Hermenêutica da Facticidade

Theodore Kisiel. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.

Compreender a vida factual em sua concretude holística: de Dilthey a Heidegger

1. Foi Fichte quem primeiro cunhou, para a tradição filosófica, o termo abstrato “facticidade” (Facticität, mais tarde Faktizität), não se referindo a fatos empíricos ou a sua coleção, mas ao “fato” central da tradição do pensamento moderno, que toma seu ponto de partida no célebre regresso cartesiano ao “fato do eu-penso”, entendido como o limite irredutível da reflexão para além do qual não se pode mais questionar.

2. O uso ocasional do termo por Dilthey é especialmente influente sobre Heidegger, observando o Dilthey mais jovem, ao distinguir pensamento mítico e experiência religiosa, que esse contexto, fundado na experiência religiosa, é igualmente condicionado pelo modo como a realidade era dada aos seres humanos naquela época: a realidade é vida e permanece vida para eles, não se tornando objeto intelectual pelo conhecimento, sendo por isso, em todos os sentidos, vontade, facticidade (Facticität), história, isto é, realidade original viva, pois está ali para o ser humano vivo em sua totalidade e ainda não foi submetida a nenhum tipo de análise e abstração intelectual, sendo ela mesma, por isso, vida, nunca esgotada pelo pensamento.

3. Ainda assim a vida é passível de pensamento quando realizado sem intrusão teórica, isto é, fenomenologicamente, renunciando gradualmente Dilthey, em sua busca de uma crítica da razão histórica, à razão elevada do ego transcendental desprendido, “em cujas veias não corre sangue real”, e convocando um retorno ao “lado de cá” da vida, à plena facticidade da vida ela mesma unhintergehbar, “atrás da qual o pensamento [teórico] não pode ir”, a realidade original vital dada aos seres humanos para viverem antes de pensarem sobre ela, uma dação última e irredutível que os seres humanos não podem senão viver e estão fadados a viver.

4. A vida humana é, de fato, essa continuidade operativa de contexto autoarticulante e, portanto, fundamentalmente compreensível, sendo por isso a fenomenologia, como protociência pré-teórica da experiência original, uma “hermenêutica da facticidade” (Hermeneutik der Faktizität), cujo objetivo inicial é tornar explícitas as estruturas implícitas nas quais a vida histórica já se articulou espontaneamente, “se expôs”, antes de qualquer pensamento estranho ou intrusão teórica alheia.

5. Esse eu historicamente situado logo será ontologicamente identificado com o Dasein como ser-no-mundo, deslizando agora a linguagem da vida para a linguagem do ser, permanecendo, porém, por detrás das cenas do Dasein como ser-no-mundo, a hermenêutica espontânea da experiência de vida fática, operando como domínio primal pré-teórico do ser.

6. Esse repetido cultivo e explicitação da pré-compreensão do ser em contextos articulados de sentido relacional habitualmente reforçados é o que Heidegger chamou de “hermenêutica da facticidade”, onde o “de” é considerado um duplo genitivo, isto é, a facticidade da experiência de vida, sobre a base de uma compreensão prévia, já espontaneamente se explicita e se interpreta a si mesma, desdobrando-se repetidamente na rede de relações significativas que constitui o tecido das preocupações humanas a que chamamos nosso mundo histórico.

7. Também relacionada à situação hermenêutica da vida fática está uma das “teses” mais celebradas de Heidegger, a de que o Dasein é revelabilidade (Erschlossenheit), o lugar da verdade como desencobrimento (Unverborgenheit) do ser, sendo esse modo originário de verdade já manifesto a partir da dimensão tácita da compreensão pré-predicativa que deve ser repetidamente explicitada de sua latência e encobrimento precedentes, primeiro no exercício persistente do hábito de viver, podendo depois ser mais abertamente explicitada por meio de exposição existencial e fenomenológica deliberada.

8. A capacidade reveladora abrangente da existência humana foi de fato reconhecida bastante cedo pela tradição filosófica, observando Aristóteles que “a alma humana é, de certo modo, todos os entes”, isto é, capaz de “vir-a-estar-junto-com” todo o ser por meio da intelecção cognitiva, citada em De Anima.

