-la-ia enquanto vivesse, e, havendo disputa quanto ao nome, que fosse chamada “homo”, por ser feita de humus (terra).
2. Heidegger inclui essa história em Ser e Tempo para mostrar que a consciência do papel definitivo do Cuidado (Sorge) no ser humano está arraigada e é pré-teórica em nossa linhagem histórica, sugerindo, com efeito, que a linguagem do livro pode ser difícil em seu esforço de forjar uma nova interpretação do ser humano, mas que a consciência básica que a guia foi articulada muito antes de a filosofia começar.
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Essa antiga história mostra que o modo comum de ser das pessoas carrega um sentido intrínseco de — uma sintonia fundamental com — a necessidade tanto de responsabilidade cuidadosa por nossas vidas e nosso mundo quanto da inevitabilidade, no viver, da perda e do infortúnio, sendo, segundo o sentido da história, a forma do ser humano a do Cuidado, moldado o ser humano pelo Cuidado.
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Se Heidegger há de dar seu próprio relato filosófico do ser humano em conformidade com esse sentido antigo e definitivo, deve, em seus próprios termos, descrever a estrutura do Cuidado que define a vida humana, mundana.
3. Uma segunda parte, igualmente importante, dessa história encontra-se na função crucial de Saturno, o Deus do tempo, sendo apenas por sua mediação que os elementos, de outro modo conflitantes, do Espírito, da Terra e do Cuidado se juntam e permitem que a figura do Cuidado apareça como humana.
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Enquanto o Cuidado é a origem e o sentido da vida humana no mundo, o tempo constitui a origem e o sentido da estrutura unificada em que o Cuidado tem lugar, tendo as pessoas de cuidar porque a vida mundana está sempre passando, nada escapando ao impacto do tempo, regendo o tempo o aparecimento e a passagem do ser humano.
4. As palavras e conceitos de Heidegger articulam uma interpretação filosófica do ser humano, ao passo que os personagens da história significam uma experiência básica da vida humana sem o auxílio da filosofia, sendo a consciência dessa experiência, tal como Heidegger a compreende, parte de uma herança ocidental profunda e geralmente inconsciente que constitui nosso mundo de sentido, uma experiência da origem e do destino da vida humana.
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Um dos objetivos de Heidegger em Ser e Tempo é mostrar os modos pelos quais o sentido do Cuidado e o domínio do Tempo foram encobertos e esquecidos nos padrões da vida ordinária, bem como em nossos modos de pensamento mais sofisticados, encontrando ele, embora esse encobrimento possa parecer a princípio insignificante, ser um dos aspectos mais destrutivos de nossa tradição cultural, destrutivo não só da qualidade das vidas individuais mas também da capacidade das sociedades de criar as condições para a prosperidade humana.
Cotidianidade e a questão do sentido do ser
5. Os modos como cuidamos e aquilo com que nos importamos governam nossas vidas em considerável medida, medindo a energia de nossas dedicações a intensidade de nossas vidas, e dando aquilo a que nos comprometemos direção e caráter a nossas vidas.
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Geralmente as pessoas parecem preocupar-se com aquilo com que a maioria ao redor mostra preocupação: os detalhes da vida ordinária e os valores que indicam normalidade e aceitabilidade num dado ambiente, chamando Heidegger esse tipo de normalidade “cotidianidade” (
Alltäglichkeit).
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Há nela um tipo de anonimato, tipificado pelo uso ordinário do “se” impessoal ou do “a gente”, como em “dizem que se deve fazer exercício para manter a saúde”, ou o anônimo “um”: “simplesmente não se usa sapato branco com smoking preto”, descrevendo “anônimo” aqui ações e atitudes que carecem de autoria singular individual: não se decide sequer ser um dos “eles”, já se é um deles quando se cuida de olhar.
6. Se me relaciono comigo mesmo como se espera que se faça, se me vejo do modo como outros me veem, se sigo o fluxo para me ajustar, faço escolhas como se não fossem minha própria vida, pretendendo o que “eles” pretendem para mim, falando como “se” fala.
