BOSS, Medard. Angústia, culpa e libertação. Tr. Barbara Spanoudis. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
O MÉDICO E A MORTE
1. O agradecimento pela honra de poder falar sobre o morrer vem acompanhado de felicitações aos futuros médicos pela audácia de enfrentar abertamente o problema da morte numa época histórica na qual há a tendência de ignorá-la com veemência cada vez maior, e de adesão ao elogio expressivo que o orador precedente atribuiu àqueles que formularam extraordinariamente bem as questões, pois o saber formulá-las é o mais importante, já que no fundo as questões já predeterminam e delimitam as respostas.
2. O que deu aos futuros médicos a coragem de durante todo um Congresso enfrentar ou querer enfrentar a morte foi provavelmente o fato de que toda a profissão, todas as profissões daqueles homens que querem curar outros doentes, está orientada tanto para o viver como para o morrer, pois toda doença é uma ameaça à vida e com isso um aceno para a morte, ou até um primeiro ou um último passo em direção à morte.
3. Vida e morte são inseparavelmente unidas e pertencem uma à outra, não havendo viver terrestre sem morrer e não podendo haver morrer sem um viver precedente, e por isso não se pode aproximar isoladamente de um desses dois parceiros inseparáveis, pois quem quiser compreender algo da vida dos homens deverá também pensar em seu ser-mortal e quem quiser compreender a morte também será obrigado a se informar sobre a condição da vida humana.
4. Infelizmente os médicos são muito mal preparados para uma compreensão do viver e do morrer do homem, da vida e morte humana, pois no que diz respeito ao objeto de pesquisa, o homem que existe e morre, a formação sempre põe o carro na frente dos bois, introduzindo primeiramente nos métodos de pesquisa da física e da química e depois também da botânica e da zoologia, mas o homem não é apenas um corpo inanimado ou uma planta ou um animal.
5. Certamente o existir humano, especialmente sua corporeidade, mesmo quando interrogado através desses métodos científico-naturais de uma forma como se o homem fosse um aparelho autorregulador inanimado, ou uma planta ou um animal, também dá muitas respostas extremamente úteis e necessárias, respostas que permitiram conseguir os admiráveis sucessos terapêuticos da medicina somática, mas justamente aquilo que no existir humano é especificamente humano continua altamente subdeterminado, e os métodos de pesquisa científico-naturais não alcançam o âmbito dos fenômenos humanos, muito menos conseguem realmente penetrar neles.
6. Por exemplo, todas as modernas descobertas cérebro-fisiológicas e moléculo-biológicas extraordinariamente refinadas em nada contribuíram para a compreensão da consciência humana como tal, e do relacionamento dessas constatações com os fenômenos das percepções humanas de algo como algo, deste ou daquele significado, pode ser dito apenas que seriam uma inter-relação de mero quando-então, pois quando de uma câmera escura se olha para o sol e o vê como um sol luminoso, então através de um eletroencefalógrafo certamente podem ser registradas um grande número de correntes no cérebro, mas isto é somente um quando-então e nada mais.
7. Se procurarmos estabelecer um nexo causal entre os dois, dizendo que os processos cerebrais seriam os produtores ou somente a base, o substrato do compreender do sol como sol, neste caso se pratica magia científica disfarçada, pois ninguém consegue conceituar algo razoável em tais relacionamentos entre o chamado somático e o chamado psíquico.
8. Mas se os conhecimentos científico-naturais não permitem compreender o existir humano, eles também não ajudam em relação ao fim, isto é, em relação à morte, e quando muito conseguem formular a morte do homem em analogia ao acabar-se de coisas materiais inanimadas, pois por exemplo a medicina científico-natural pode compreender a morte como algo que falta, como o último componente a ser acrescido mais tarde a uma coisa existente, aproximadamente como ao pagar em prestações uma dívida, a última parcela é paga e com isso esta dívida liquidada.
9. Algo que tem existência científico-natural também pode acabar de outra forma, pois a chuva por exemplo acabou, quer dizer desapareceu, terminou, ou o pão acabou, foi consumido, o caminho acabou, terminou, concluído ou não concluído, uma máquina chega ao fim de seu funcionamento, uma roda quebrou, mas a morte dos homens não pode ser adequadamente caracterizada através de todas essas formas do acabar-se, pois nenhuma das formas desse acabar-se, nem mesmo de longe, se deixa comparar com o morrer do homem.
