Ser e Tempo

Richard Polt. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.

Ser e tempo

1. No início — antes que esse “início” fosse gerado ou o “depois” fosse desejado — o tempo não era, mas repousava consigo mesmo naquilo que é, mantendo-se quieto naquilo que é, havendo, porém, uma natureza atarefada e ativa, querendo governar-se e ser sua própria, escolhendo buscar mais que o presente, que se moveu, e o tempo também se moveu.

2. O ser humano é uma criatura da distância, e é somente por meio da real distância primordial que o humano, em sua transcendência, estabelece para com todos os entes, que a verdadeira proximidade às coisas começa a crescer nele.

3. Plotino e Heidegger — um dos maiores platônicos e um filósofo que via o platonismo como um colossal beco sem saída — têm isto em comum: para ambos, o tempo não é simplesmente um aspecto da mudança, nem estrutura subjetiva para perceber a mudança, estando o tempo enraizado na própria essência, na preocupação com o próprio ser.

4. O contraste está aqui: Plotino, remontando às raízes do pensamento grego em Parmênides e antecipando muito da tradição ocidental posterior, vê o evento primordial, o evento que distancia o presente do futuro, como uma queda, não sendo a presença plena, o ser pleno, dilacerado, sendo antes uma plenitude autocontida sem distância.

O tempo como o horizonte para o ser

5. A publicação das cartas de Wilhelm Dilthey e do conde Yorck sobre historicidade foi a ocasião para Heidegger compor o que serviria como primeiro esboço de Ser e Tempo, um texto de 1924 intitulado O Conceito de Tempo, dizendo Heidegger ali sem rodeios: “cada Dasein é ele mesmo 'tempo'”; “o Dasein é história”.

6. Em conjunção com a hermenêutica heideggeriana da facticidade, esses pensamentos sobre a temporalidade apontam para uma nova ontologia do modo de ser humano, usando também os humanos o tempo como diretriz ontológica geral, um modo de compreender todos os entes, servindo o tempo como critério ontológico ao distinguirmos ser e devir, ou domínios atemporais e temporais.

7. Ser e Tempo desenvolve esses pensamentos com o objetivo de mostrar que o tempo é o “horizonte” para toda compreensão do ser: nossa temporalidade torna possível que o ser signifique algo para nós, não fôssemos nós temporais, não poderíamos distinguir entes de não-entes, não podendo os entes fazer diferença para nós ou impressionar-nos como significativos, não podendo “estar aí” de modo algum: não haveria Dasein, e assim ninguém a quem o ser pudesse ser dado.

8. A Primeira Seção lança as bases para a tese de que o tempo é o horizonte para o ser por meio de uma fenomenologia do ser-no-mundo cotidiano, encontrando-nos “lançados” numa situação dada, “projetando” também possibilidades em termos das quais compreendemos a nós mesmos e a outros entes.

9. A Segunda Seção aprofunda essa interpretação do Dasein e traz à tona a temporalidade mais explicitamente ao considerar fenômenos que interrompem e transcendem a cotidianidade.

10. Consideremos mais de perto as três dimensões da “temporalidade primordial” do Dasein: futuro, passado e presente.

11. A futuridade envolve essencialmente nossa preocupação com quem somos: o Dasein é “ser-para-fora rumo ao que ainda não é, mas pode ser”, compreendendo-se sempre a si mesmo e ao entorno em termos de um modo possível de ser.

12. A passadeidade, ou ter-sido, também é essencial: o Dasein “é seu passado, explicitamente ou não”, situando-nos, quer tomemos nossa facticidade por garantida quer a apropriemos criativamente, num meio no qual fomos “lançados”, experimentando esse lançamento como humor (Stimmung), que desempenha papel essencial na revelação do mundo.

13. Essa retomada autêntica e futural do passado é “precisamente o tornar-se-presente próprio”: “revela a Situação atual do 'aí'” e alcança um “momento de visão” (Augenblick).