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A conversa fiada ordinária do falatório grupal é um exemplo do que Heidegger chama existência inautêntica: todos sabemos o que queremos dizer, e permanecemos na superfície das coisas, sendo o modo como se vive como se o tempo fosse mera medida de partes de duração e cuidar não significasse mais que cuidar das coisas do modo como se supõe fazer, chamando Heidegger essa modalidade de vida, quando a cotidianidade define nossa existência, inautenticidade.
7. É difícil não ser inautêntico, não desaparecendo a cotidianidade, sendo somos seres sociais que requerem identidades comuns, sistemas de signos e práticas rotineiras, encontrando-se as pessoas, diz Heidegger, sempre lançadas num mundo e assim “lançadas” nas situações de uma dada cultura, bem como nas inevitabilidades de ser humano, não podendo evitar tal “lançamento” (Geworfenheit).
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Sentido e significação não situados e não históricos não acontecem, não ocorrendo o espírito humano livre de carne, nunca estando as sínteses de corpo e consciência reflexiva fora do tempo, encontrando-nos ocorrendo com respostas e sentidos gerados e mutados ao longo do tempo e sob toda sorte de circunstâncias.
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“Lançamento” significa em parte que a alerta, a racionalidade e outros aspectos do viver sempre acontecem em meio a realidades, verdades, ambiguidade não resolvida, entrelaçamentos complexos e as estranhas exigências dadas de estar vivo.
8. A história do Cuidado indica que se pode compreender intuitivamente que se tem de planejar adiante e cuidar das coisas para sobreviver, que se pode sentir como se os espíritos não pertencessem à terra, e que os corpos passarão e se tornarão húmus.
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Na interpretação heideggeriana em Ser e Tempo, essa compreensão intuitiva significa que é intrínseco ao ser humano um sentido pré-verbal e pré-racional de que o ser — a própria ocorrência da vida — está em questão: como criaturas do Cuidado, estamos continuamente passando e recomeçando enquanto cuidamos de nossas vidas e, em seu tempo terreno, o ser humano não fornece respostas permanentes à questão de por que isso acontece.
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A questão do sentido do ser forma o sentido de Ser e Tempo: o sentido do livro encontra-se numa questão insuscetível de resposta definitiva com base na ocorrência da vida, abrindo-se as vidas, na questão de o ser continuar a ser, num mundo sem garantias de continuação e sem qualquer presença sustentadora para definir o que quer que ainda vá acontecer.
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A questão do ser surge concomitantemente com o acontecer do ser humano, sendo uma questão de ser tal como acontece: o ser não traz consigo garantia alguma de que continuará a ser.
Ôntico e ontológico: seres humanos e Dasein
9. “Ôntico” refere-se ao modo como algo especificamente existe, referindo-se aos entes, tendo os entes, em sua facticidade, significância nos modos como vêm à luz e existem em circunstâncias particulares.
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A história do Cuidado, por exemplo, é ôntica no sentido de que, como mito particular, fala da vida por meio de uma narrativa que conta os feitos de personagens divinos específicos, não formulando um relato conceitual do ser, do modo como a vida humana inevitavelmente aparece.
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A história, antes, conta sobre a constituição natural e o destino dos humanos dizendo quais figuras mitológicas os formaram, não se ocupando das estruturas gerais do Dasein nem de uma metodologia para fazer afirmações conceituais e holísticas cuidadosas sobre o ser.
10. “Ontológico”, por outro lado, refere-se à linguagem e aos conceitos sobre os modos como os entes inevitavelmente ocorrem, referindo-se diretamente ao ser como fundamento dos entes, sendo Ser e Tempo, como composição de uma ontologia fundamental, um relato filosoficamente disciplinado do modo como o ser acontece independentemente das circunstâncias.