10. O acabar da vida humana antes parece ser comparável com o completo amadurecimento de uma fruta, mas também essa aparência engana, pois certamente a fruta imatura, assim como o homem ainda vivo, encerram dentro de si o seu amadurecimento na medida em que fruta e homem podem produzir partindo deles mesmos no decorrer do prosseguimento de suas vidas aquilo que eles ainda não são, e como na imaturidade da fruta a existência do homem já é também o seu ainda-não, a ambos pertence continuamente o seu ainda-não como a sua própria possibilidade.
11. Mas com o amadurecimento a fruta se completa, em comparação com isto o homem geralmente morre incompleto ou esgotado e gasto, e é óbvio que também pela botânica nada se pode descobrir sobre a morte do homem como morte humana, pois o homem existe e morre de uma forma toda própria, reservada somente a ele, e por isso só se pode esperar uma compreensão do seu existir e morrer se nos aproximarmos de ambos através de outro método de investigação apropriado à sua particularidade especial.
12. Mas de modo algum transferindo simples e levianamente para o ser humano um método de pesquisa que deu bons resultados em outro setor, por exemplo no da matéria inanimada, e por conseguinte propõe-se que se aproximem do viver e do morrer do homem com um modo de observar que consiste tão-somente num olhar cuidadoso e imparcial, devendo-se desistir radicalmente de todo derivar, explicar, concluir, formar hipóteses, intervir com cálculos.
13. Que a partir de agora o existir e morrer do homem se mostre ao olhar despretensioso através deste existir e morrer do próprio homem, pois só quando se consegue contemplar algo como algo, olhar para lá e lá demorar contemplando e percebendo, só assim se logra reconhecer um primeiro e fundamental traço do nosso existir, um traço que não pertence a nenhum objeto inanimado.
14. Da mesma forma que o próprio existir e morrer como tal pode abrir-se à compreensão, assim também nós homens existentes somos feitos de tal maneira que existimos igualmente como um poder-perceber e um ser acessível para os significados de tudo que encontrarmos no âmbito do nosso mundo.
15. Mas esse poder-perceber e ser acessível não está primeiramente encerrado dentro de uma cápsula-psiquê, uma cápsula-consciência ou algo parecido, de tal forma que secundariamente ele tivesse que sair de maneira inexplicável dessa cápsula e transcender até as coisas do nosso mundo, pois fundamentalmente todos nós em conjunto somos antes um poder-perceber e ser-solicitável para aquilo que encontramos, e continuamente estamos estirados na amplidão do mundo na medida em que há lugares dos quais algo nos solicita como algo.
16. Pois certamente nunca poderíamos pegar e captar algo se não estivéssemos, todos nós em nosso mundo comum, junto às coisas, sempre como um poder-perceber e um ser-solicitável, ali onde as coisas de fato estão, ou seja, apenas se pode captar e pegar aquilo perto do qual já se está.
17. Mas de acordo com a natureza fundamental, por sermos continuamente um poder-perceber aquilo que vem ao nosso encontro estirado na amplidão do mundo, também estamos constantemente em relacionamento com aquilo, envolvidos com aquilo, procedendo diante daquilo desta ou daquela forma, e a princípio nos demoramos num relacionamento de mera constatação frente ao que encontramos, mas em seguida o que encontramos requer de nós um procedimento adequado, correspondente àquilo que ele mostra ser.
18. Torna-se então claro que de forma alguma estamos neste mundo como corpos inanimados, pois cada vez que nos vemos como existentes nos descobrimos como aqueles seres que sempre se abrem neste ou naquele relacionamento diante daquilo que encontramos, enquanto os corpos inanimados podem ser suficientemente caracterizados afirmando-se que estão num determinado lugar do espaço, que conforme seu volume ocupariam uma parte do espaço e seriam separados dos outros corpos por determinadas distâncias, e além disso pode-se dizer deles que neles se verificam qualidades sensorialmente perceptíveis bem determinadas.
19. Mas de tudo isso não há nem vestígio no existir do homem, pois o homem não existe que nem uma coisa, por si, que tem qualidades determinadas e que está num certo lugar, e pelo contrário ele existe como um conjunto singular de possibilidades de relacionamento, possibilidades que realiza na medida em que é solicitado pelo que encontra, e pode-se dizer que o nosso existir consiste nas possibilidades de relacionamento recebidas diante daquilo que nos solicita e que nos chama.