Combater a ruína e indicar formalmente a factualidade da vida

9. A facticidade da vida foi primeiramente tematizada de modo indicativo e esquemático no Semestre de Emergência de Guerra de 1919, sob o título do “algo-primal” (Ur-etwas) pré-teórico da “vida em e para si mesma”, passando os semestres seguintes a fazer da vida fática a matéria única e central de uma fenomenologia definida como a ciência primal pré-teórica da experiência original.

10. O tratamento fenomenológico mais exaustivo da própria vida fática por Heidegger ocorre no Semestre de Inverno de 1921-2, repleto de um elaborado sistema de categorias no espírito de Dilthey que rastreiam os complexos movimentos da vida em suas relações com o mundo.

11. A estrutura mais profunda da vida fática subjacente à correlação intencional entre nós e o mundo revela-se, assim, a correlatividade do cuidado e da significância, podendo essa estrutura profunda ser agora propriamente identificada como sua facticidade, que, como contexto articulado de sentido, de modo algum é um fato bruto fechado em si mesmo, mas antes um contexto significativo aberto a desenvolvimento ulterior.

12. O primeiro relato fenomenológico detalhado de Heidegger acerca dos modos de decadência — chamada, neste semestre, “ruinância” (Ruinanz) — é apresentado numa linguagem idiossincrática e num nível de complexidade que será em grande parte abandonado em relatos futuros, sendo descrita em Ser e Tempo como um “cair” (Verfallen) na “inautenticidade” (Uneigentlichkeit).

13. A hermenêutica contrarruinante da facticidade assume, assim, o papel de desmascarar a dissimulação e o disfarce, a fim de trazer a vida fática de volta de sua perdição na multiplicidade do mundo e restituí-la a si mesma em sua postura mais originalmente autônoma e singularmente unificada na facticidade da vida.

14. Os sentidos de direção subjacentes ao relato dos movimentos intencionais da vida fática — o sentido de contenção do mundo como contexto significativo e o sentido relacional do cuidado — entrelaçam-se, em sua ampla formalidade, nas mais básicas relações intencionais da facticidade.

15. Por partir a filosofia, radicalmente compreendida, sempre do âmbito pré-teórico da facticidade da experiência original, ela de fato não “põe” nem “postula” seus pressupostos, pois já se encontra posicionada em seu “pressuposto” mais básico, a própria facticidade da vida fática, sendo, na linguagem inicial de Heidegger, sua Voraus-Setzung básica de fato Voraus-Dasein, “pré-existência” em seu estar-t/aí.

16. Incumbe a cada tempo e a cada geração de filósofos submeter sua situação hermenêutica corrente, transmitida a princípio numa interpretatividade já dada, a um regresso desconstrutivo, a fim de explicitar as forças motrizes ocultas operantes nessa interpretação fática, devendo, ao fim, toda a história da filosofia ser submetida a uma contestação destrutiva de seus veneráveis conceitos para recuperar as experiências originais das quais se desenvolveram.

O fato de ser lançado e a condição de ser lançado

17. É próprio de Ser e Tempo tratar a facticidade em estreita proximidade com o sentido de “ser-lançado” ou “lançamento” (Geworfenheit) da existência humana, marcando a interjeição do lançamento em Ser e Tempo também a conclusão da mudança radical de paradigmas do Cogito husserliano para o Da-sein heideggeriano, de uma consciência intencionalmente orientada para uma ex-sistência historicamente situada, realizada de modo perceptivelmente imperfeito nos relatos anteriores, algo mistos, da facticidade da vida.

18. O sentido de lançamento é, coloquialmente, a percepção potencialmente estarrecedora de encontrar-se lançado num mundo que não se fez e numa vida que não se pediu, sendo essa revelação austera e simples da finitude humana o confronto com o fato radical ineludível de simplesmente estar aqui, quer se queira quer não, ou, como diz Heidegger, “o ser do Dasein irrompe como o fato [puro e] nu 'de que ele é e tem de ser'”.

19. Há mais no lançamento do que esse Fato austero e puro de simplesmente estar aqui, de estar entregue ao Fato “de que sou e tenho de ser”, pertencendo também ao lançamento o fato de que o Dasein “foi relegado a um 'mundo' e existe faticamente com outros”, isto é, fomos lançados não apenas ao puro ser, mas a um ser já contextualizado que compartilhamos com outros.