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Ao falar do ser, Heidegger se dirige às necessidades de nossas vidas, implicando o ser todo aspecto do viver humano, devendo um relato apropriado do ser descrever as inevitabilidades estruturais de nossa existência, significando o “Cuidado”, em seus termos, a inevitabilidade da preocupação, da incerteza, da insegurança, do projetar-se adiante e de manter todos os aspectos de nossos engajamentos humanos, bem como a desejabilidade de responsabilidade e dedicação.
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Essa inevitabilidade para o ser humano indica o caráter ontológico do termo Cuidado, distinto de instâncias de preocupação, solicitude e organização, podendo os filósofos reconhecer esses últimos eventos ônticos como atestando o Cuidado quando desenvolvem um método e linguagem que tornam evidente o aparecimento das dimensões ontológicas em ocorrências particulares.
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Nossa ênfase recai sobre a inseparabilidade das dimensões ôntica e ontológica na existência humana: ocorrências ônticas sempre têm uma dimensão ontológica, e estruturas ontológicas aparecem somente em acontecimentos ônticos.
11. “Dasein” nomeia, para Heidegger, a dimensão ontológica do ser humano, sendo Ser e Tempo uma ontologia fundamental no sentido de fornecer um relato do modo como os seres humanos devem ocorrer, dando Heidegger, em vez de um relato de estruturas universais da subjetividade humana, como fizeram muitos filósofos pós-kantianos para falar da natureza humana, uma descrição do modo como o Dasein acontece.
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“Ser-no-mundo” é sinônimo de Dasein e nomeia o modo como todas as pessoas acontecem como interconexões com entes existentes, sendo entes constituídos por relações mundanas, falando-se, ao falar de inevitabilidades e possibilidades ontológicas nesse contexto, do Dasein, do acontecer de eventos mundanos perceptivos.
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Pode-se chamar indivíduos específicos que vivem de seus modos particulares de seres humanos, chamando-se suas estruturas ontológicas unificadas e ocorrentes de Dasein, podendo os seres humanos viver de modos mais ou menos sintonizados com o fundamento inescapável de sua existência, mais ou menos enredados em seus ambientes, mais ou menos em sincronia com o modo como são ontologicamente.
Temporalidade mortal
12. Segundo a história do Cuidado, Saturno, o Deus do tempo, é o fator decisivo na arbitragem entre e unificação dos elementos incompatíveis da Terra, do Cuidado e de Júpiter (Espírito), governando Saturno a “estada temporal dos humanos no mundo”.
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Heidegger também aborda a importância unificadora do Tempo, mas num relato ontológico dele, não dando, embora a estrutura ontológica do Cuidado descreva o sentido do ser humano em sua constante carência, unidade às ocorrências do Dasein nem explicando a simultaneidade de circunstâncias ônticas e ontológicas em meio às quais as pessoas sempre se encontram.
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A multidão de determinações circunstanciais ônticas em que nos encontramos lançados inclui coisas como herança física e cultural e condições sociais e familiares, sendo formados por toda sorte de relações mundanas, sendo mesmo nossa capacidade de reconhecê-las e lidar com elas constituída por relações históricas, culturais e sociais.
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Também encontramos nossa existência definida por múltiplas estruturas ontológicas não escolhidas que determinam o modo como nossas vidas ocorrem e as tornam fundamentalmente questionáveis, em vez de lhes dar sentido e importância atemporais, sendo, além disso, a existência rasgada pela ocorrência simultânea da diferença divisora entre determinações ônticas e ontológicas.
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Tanto estruturas universais quanto relatividades não universais constituem todos os eventos humanos mundanos e conferem tipos de sentido vastamente diferentes, requerendo, em meio a respostas ônticas a questões últimas e certezas cotidianas, a falta de certeza permanente significada pelo Cuidado que constantemente planejemos e organizemos com preocupação, não eliminando resposta ou estabelecimento algum a força desestabilizadora do Cuidado.