20. Certamente pode-se dizer que também no tronco de uma árvore estaria contida a possibilidade de se tornar uma mesa através de um marceneiro, mas numa coisa assim inanimada essa possibilidade esgota-se definitivamente uma vez que tenha sido feita a mesa, e então o tronco da árvore perdeu a possibilidade de permitir que dele se produzissem mais mesas, enquanto por outro lado se nós homens executamos as nossas possibilidades de relacionamento não somente as conservamos, mas diante do que encontramos elas se tornam cada vez mais perfeitas, exercitadas, treinadas e adequadas.
21. Todavia, entre a variedade abundante do poder-relacionar ou das possibilidades do existir humanas, descobre-se, estando atentos, uma que se destaca de modo singular de todas as outras, e esta é a possibilidade da existência do poder-morrer, tão característica que desde os tempos de Parmênides ela deu seu nome aos homens, pois a partir de então estes são chamados de mortais.
22. O morrer é uma possibilidade destacada do existir humano por ser a mais extensa e não ultrapassável, e sua realização, que cada um tem que realizar por si próprio, consiste em que com ela nossa existência se abandona a si mesma, pois a morte dos homens é a possibilidade do não mais poder-estar-aqui, mas tem que se insistir, e isto é absolutamente decisivo, que essa extrema possibilidade faz parte da existência e como tal é própria da essência, quer dizer, pertinente desde sempre ao próprio existir.
23. Nós como homens existentes somos constituídos também por ela, junto com todas as outras possibilidades de procedimento diante daquilo que vem ao nosso encontro, e ao homem já pertence com o seu vir-à-vida continuamente a possibilidade do morrer, pois logo que existe o ser-aí do homem ele já está lançado na possibilidade do morrer, e essa possibilidade intrínseca da existência, não ultrapassável e extrema, o homem não pode obter posterior e oportunamente de qualquer parte lá fora no decorrer do seu existir.
24. O existir humano encontra-se com a sua morte diante do seu mais íntimo poder-ser, e além do mais cada homem tem que morrer a sua própria morte, pois em mil e uma das outras possibilidades de proceder pode-se ser substituído por alguém, e diz-se que hoje em dia há procuração para tudo, mas no morrer todos nós somos insubstituíveis.
25. Essa possibilidade extrema e mais íntima do existir do homem, a de morrer, é por ele percebida desde cedo como sendo a mais certa de todas as suas possibilidades, entendida como ser-mortal, pois ele é provavelmente o único ser vivo que sabe com certeza do seu ser-mortal e do seu ter-que-morrer, mas desde que sabe disso ele é fatalmente obrigado, e não pode fazer outra coisa, a reagir de alguma maneira ao percebido, pois simplesmente não se pode deixar de reagir a algo uma vez percebido e sabido.
26. Por essa razão, mas somente nesse sentido, a vida humana pode também ser chamada um ser-para-a-morte, e continua duvidoso se os animais sabem que são mortais, pois nada podem dizer sobre isto, e caso não saibam nada a respeito então eles também não podem morrer como o homem, e neste caso eles somente se acabam.
27. O procedimento mais livre e digno do homem frente à própria mortalidade, a essa possibilidade de relacionamento inerente, extrema e última que é pertinente a nós e que também constitui o nosso existir, consiste em continuar sempre consciente dela, em tê-la como que constantemente diante dos olhos, mas não se advoga a favor do pessimismo nem se entende com isso um fitar obstinado da morte que chegará, assim que de tanto fitar se deixa de viver, mas muito pelo contrário.
28. Pois se continuamos sempre conscientes do nosso morrer, então e somente então todas as outras possibilidades precedentes da vida que também recebemos são postas no seu lugar de acordo com sua categoria, e o continuar consciente da mortalidade impede de nos fixarmos numa das provisórias e precedentes possibilidades de procedimento, impede de torná-las absolutas, e por exemplo o tornar absoluto do acúmulo de posses ou do escravizar-se às atividades cotidianas aparecem necessariamente diante da mortalidade como ridicularidades que elas são se tomadas como procedimentos absolutos.
