Fenomenologia

Günter Figal. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.

A anonimização e universalização da fenomenologia em Heidegger

1. Num dos últimos textos que publicou, Heidegger esboça seu “caminho para a fenomenologia” e ao mesmo tempo reflete sobre as possibilidades futuras da fenomenologia, afirmando que a época da filosofia fenomenológica parece ter chegado ao fim, sendo já tomada como algo passado, apenas registrado historicamente ao lado de outras escolas filosóficas.

2. Naquilo que lhe é mais próprio, a fenomenologia não precisa necessariamente ser realizada, permanecendo o que é mesmo como possibilidade que apenas aguarda sua realização, persistindo essa possibilidade “mais própria” sem estar vinculada a um programa ou método filosófico, sendo, tal como Heidegger a caracteriza, nada além da própria possibilidade do pensar.

3. A anonimidade da fenomenologia não é descoberta tardia para Heidegger, revelando-se retrospectivamente já central em seu começo filosófico, dizendo ele que, em seu estudo das Investigações Lógicas de Husserl, a princípio guiado mais por suposição que por percepção fundamentada, experimentou como aquilo que ocorre, para a fenomenologia dos atos de consciência, como automanifestação dos fenômenos, é pensado mais originariamente por Aristóteles e em todo o pensamento e existência gregos.

4. A anonimização e a universalização da fenomenologia constituem o movimento fundamental do pensar heideggeriano, sendo, como tal, sua contribuição à fenomenologia, contribuição não menos essencial que paradoxal, vindo à luz, com base nesse movimento, a poderosa obra filosófica de Heidegger numa homogeneidade talvez surpreendente, dada sua incessante alteração e reinterpretação dos próprios conceitos e sua sempre vigilante disposição para um novo começo.

5. Esse caráter fenomenológico abriga, porém, uma tensão, tão paradoxal quanto a anonimização e universalização heideggerianas da fenomenologia, que parte de um modo limitado de questionar, encontra a fenomenologia em todo filosofar e pensar, e, contudo, só consegue encontrá-la graças à limitação de seu próprio modo de questionar.

6. Essa contribuição é menos evidente no pensamento inicial de Heidegger que em seu período tardio, permanecendo sua contribuição, enquanto nomeia abertamente seu pensar de fenomenologia, comparativamente convencional em relação às obras posteriores, tornando-se, com o passar dos anos, suas meditações mais concentradas, voltando-se ele cada vez mais decisivamente à essência dos próprios fenômenos, a fim de compreender o destino da filosofia a partir dessa essência.

O desencobrir como aletheia e physis

7. A contribuição de Heidegger à fenomenologia, e assim também a sua anonimização, começa exatamente como ele a relata em seu texto tardio: como crítica ao programa husserliano, crítica que visa ver a experiência fenomenológica não como método científico, mas como possibilidade fundamental da vida humana, entrando aqui Aristóteles em jogo, remontando-se a “fenomenologia dos atos de consciência” a uma atividade que Aristóteles chama alethéuein (desencobrir).

8. Deixando de lado por ora essa ontologização da fenomenologia — e fenomenologização da ontologia —, a compreensão heideggeriana do fenômeno, tal como esboçada, permanece bastante próxima da de Husserl, ou, mais precisamente, de sua definição canônica de fenômeno, segundo a qual o significado da palavra “fenômeno” é duplo, em razão da correlação essencial entre o aparecer e aquilo que aparece.

9. Este é um pensamento decisivo: para Heidegger, um momento essencial do fenomenal é a retração (Entzug), estando algo, no “aí da ausência”, presente de modo intensificado, podendo o mesmo ser dito de algo trazido à luz a partir da ausência, tampouco dado, em termos husserlianos, como “aquilo que aparece”, mas antes em “aparecer”.

10. Heidegger permanece fiel a essa convicção — de que a fenomenalidade dos fenômenos se deve ao processo de descoberta — até o início dos anos trinta, sendo a compreensão do Dasein como “formador de mundo”, no curso de conferências do Semestre de Inverno de 1929-30, uma radicalização da posição de Ser e Tempo, não sendo apenas descoberto, mas produzido, o que vem a aparecer no curso da “projeção” (Entwurf) de um mundo.

11. Esse ponto pode ter sido fator significativo que levou Heidegger a retratar sua absolutização da produção, remetendo-se, ao fazê-lo, ao começo da filosofia no pensamento grego, mas de modo bastante diferente do que fizera no início dos anos vinte, já não vendo o “primeiro e definitivo desdobramento” desse pensamento no pensamento aristotélico do alethéuein, encontrando uma nova palavra fundamental: a palavra physis.