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Um abismo de diferença conecta ambiguamente as especificidades e universalidades da existência, não regendo essa conexão uma identidade presente e sempre contínua, perpassando antes a questão do sentido do ser o Dasein, enquanto os muitos significados, propósitos e planos para viver motivam as pessoas a fazer grande parte do que fazem sem questionar e como se o ser estivesse garantido para sempre, não sendo o pobre Cuidado, em sua poderosa insuficiência, capaz sequer de dar unidade ao próprio ser que define.
13. A unidade do Dasein encontra-se na estrutura do tempo finito, sendo a chave para a unidade temporal, longe de ser uma base pré-temporal e estabelecida para a verdadeira identidade e ação humanas, o fenômeno que Heidegger chama ser-para-o-fim ou ser-para-a-morte.
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O Cuidado define a necessidade de ser humano: a necessidade de lidar com circunstâncias e de projetar-se adiante de si mesmo planejando, propondo, esperando e outras atitudes e ações orientadas para o futuro, projetando o Cuidado as pessoas agora para o futuro em virtude da incapacidade de qualquer presente continuar como é sem fim.
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Além disso, “a questão do sentido do ser” nomeia a ausência de respostas finais na ocorrência da vida, não havendo indicação de por que o ser é, por que somos moldados pelo Cuidado, ou de que o ser continuará a ser, nomeando “ser-para-o-fim” a mortalidade temporal do ser em todos os seus aspectos, conduzindo a descrição heideggeriana disso diretamente à questão da autenticidade.
14. “Com a morte”, escreveu Heidegger, “o Dasein está diante de si mesmo em seu poder-ser mais próprio”, sendo a capacidade de morrer tanto uma característica ontológica quanto algo que cada indivíduo deve atravessar, sendo sua potencialidade “mais própria”.
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Nessa possibilidade, o Dasein preocupa-se absolutamente com seu ser-no-mundo, chamando a morte a atenção específica precisamente porque com ela o próprio ser-no-mundo chega ao fim.
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A “possibilidade de não-poder-mais-estar-aí” própria de cada um reúne de modo agudo indivíduos e sua inevitabilidade ontológica: ter de morrer mostra mais claramente a unidade do tempo finito na intimidade calamitosa entre exigência existencial e singularidade pessoal, alcançando a questão do ser uma revelação singular, encontrando o rasgo entre ôntico e ontológico seu destino.
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Nada é resolvido nessa revelação, encontrando-se, antes, a dissolução requerida pelo governo da mortalidade sobre a temporalidade, definindo o sempre-chegar-ao-fim nossa capacidade de ser, nossa “potencialidade de ser mais própria”.
15. Na imediatidade dessa capacidade de não-ser, o Dasein “é completamente relançado” sobre si mesmo, mostrando juntas as dimensões ôntica e ontológica uma estranha convocação, não podendo evitar a própria mortalidade por mais bem-sucedido que se seja em esquecê-la.
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Pode-se recusar assumi-la e agir inautenticamente como se “eles” morressem quando eu morro, mas, segundo o relato de Heidegger, eu, não “um”, não “eles”, devo viver meu fim, não significando essa observação que as pessoas morrem em total isolamento, sendo aquele capaz de morrer bastante um ser-com-outros, sendo essa capacidade ontológica de cessar parte estrutural do ser-no-mundo-com-outros.
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O ponto é, antes, que poder não ser compõe uma possibilidade para os indivíduos singularmente assumirem — decisivamente escolherem ser — sua existência em suas necessidades ontológicas, abrindo-se um indivíduo conscientemente à imediatidade ontológica de seu ser como que destrancando o fechamento cotidiano a ela.
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Se as pessoas não evitam sua capacidade de morrer e se relacionam afirmativamente com ela nos modos como se conectam com o mundo e consigo mesmas, suas vidas podem estar em conformidade com as necessidades de seu ser, podendo viver autenticamente, mostrando suas próprias vidas, em vez de encobrir, o modo como as pessoas fundamentalmente são.
16. Heidegger enfatiza que o sempre-chegar-ao-fim define a vida, definindo sua incompletude em qualquer momento dado, sua potencialidade, seu poder ainda-a-ser, significando a ausência de vida perfeitamente completada possibilidade e futuridade enquanto o ser estiver acontecendo.