14. Heidegger enfatiza vários traços da temporalidade primordial: primeiro, é extática (ekstatisch): futuro, passado e presente são modos pelos quais nos “destacamos” (stehen aus) em possibilidades, facticidade e situação atual, não consistindo o tempo em instantes pontuais, mas estendendo-se em três dimensões.

15. Esses traços da temporalidade podem não ser aparentes na cotidianidade, e, quando concebemos o tempo pelo senso comum cotidiano, o fazemos em termos bem diferentes: imaginamos o tempo como uma linha cujos intervalos podem ser medidos por um relógio, e atribuímos prioridade ao instante presente.

16. Nossa inconsciência cotidiana da temporalidade primordial e nossa tendência a reduzir todo tempo ao tempo de relógio devem originar-se de certa inautenticidade na própria temporalidade cotidiana.

17. A inacabada e nunca publicada Terceira Seção da Primeira Parte de Ser e Tempo deveria ir além desse relato da temporalidade do Dasein para sustentar a tese principal da obra, planejando Heidegger mostrar como nossa temporalidade (Zeitlichkeit) funciona como horizonte para o ser, de tal modo que o próprio ser é caracterizado pela “Temporalidade” (Temporalität).

18. Poder-se-ia tentar resistir à subordinação heideggeriana do tempo natural e linear à temporalidade do Dasein: não havia tempo antes do Dasein? Em 1935 ele responde que, estritamente falando, não se pode dizer que houve tempo em que não havia seres humanos, tendo havido, havendo e havendo de haver seres humanos em todo tempo, pois o tempo se temporaliza somente enquanto há seres humanos.

19. Poder-se-ia assim falar, com William Blattner, do “idealismo temporal de Heidegger”, podendo realismo e idealismo ser categorias superficiais, tendo, contudo, o idealismo a vantagem de reconhecer que o ser não pode ser reduzido aos entes, “mas já é aquilo que é 'transcendental' para todo ente”.

O início do tempo e o evento do ser

20. Embora jamais tenha admitido explicações naturalistas do tempo humano, Heidegger tornou-se insatisfeito com o ponto de vista transcendental de Ser e Tempo pouco depois de sua publicação, embarcando numa transformação filosófica resumível no lema: “da compreensão do ser ao acontecer do ser”.

21. Como vimos, Ser e Tempo situa-se na tradição transcendental inaugurada por Kant: assim como Kant indaga pelas estruturas da subjetividade como condições de possibilidade da experiência, Heidegger indaga pela temporalidade do Dasein como condição de possibilidade de compreender ser e entes.

22. Se o Dasein não é algo como um sujeito transcendental pairando acima de outros entes, então o Dasein é parte daquilo que há: é um ente em meio a entes, ainda que extraordinário por ter alguma compreensão do ser, sendo o projeto de interpretar essa condição descrito sob a rubrica de “metontologia” em Os Fundamentos Metafísicos da Lógica.

23. A nova perspectiva heideggeriana torna legítimo perguntar: como surge, primeiramente, o tempo do Dasein — a temporalidade extática que nos dá acesso a outros entes? “O fato primal… é que há algo como temporalidade de todo. A entrada no mundo pelos entes é história primal pura e simples.”

24. Para refletir apropriadamente sobre a origem do tempo, Heidegger passa a pensar em termos de um misterioso evento fundador do qual irrompem tempo e ser significativos, sendo esse evento, paradoxalmente dito, o tempo em que o tempo começa.

25. Somente num início se abre uma clareira contra o encobrimento; no início, ocorre a diferença entre ser e não-ser, indicando Heidegger, com a grafia obsoleta Seyn, esse evento de início, e não um sentido particular do que é ser, gerando-se todos esses sentidos no início.