12. Mesmo agora, a identificação, em Ser e Tempo, entre fenomenologia e ontologia se mantém firme, sendo a physis, como Heidegger afirma em seu curso do Semestre de Verão de 1935, Introdução à Metafísica, “o ser do ente”, por ser “o que emerge de si mesmo” ou “o desdobramento que se abre a si mesmo”.

13. A caracterização do aparecer como physis ainda é, porém, preliminar, não se cumprindo, mesmo aqui, de modo inteiramente convincente, o projeto heideggeriano de encontrar a fenomenologia anonimamente no pensamento grego.

14. Heidegger viu claramente essa dificuldade, tentando resolvê-la em seu ensaio sobre o começo do segundo livro da Física de Aristóteles, ao distinguir entre a “essência” da physis e seu “conceito”, segundo a qual apenas o “conceito” de physis nos liga a um âmbito particular de entes, os entes naturais, ao passo que a “essência” originária da physis seria supostamente emergência e automostrar-se sem restrição.

15. Ainda assim, é preciso perguntar como o “de si mesmo” que Heidegger quer apreender com o pensamento da physis poderia ser explicado senão em termos do natural ou do vivo, apoiando-se toda tentativa de definir o automostrar-se a partir da physis, ou mesmo como a própria physis, na emergência e no crescimento do natural.

16. Heidegger tira uma conclusão que se impõe: volta-se a seu conceito-guia inicial de alethéia, mas não mais o compreende, com a Ética a Nicômaco, a partir do alethéuein, remetendo-se antes a Parmênides.

A clareira e a tarefa do pensar

17. Heidegger já havia falado de “clareira” (Lichtung) em obras anteriores, sendo o termo usado em Ser e Tempo para explicar a “revelabilidade” (Erschlossenheit), bem como o parentesco dessa característica ontológica do Dasein com a imagem do lumen naturale, empregando Heidegger a expressão também em “A Origem da Obra de Arte”.

18. É preciso reconhecer que, em “A Origem da Obra de Arte”, Heidegger ainda confere ao termo “clareira” acento nitidamente diverso do que tem em seus textos tardios, sendo ali a clareira pensada como a abertura do encobrir e do desencobrir, vinculada ao “conflito” entre “mundo” e “terra”.

19. A clareira é considerada de modo bastante diferente, porém, no texto tardio “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensar”, sendo aqui chamada de “lugar da quietude” que “primeiro concede o desencobrimento”, isto é, permite o jogo do encobrir e do desencobrir.

20. Como esse espaço livre, porém, a clareira precede todo desencobrir e encobrir, pressupondo até a luz a clareira, assim como esta é pressuposta “para a ressonância e o eco, para o som e o esvaecer do som”.

21. É particularmente notável, porém, que Heidegger retome essa “matéria primordial” como a matéria de um pensar que se diferencia de toda “filosofia”, sendo a filosofia como metafísica pensar fundacional, ao qual o pensar da clareira renuncia, não encontrando tal pensar apoio na filosofia e, portanto, nenhum começo.

22. O que Heidegger abandona em seu texto tardio é o mito do começo: suas muitas variações sobre a história da filosofia como perda de uma verdade originária, perda provocada pela tradição, verdade que, segundo o mito, deveria ser recuperada, reconquistada ou retomada num “outro começo”.

23. Com essa guinada para longe da filosofia em favor de um pensar que já não é mais filosófico, por já não ser mais fundacional, chega também ao fim a universalização da fenomenologia.

24. Sendo esse o caso, a interpretação fenomenológica pode de novo apresentar-se abertamente como tal, podendo — e devendo — ser chamada fenomenológica, em vez de permanecer oculta anonimamente em toda filosofia e todo pensar, apontando o próprio Heidegger nessa direção ao adotar o termo fundamental goethiano “fenômeno primordial”.

25. O aparecer dos fenômenos primordiais pode deixar sem palavras a vontade de fundamentação, preferindo, como diz Goethe, “as pessoas sensatas”, diante de tais fenômenos, refugiar-se no “assombro”, não precisando, porém, os fenômenos primordiais ser aceitos silenciosamente, podendo ser interpretados, desenvolvidos em sua estrutura e momentos, e assim também compreendidos como coerentes, podendo ser experimentados hermeneuticamente, animando-nos e alegrando-nos assim “através do jogo eterno da experiência [Empirie]”.

26. Isso vale para os fenômenos reconhecidos como tais em geral, valendo para os fenômenos primordiais somente quando a “experiência” é determinada pela intensidade do fenomenal, fazendo-se justiça aos fenômenos primordiais apenas se, ao interpretá-los, se considera sua fenomenalidade como tal.

27. A fala heideggeriana sobre a clareira deve provavelmente ser entendida nesse sentido, não sendo a clareira, então, um fenômeno primordial, nem, de fato, um fenômeno entre outros, mas a claridade dos fenômenos, que se torna evidente nos fenômenos primordiais.