20. Assumir o próprio lançamento histórico envolve, assim, assumir a própria herança na protoação da historicidade própria, envolvendo em particular assumir as possibilidades da herança julgadas relevantes para a própria situação histórica atual, como possibilidades herdadas e, no entanto, escolhidas, ocorrendo a ação historicizante básica da historicidade própria no retraçado do movimento unitário do lançamento-projeção que é a temporalidade originária.

21. Como a repetição envolve interpretação e reinterpretação de acordo com o contexto holístico da situação histórica na qual se é lançado, retorna-se em círculo completo a uma hermenêutica da facticidade, agora centrada na exposição reveladora aberta da própria situação, sítio próprio dessa hermenêutica da facticidade mais focada, isto é, formalmente indicativa (indexical).

22. Recorrer aos pronomes pessoais indexicais reconduz ao conceito formalmente indicativo, que, como já notado, encontra sua atualização última somente na própria situação temporal singular, exigindo a mais central das indicações formais que essa atualização ocorra no nível do próprio ser: “o ser de que esse ente [chamado Dasein] se ocupa é, em cada instanciação, meu [teu, nosso]”.

23. Das Er-eignis, “a história originária ela mesma”, é a caracterização mais frequentemente invocada e mais profunda do Heidegger tardio para a relação Da-sein-Sein, já se podendo supor tomar forma, no que precede, na relação crescentemente receptiva, ao ponto de uma inversão de iniciativa, desenvolvendo-se entre o ser humano e sua situação lançada de ser.

24. Numa nota de cerca de 1929, pertencente às tentativas de completar o fragmento que é Ser e Tempo, Heidegger observa que a temporalidade não é apenas um fato, mas ela mesma da essência do fato: a facticidade, sendo o fato da facticidade a raiz da “reviravolta” da “ontologia” em metontologia, podendo-se perguntar “como o tempo se origina?”, só havendo possibilidade de origem com o tempo, questionando-se então qual o sentido da impossibilidade do problema da origem do tempo.

Posfácio não científico sobre “indicação formal”

25. A dimensão formalmente indicativa da hermenêutica da facticidade emergiu, no exposto, primeiro, por meio dos sentidos de direção que convergem na intencionalidade de triplo sentido da vida fática, atingindo sua totalidade mais própria num sentido culminante e unificador de temporalização, e, segundo, no contexto de uma ex-sistência situada que se encontra lançada num mundo histórico, chamada a fazer sua essa situação histórica por meio de uma exposição reveladora aberta e da recuperação de possibilidades precedentes latentes ainda relevantes para seu próprio tempo e geração, projetadas como tarefas históricas próprias.

26. O curso do Semestre de Inverno de 1929-30 enfatiza esse ponto a partir da perspectiva do último tratamento heideggeriano da indicação formal, sendo, em contraste com os conceitos científicos, todos os conceitos filosóficos formalmente indicativos, não visando nem exprimindo diretamente o conteúdo de sentido desses conceitos aquilo a que se referem, mas dando apenas uma indicação, um apontamento para o fato de que quem busca compreender é convocado, por esse contexto conceitual, a atualizar uma transformação de si mesmo no Dasein [dentro de si].

27. Por poderem tais conceitos apenas transmitir o apelo a essa transformação sem poderem eles mesmos provocá-la, são apenas conceitos indicativos, apontando em cada instância para o próprio Dasein, meu, teu, nosso Da-sein, como lugar e agente potencial dessa transformação, sendo, “porque nessa indicação apontam em cada instância para uma concreção do Dasein individual no homem, sem jamais trazerem consigo o conteúdo dessa concreção, tais conceitos formalmente indicativos”.

28. Esses conceitos formalmente indicativos, propriamente filosóficos, apenas evocam o Da-sein no ser humano, mas não o realizam de fato, havendo algo de penúltimo no filosofar, cujo questionamento traz até a própria beira da possibilidade do Dasein, aquém apenas de “restituir ao Dasein sua atualidade, isto é, sua existência”.