Autenticidade e resolução
17. Ao falar de as pessoas tornarem sua capacidade de não-ser sua própria, Heidegger não tem em mente ser mórbido ou preocupado com a própria morte, mas antes estar sintonizado com o próprio Dasein, isto é, sintonizado com a estrutura temporal do modo como os seres humanos têm de ser.
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Em vez de viver como se estivessem cumprindo o destino manifesto de metas pré-estabelecidas para toda a humanidade, as pessoas preveem o mundo em termos de possibilidade incompleta, cuidando de pessoas e coisas com a antecipação de que as vidas continuarão incompletas, marcadas pela possibilidade e sempre carentes de cuidado.
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Um oposto a essa sintonia encontra-se em atitudes que tratam pessoas e coisas como não mais que realidades presentes, como se estivessem completadas de algum modo ou como se vidas e identidade espiritual estivessem plenamente formadas, pretendendo Heidegger um modo de viver no qual o sentido ontológico do Dasein seja aparente na vida do indivíduo, de tal modo que a potencialidade de ser incompleta e jamais plenamente apreendida se torne aparente nos modos de vida das pessoas.
18. Um modo autêntico de existir é aquele que exige dos indivíduos assumir responsabilidade por suas atitudes e ações, individualizando-se, em vez de ceder a autoridade sobre suas vidas a outros.
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Longe de um individualismo rústico que sanciona a preferência e a idiossincrasia por si mesmas e a fantasia de autossuficiência, Heidegger tem em mente a singularidade de uma pessoa estar alerta à própria conexão com as inevitabilidades da existência através do mundo.
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A generalidade formal da estrutura ontológica torna-se específica e concretamente própria nos modos como uma pessoa compreende e se conecta com outras criaturas vivas, determinando o modo como as pessoas se apropriam do Dasein ao interagir no mundo quem cada uma delas é em sua singularidade.
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Nosso “quem”, nossos si-mesmos singulares, são constituídos como relações-com-o-mundo, não se tornando entidades atômicas em virtude de sua afirmação decisiva de seu ser, sendo, de fato, seu ser um ser-no-mundo, sendo a autenticidade primeira, última e sempre intrinsecamente social, cultural e histórica.
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Indivíduos autênticos, tal como Heidegger os interpreta, vivem, porém, no mundo cotidiano e em todos os seus enredamentos com uma distância silenciosa, com um sentido claro e aberto da prioridade da possibilidade finita e da necessidade sobre a realidade estática, estando alertas para sua insubstituível vulnerabilidade à mortalidade dinâmica e habilitadora do ser-no-mundo, dedicados a deixar sua inquietante futuridade transparecer em suas interações.
19. A autenticidade se funda no Dasein, distinta das práticas de uma sociedade particular, podendo ocorrer em todas as culturas e da parte de pessoas extremamente diferentes, “convocando” ou “chamando” o Dasein os indivíduos para fora de seu esquecimento cotidiano e para sua “potencialidade de ser-um-si-mesmo mais própria”, sejam quais forem suas circunstâncias.
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Heidegger nomeia essa convocação o chamado da consciência, frase talvez enganosa, mas que nomeia a inclinação insistente do Dasein a seu próprio modo de ocorrer em meio às preocupações e distrações ordinárias das pessoas, chamando-nos o Dasein de volta aos fundamentos de nosso ser à medida que esquecemos nossa herança ontológica em nossa existência inautêntica cotidiana.
20. O chamado da consciência acontece como um humor no Dasein, um sentimento imediato e indelével de disjunção e desabrigo no mundo, ocorrendo, em meio à familiaridade e identidade cotidianas, um humor sutil, silencioso, sem palavras, de algo faltando, de instabilidade profunda, de Angústia (Angst).
