A resposta sofística à ontologia negativa: Górgias
A ontologia negativa parmenidiana suscita rapidamente uma réplica, formulada pelo sofista Górgias em seu Tratado do não-ser, conhecido por meio de Sexto Empírico.
Górgias, nascido por volta de 480 a.C. em Leontinos, colônia grega da Sicília, pertence ao mesmo mundo colonial que Parmênides, mas se move em um horizonte intelectual distinto.
Orador itinerante, mestre da persuasão e remunerado por seu ensino, Górgias encarna a figura paradigmática do sofista.
Platão atribui ao termo “sofista” um sentido pejorativo, em oposição ao filósofo.
O filósofo é definido como aquele que ama a sabedoria sem possuí-la, ao passo que o sofista se apresenta como detentor de um saber transmissível.
Essa distinção, consolidada por Platão, estrutura a tradição posterior, mas não elimina a seriedade do desafio sofístico.
Heidegger reconhece que a sofística desempenhou um papel decisivo na gênese da filosofia.
Ela desloca o foco da reflexão do mundo para a interpretação do Dasein.
Surge no contexto da democracia ateniense, como resposta à necessidade de formação retórica do cidadão.
Apesar disso, Heidegger critica a sofística por sua indiferença à coisa mesma.
O primado do discurso conduz à perda do sentido da realidade.
Essa dessubstancialização da coisa funda uma forma de inautenticidade existencial, análoga ao “falatório” [Gerede] analisado em Ser e tempo.
O sofista é caracterizado como um homem do discurso, não como um pensador do ser.
Sua prática pressupõe, porém, o horizonte ontológico dos pré-socráticos.
A sofística é uma derivação da sophia grega, fundada na compreensão do ser como presença e da verdade como alētheia [non-occultation].
A sentença de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, não deve ser lida como subjetivismo moderno.
Ela se enraíza na experiência grega de um aberto prévio, de um campo de não-ocultação.
O homem é medida enquanto limitado pelo modo como o ente se desvela para ele.
Coloca-se então a questão decisiva: o Tratado do não-ser de Górgias participa dessa mesma experiência originária da ocultação?
Heidegger limita-se a expor suas três teses, reconhecendo nelas uma seriedade filosófica.
Essas teses retomam uma problemática já presente no ceticismo antigo: a possibilidade da verdade e do ente.
As três teses de Górgias
Primeira tese: nada existe.
Segunda tese: mesmo que algo exista, é incognoscível.
Terceira tese: mesmo que fosse cognoscível, não seria comunicável nem formulável.
Do ponto de vista lógico-proposicional, tais teses são coerentes.
Elas exploram os princípios de identidade e não-contradição.
Porém, sua coerência depende de uma concepção técnica da linguagem.
O discurso de Górgias traduz o poema de Parmênides em proposições lógicas.
Ao fazê-lo, desfigura sua intenção originária.
O ser parmenidiano não se diz na forma proposicional, mas na tautologia originária eon emmenai, “o ente é”.
Essa tautologia não é um enunciado lógico, mas uma indicação fenomenológica.
Ela aponta para o ser enquanto inaparante, que se retira para deixar-ser o ente.
Pensar e ser: o ponto decisivo do confronto
O fragmento III de Parmênides afirma: “o mesmo é pensar e ser”.
Heidegger interpreta essa identidade como o “dobra” [Zwiefalt] entre ser e ente, verbo e nome.
Essa dobra pertence à Moira, à dispensação que distribui o aparecer.
O desvelamento do ente exige que o desvelamento do ser permaneça oculto.
A alētheia implica sempre lethē [ocultation].
O que aparece como pura clareza é atravessado pela obscuridade.
Parmênides pressente essa estrutura, mas não a pensa explicitamente.
Héraclito é o único pré-socrático que exprime a co-pertença de ocultação e desocultação.
Górgias, ao contrário, rompe essa co-pertença.
Ele separa radicalmente discurso e ser.
Funda assim a retórica como técnica do discurso sem compromisso com a verdade.
Sua crítica não conduz a uma ontologia negativa, mas à autonomia total da linguagem.
O logos torna-se independente do ser.
O discurso vale por sua eficácia persuasiva, não por sua relação com o desvelamento.
Da sofística ao ceticismo: a figura de Pirro
O verdadeiro contraponto à ontologia parmenidiana não é Górgias, mas Pirro.
O ceticismo nasce em um contexto histórico distinto, após o colapso da pólis clássica.
Trata-se de uma filosofia do fim de uma época, não do nascimento da filosofia.
Pirro nada escreveu; sua doutrina é conhecida por testemunhos indiretos.
Ele afirma a indiferença, indeterminação e indecidibilidade das coisas.
Nem sensação nem juízo dizem o verdadeiro ou o falso.
A atitude fundamental é a epokhē [suspension of judgment].
Não afirmar nem negar.
Não tomar partido.
Dessa suspensão decorrem dois estados:
Aphasia [speechlessness], impossibilidade de dizer.
Ataraxia [imperturbability], serenidade diante do mundo.
Segundo Marcel Conche, o ceticismo pirrônico vai além da simples suspensão do juízo.
Ele implica a dissolução universal dos entes.
Não há mais ser, nem mesmo como problema.
A diferença entre aparência e ser é abolida.
Surge a noção de uma “aparência absoluta”.
O aparecer não remete mais a um fundo ontológico.
O preço dessa crítica radical é o silêncio.
O ceticismo culmina na impossibilidade do discurso filosófico.
Assim, a resposta extrema à ontologia negativa não é um contra-discurso, mas a aphasia.