29. Graças ao fato de nos lembrarmos constantemente da possibilidade do existir do ter-que-morrer ganhamos também a liberdade de franquear a nossos semelhantes as possibilidades vitais destinadas a eles e de admitir que eles continuem aquele ser-humano conforme foram intencionados, e de fato com o tornar-consciente e o continuar-consciente da mortalidade os precedentes modos de relacionar, o relacionamento profissional e co-humano, obtêm a verdadeira dignidade e o verdadeiro significado que realmente lhes compete.
30. Pois só quando continuamos sempre conscientes da mortalidade é que continuamos percebendo que cada momento da vida é irrecuperável e por isso tem que ser aproveitado, e isso só pode acontecer se a cada momento nos abrimos tanto quanto possível ao apelo daquilo que vem ao nosso encontro e se respondemos adequadamente a isto dedicando-lhe toda a nossa essência.
31. Se fôssemos imortais nunca nos arrependeríamos das oportunidades perdidas, pois sempre a qualquer hora poderíamos recuperar as perdas, e somente porque o homem é finito cada momento conta, conta como realização e libertação ao nos envolvermos adequadamente com as reivindicações daquilo que nos solicita, conta como falta se deixarmos de corresponder.
32. Mas o relacionamento aberto, o único digno do homem frente à intrínseca e extrema possibilidade de existir, o morrer, não é mais procurado na sociedade atual possessiva e competitiva, pois nela a vida, igual a tudo que existe, só pode ser entendida como uma posse, e a visão dos fatos do mundo geralmente é tão reduzida que aquilo que encontramos só pode aparecer como possibilidade de produção e promoção do próprio poder, e assim para a maioria das pessoas trata-se apenas de agarrar a vida como uma posse permanente, e por isso a morte é negada tanto quanto possível.
33. Todos conhecem inúmeras possibilidades de negar a morte, e primeiramente reduz-se a visão em relação à própria mortalidade ao ponto de querer perceber a morte apenas como a morte de outros, preferindo vê-la como um acontecimento que fatalmente sucedeu a fulano ou a beltrano, e distanciamo-nos da mortalidade com a ideia de que certamente há mortes, mortes de outros, mas que para nós ainda falta muito, e além disso a morte parece ser uma mera transformação de um ser vivo em algo inanimado.
34. Pode-se também manter a mortalidade a certa distância se examinarmos a morte psicologicamente, pois há um número considerável de pesquisas psicológicas sobre o morrer, mas elas não são no fundo pesquisas sobre a morte e sim sobre o procedimento dos que ainda vivem, pois a morte, o ser-mortal como um dos traços essenciais do homem, não pode ser captada psicologicamente, e só filosoficamente poderemos ter compreensão dela se quisermos.
35. Certamente ocorreria uma brutalidade gratuita se os médicos dissessem sem piedade na cara de cada moribundo que a sua morte está próxima, pois para esses doentes a firmeza psíquica não é suficiente para aceitar essa verdade sem preparativos extremamente demorados, de forma que ela lhes permitisse um último ato de amadurecimento humano.
36. Em círculos não médicos a negação da morte pode assumir formas grotescas, como nas visitas aos Funeral Homes americanos nos quais os defuntos são maquiados, um cigarro é colocado em suas bocas, e ao lado se tocam fitas gravadas com discursos que os falecidos pronunciaram outrora.
37. Entre aqueles que não querem ou não conseguem fugir dessa forma da morte muitos existem que se angustiam abertamente diante dela, e no procedimento angustioso diante da própria morte esta se revela como o apagar definitivo no nada vazio, como o fim de tudo, sendo a única certeza porém que a existência humana depois de ter morrido não está mais no mundo da mesma forma corpórea como antes.
38. Mas essa certeza não exclui de forma alguma a possibilidade de a morte justamente não trazer consigo a aniquilação radical de tudo, o que é temido na angústia diante dela, pois a morte pode certamente significar uma transformação do estar-no-mundo existencial anterior numa forma de ser totalmente diferente, numa forma de ser que, sem dúvida, não é acessível aos mortais enquanto eles vivem.