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Heidegger descreve esse humor como “a revelação mais elementar do Dasein lançado”, sendo a própria dação do lançamento inescapável no mundo como mortalmente temporal inquietante em meio a nossos sentidos normais de sentido e significância, sabendo-se geralmente uma ampla variedade de coisas com que se pode contar.
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O Dasein, por outro lado, manifesta uma falta de realidade completada na ocorrência das coisas presentes, sendo a concretude da existência estranhamente enganosa, perpassando persistentemente a ocorrência mortal do ser ôntico no mundo um sentido de que poderia ter sido de outro modo, de que tem uma estranha capacidade de ser de outro modo ou de cessar de ser inteiramente.
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Esse sentido ontológico pode não ser exatamente a incorporação do dom de espírito de Júpiter ao “Homo”, mas constitui uma revelação afetiva da incessante diferença temporal do Dasein em relação às coisas reais presentes, sendo a Angústia algo como um espírito assombrado que parece sussurrar, como que para si mesmo: “é melhor cuidar… está acontecendo… você vem de lugar nenhum… para onde você vai… quem é você?”
21. O chamado constitui uma espécie de autocompreensão da parte do Dasein, ocorrendo, no humor da Angústia, o Dasein como consciência imediata de sua própria possibilidade indefinida e do Cuidado, convocando-se a si mesmo a cuidar de si mesmo ao atender a seu próprio sentimento de temporalidade mortal.
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Ao prestar atenção ao humor ontológico, as pessoas têm um sentido de sua própria diferença em relação às absorções do dia, sabendo que transcendem suas circunstâncias em sua capacidade ainda-a-ser, comunicando a Angústia às pessoas sua transcendência da realidade presente, de seus papéis coisais e da soma total de objetificação e cálculo.
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Experimentamos essa transcendência, ironicamente, não numa identidade transcendental, mas em nosso sempre estar em dívida com o futuro.
22. Qualquer presente vivo do ser-no-mundo carece de completude: ainda não está terminado, é caracterizado por mera possibilidade, por futuridade, consequentemente nunca sendo o Dasein e os seres humanos algo meramente e objetivamente presente, não estando, sendo mortais, plenamente ali, estando presentes e ainda-a-ser ao mesmo tempo, estando nesse sentido em dívida com o futuro, sendo o Dasein assim o fundamento de sua própria falta.
23. A autenticidade claramente não é questão de crescer rumo a uma identidade ideal, significando antes decidir permanecer afirmativamente alerta àquilo que ninguém pode mudar: o caráter mortal de Cuidado do Dasein e a consequente impossibilidade de apreensão completa de qualquer coisa.
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Na força de tal decisão, as pessoas querem experimentar conscientemente sua própria Angústia básica e incompletude, e a dos outros, querendo que suas próprias atitudes e sensibilidades permaneçam sintonizadas com o modo como fundamentalmente são e atestem seu “pertencimento ao ser do Dasein”.
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Pessoas autênticas renunciam ao instrumentalismo avassalador e praticam certa reticência e respeito cuidadoso diante de outros entes: deixam os entes mostrarem-se em seus próprios eventos, significando a autenticidade que as pessoas contêm seus impulsos de controlar e definir seus mundos por ações invasivas.
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As diferenças dos outros frequentemente interrompem, assim, inclinações não consideradas a fazer o que se supõe fazer sob a bandeira da moralidade normal, mudando frequentemente nossos ideais e valores à medida que nos apropriamos das muitas diferenças entre as pessoas e afirmamos sua liberdade e busca de sentido.
24. “Resolução” (Entschlossenheit) nomeia aspecto maior dos modos autênticos de ser no mundo, determinando-se as pessoas autênticas com o Dasein em mente, cuidando da diferença ontológica que confere a todos os eventos vivos transcendência de seus valores e identidades objetivos.
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A estranha e maravilhosa intangibilidade das pessoas e das coisas consiste em parte em sua potencialidade de ser e em sua capacidade de não ser, preocupando-se pessoas autênticas em tornar seus ambientes acolhedores a essa intangibilidade e à maravilha do ser quando não há razão clara alguma para ela.