26. Heidegger frequentemente pensa o início como evento poético: “a poesia é o acontecer fundamental do ser como tal, funda o ser e deve fundá-lo”, acontecendo a poesia nos momentos em que o próprio tempo acontece mais intensamente: os momentos que Heidegger, seguindo Hölderlin, chama “os picos do tempo”.

27. Os poetas não são os únicos fundadores; em meados dos anos trinta Heidegger tipicamente fala do triunvirato de poeta, pensador e estadista, sendo “fundar”, entre outras coisas, conceito político, não sendo coincidência que Heidegger esteja pensando a fundação do tempo durante período de revolução e “início” político.

28. As Contribuições à Filosofia (1936-8) dão ao início do tempo e do ser o nome Ereignis, que normalmente significa “evento”, mas também ecoa a palavra eigen (próprio), sendo o evento apropriador “o evento da fundação do aí”.

29. Poder-se-ia também pensar o Ereignis como o evento no qual o ser humano se torna, como Heidegger coloca em Os Fundamentos Metafísicos da Lógica, “uma criatura da distância”, já tendo Ser e Tempo insistido que o fato de nosso próprio ser ser uma questão para nós é essencial à temporalidade e à nossa compreensão do ser.

30. O evento apropriador teria lugar num “sítio do momento” onde emergiria o “tempo-espaço”, devendo a descrição tentativa heideggeriana de tempo-espaço ser lida melhor não como relato transcendental dos “conceitos formais” de tempo e espaço em geral, mas como tentativa de falar de um momento único que iniciaria (ou talvez reiniciaria) tempo e espaço significativos.

31. Como sugere esse último pensamento, para Heidegger nesse período, o ser não é constantemente dado; “o ser é por vezes” (das Seyn ist zuzeiten), não sendo claras as respostas a com que frequência esses tempos vêm, ou se tal tempo já plenamente ocorreu, não se podendo perguntar quando e por quanto tempo o ser “é”.

Recebendo o dom do tempo e do ser

32. Na última fase de seu pensamento, começando por volta de 1940, Heidegger desenfatiza o momento quase político da fundação inceptiva, concentrando-se em vez disso em cultivar gratidão pelo tempo, pela verdade e pelo ser como dispensações do próprio Ereignis.

33. A conferência tardia “Tempo e Ser” (1962) é introdução ao Ereignis como aquilo que dá tanto o ser quanto o tempo, parecendo o ser governado pelo tempo, porque ser parece equivaler a presença, que é determinação temporal.

34. As reflexões heideggerianas nessa conferência são altamente abstratas e preliminares, parecendo, porém, que ele recuou de pensar o Ereignis como o tempo em que o tempo começa.

35. Podemos concluir com algumas comparações históricas, situando-se Heidegger numa tradição que liga o tempo à alma; como Agostinho, por exemplo, ele destaca nossa extensão extática nas três dimensões do tempo, extensão que Agostinho identifica com os atos mentais de expectativa, recordação e atenção.

36. Heidegger insiste que há mais em jogo no tempo do que a observação de eventos que passam: nosso próprio si-mesmo é ineludivelmente temporal, porque é no tempo que descobrimos ou criamos quem somos e onde estamos.

37. Em nome de recuperar essa temporalidade, Heidegger desconstrói a ontologia tradicional, podendo essa desconstrução ajudar-nos a desembaraçar certos quebra-cabeças sobre tempo e ser.

38. A desconstrução temporal heideggeriana da ontologia tradicional não é uma demolição; traz à tona a validade limitada da tradição, tendo uma ontologia da presença seu alcance legítimo como “uma ontologia do mundo em que todo Dasein está”: isto é, ilumina os entes simplesmente presentes dentro desse mundo, não podendo, porém, iluminar a própria temporalidade e historicidade do Dasein.

39. Heidegger não nos deixa soluções finais, mas conceitos novos e questões novas, podendo-se mencionar, entre muitas, o problema de como conceber Deus uma vez expostas às críticas heideggerianas as noções tradicionais de tempo e ser.