39. Cabe perguntar se essa possibilidade não evoca outros modos diferentes do ser do homem, modos que costumam mudar, por exemplo, quem está dormindo e sonhando não consegue entender que ali dispõe de outro existir, acordado e totalmente diferente, justamente aquele no qual ele se encontra depois do despertar, e neste ele se encontra então com seus semelhantes, acordados, junto às mesmas coisas de um mundo comum, totalmente diferente daquele que o envolvia há pouco.
40. No entanto, enquanto sonhava, ele tomou o seu modo de existir sonhador como se fosse, para ele, o único possível e inteiramente acordado estar-no-mundo, assim como nós tomamos o nosso verdadeiro estar acordado como se fosse nossa única e possível forma de ser desperta.
41. Os homens que porventura tenham alcançado o mais alto grau de maturidade, de uma alegria serena e livre, percebem esse caráter de mudança e transformações que possivelmente pertence à morte, e entre eles há homens que chegam a compreender a morte como a realização daquela possibilidade do existir que, justamente porque a abrange e finaliza a existência humana na sua totalidade, prova que essa possibilidade é fundamentada numa indisponibilidade.
42. Cada limite indica em si mesmo algo além do limitado, e para o existir destes homens que conseguem se libertar e ampliar até uma tal alegria serena torna-se evidente, de maneira especialmente impressionante no fenômeno da morte, que a existência humana não é algo completo em si, e pelo contrário a mortalidade dos homens mostra-lhes que a existência humana está constantemente aberta para aquele fenômeno todo diferente que não é apenas mais uma coisa presente, mas antes algo que solicita o ser humano constantemente como âmbito do mundo do perceber significados.
43. Graças a essa condição o homem pode utilizar esse âmbito como lugar de aparecimento dentro do qual algo pode se tornar presente e com isso ser, pois cabe perguntar como, e para dentro de quê, algo poderia ser, quer dizer, tornar-se presente, se não houvesse um âmbito de percepção aberto.
44. Com isso terminam os esboços sobre a morte que provêm da própria pesquisa de fundamentos da medicina, da fenomenologia ou da analítica existencial, mas eles são indispensáveis se nas discussões seguintes se quiser estar razoavelmente preparado para cada pergunta dirigida, e no questionário enviado encontra-se em primeiro lugar o conceito ou essência da morte.
45. Quanto a isso tem que ser observado de início que a morte não pode ser compreendida conceitualmente se quisermos compreender conceito no sentido moderno, atual e científico, pois chega-se a um determinado conceito através de uma definição, mas uma definição significa desde há muito fit per genus proximum et differentiam specificam, e no entanto não se pode submeter a morte a uma espécie, pois frente a ela a conceituação moderna falha completamente.
46. Diga-se de passagem que essa conceituação não alcança justamente as coisas essenciais, pois os fatos essenciais que permitem existir tal qual somos não são compreensíveis conceitualmente e menos ainda podem ser provados cientificamente, e a ciência somente pode receber como fatos as coisas essenciais e tem que aceitá-las como tais para em seguida tratá-las conforme sua natureza.
47. Do mesmo modo que a morte, também não se pode compreender conceitualmente o espaço, o espacial, pois pode-se formar um conceito do espacial ao atribuir-lhe uma homogeneidade e então torná-lo mensurável, mas só se pode classificar ou medir aquilo que já se tem recebido, e certamente a nós homens é concedido ver e descrever a essência dessa possibilidade simples de morrer.
48. Deve-se entender por essência aquilo que de mais íntimo impera constantemente na coisa que está presente e que faz dela uma coisa de tal ou qual significado, e já se caracterizou a essência da morte afirmando que o morrer é de fato uma possibilidade eminente do existir pois ela é extrema e não ultrapassável, e afirmando que essa possibilidade faz parte do existir humano desde o nascimento, e por ser a morte um componente integrado do existir humano ela não pode ser jamais um acontecimento estranho para o homem, e por outro lado ela não é um mero componente pois somente os objetos inanimados têm componentes.
49. A próxima questão é se o relacionamento com a morte se modifica com a idade e se for assim de que forma, e a partir do que foi dito de fundamental entende-se facilmente por exemplo a observação que sempre pode ser feita em crianças antes da puberdade, quando geralmente não têm medo da morte desde que não sejam contaminadas pelo medo dos adultos.