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Um corpo de intenções como essas constitui o que Heidegger chama resolução: pessoas autênticas estão resolvidas — fortemente dedicadas e abertas — a uma sintonia afirmativa, em sua vida diária, com a intangibilidade não objetificável de todos os eventos, encontrando o Cuidado do Dasein a si mesmo em vidas autênticas no mundo.
25. Essa resolução é “antecipadora”, compreendendo as pessoas, quando afirmativamente sintonizadas com seu ser, que sua eventuação inapreensível significa a estranha liberdade de sempre chegar ao fim da presença.
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Na resolução antecipadora, as pessoas tomam suas decisões diárias em clara compreensão da ocorrência aberta e mortal do Dasein, assumindo o ser-para-a-morte nessas decisões e nos modos como executam seus projetos e planos.
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Uma profunda mudança pessoal ocorre em tal resolução antecipadora, continuando as forças da vida cotidiana, mas qualificando-se e enriquecendo-se o si-mesmo normal, cotidiano, por uma dimensão de condição-de-si-mesmo desenvolvida na atenção decisiva à sua diferença ontológica em relação aos aspectos ônticos da existência.
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Essa dimensão de ser um si-mesmo está pronta para sua inevitável Angústia e incerteza, bem como para a inevitabilidade das ocupações cotidianas, desenvolvendo uma compreensão dos entes em sua luta ansiosa para ser e, creio, nos termos de Heidegger, uma inclinação à compaixão que tal atenção pode gerar.
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“A resolução para consigo mesmo primeiro traz o Dasein à possibilidade de deixar os outros que estão com ele 'serem' sua potencialidade de ser mais própria, revelando também essa potencialidade no cuidado que salta à frente e liberta”, cuidando, formalmente dito, as pessoas autênticas do Cuidado dos outros.
26. “Resolução antecipadora” nomeia, assim, para Heidegger, a apropriação autêntica e ôntica do sentido da existência (Cuidado) e do sentido do Cuidado (temporalidade mortal), encontrando nela os aspectos ôntico e ontológico das pessoas uma área em que são complementares: as pessoas cuidam do sentido do ser-no-mundo, e o fazem assumindo a mortalidade de seu ser temporal ao interagirem com outros.
27. No relato heideggeriano da autenticidade, a questão do sentido do ser prevalece sobre as questões de justiça social, e as interrupções dos valores cotidianos prevalecem sobre questões de ética normativa, perguntando Heidegger, com efeito, como se poderia esperar abordar sabiamente questões práticas se somos alheios ao sentido de estar vivo.
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A questão do sentido do ser não é, para Heidegger, nem religiosa nem teórica, nomeando a incerteza irresolúvel do ser finito, levando ignorar essa questão — saltando e assumindo o controle por meio de esquemas e ideologias morais e políticas plenamente confiantes — à perpetuação de vidas inautênticas nas quais nossos bens e males constituem recusas opressivas de nosso próprio ser e violação contínua do modo como os humanos acontecem na intangibilidade de seu tempo.
28. A tragédia de usar vidas primordialmente para fins instrumentais e segundo categorias hierárquicas, os custos espirituais da banalidade arraigada e da certeza descuidada, os enormes perigos inerentes ao uso descuidado dos recursos naturais, a fuga das inevitabilidades da vida em certos sistemas destrutivos de crença, e os perigos que vêm com a crescente sofisticação e controle tecnológicos são exemplos de áreas onde a autenticidade, tal como Heidegger a concebe, poderia ter incidência direta sobre as avaliações e respostas das pessoas.
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Poderiam também ser exemplos de desenvolvimentos que não teriam crescido como cresceram fosse a autenticidade componente cultural e social predominante, não fornecendo Ser e Tempo respostas ou valores específicos para abordar esses problemas cruciais, mas sugerindo um começo para um modo de pensar e viver que pretende uma direção diferente de existência em comparação com aquelas que geraram os tipos de crises que afetam todas as nossas vidas hoje.