50. Não é que eles não tenham medo de morrer por não saberem o que é isto, pois os adultos angustiados também não o sabem por experiência própria, e as crianças antes da puberdade não têm medo por ainda não se entenderem como sendo um sujeito isolado que poderia ser destruído separadamente, e as crianças são ainda tão sustentadas por seu âmbito de origem que não podem compreender-se como algo isolado e por isso não podem também ter medo da própria destruição como parte de um elemento indivisível e individualizado.
51. Também não têm medo aqueles homens que em sua vida realmente deixaram-se usar, os que deixaram que se desgastassem no essencial as possibilidades que receberam da vida, pois então eles cumpriram aquilo para o que existiram, a saber, para serem usados como o local de aparecimento aberto e sensível dentro do qual pode aparecer e desdobrar-se aquilo que deve ser, pois algo só pode aparecer onde há uma luminosidade, uma clareira.
52. Morrem sem angústia os homens que se deixaram usar como âmbito do mundo aberto e solícito para os significados daquilo que encontraram, homens que gastaram sua vida neste procedimento que responde e corresponde ao apelo das coisas, e nós os vemos passar para a morte com serenidade, enquanto por outro lado o morrer sempre chega cedo demais para aqueles homens que se esquivaram ao próprio para que do seu existir e assim fizeram mau uso da sua liberdade, pois a liberdade humana consiste basicamente na possibilidade dos homens poderem acatar ou recusar a realização do seu destino, e por isso entram em pânico sempre que se deparam com a possibilidade de morrer e então se opõem contra isto numa agonia torturante e sem fim.
53. A pergunta seguinte é de que forma o conhecimento da própria morte influencia o procedimento dos homens durante a sua vida, e parece que ela já está respondida pelas exposições acima que trataram da fuga habitual desse conhecimento, de seu abafamento no desdobrar-se compulsivo em atividades cotidianas, as manias de trabalho, de sua fixação obstinada em qualquer outro tipo de procedimento de primeiro plano, e do único procedimento digno do homem, o de enfrentar abertamente a própria mortalidade como uma possibilidade da existência própria e insubstituível e de tê-la constantemente diante dos olhos.
54. A última pergunta do questionário para a qual se pode pelo menos esboçar uma resposta diz respeito à eutanásia, ao encerrar da vida humana que se supõe sem valor, e não se acha que essa questão seja no fundo uma questão possível, pois cabe perguntar de onde os médicos, de onde qualquer homem em geral, tiraria os critérios para avaliar qualquer vida humana sem se expor à grave censura de ser arrogante e petulante.
55. Em todo caso a vida humana nunca pode ser vista como uma coisa que existe por si só e isoladamente, pois o existir humano abre-se constantemente de acordo com a sua característica fundamental num tecido extraordinariamente rico de relacionamento co-humano, e portanto ele é fundamentalmente um existir social, e por isso também os médicos querendo ou não nunca podem dispensar uma sociologia.
56. Disso resulta por exemplo que também uma criança mongoloide não deve ser vista isoladamente, pois o fenômeno todo é sempre uma criança mongoloide como filho de pais, como irmã ou irmão dos irmãos e como semelhante em círculos ainda bem maiores, e vista assim cabe perguntar quanta criança mongoloide não possui o valor extraordinariamente alto de por sua existência despertar em seus familiares as possibilidades do existir e do cuidar amoroso, que do contrário talvez fossem atrofiadas, e de levá-las ao mais alto desenvolvimento.
57. Sem dúvida não se pode desconhecer as observações segundo as quais certos pais não são capazes de desenvolver a imensa capacidade de amor que solicita uma criança mongoloide, fazendo com que a família toda se desintegre por causa dessa sobrecarga, e então a mesma criança mongoloide internada num asilo pode trazer à luz nos enfermeiros um procedimento humaníssimo.
58. Permanece assim decisivo que pretender julgar da capacidade ou do valor de uma vida equivale a uma atitude de hibridez anômala, e por isso todo esforço médico no sentido da eutanásia supõe necessariamente a sedução do ilimitado.
59. Com isso não se quer de modo algum aprovar os esforços médicos de conservar a vida humana mobilizando todos os artifícios técnicos atualmente utilizáveis mesmo quando essa vida está definitivamente reduzida às manifestações privativas de um vegetar meramente físico e sem-mundo, seja na forma de prematuros malformados, seja na forma de velhos esgotados constantemente em coma e que somente estertornam, sabendo-se que todos já teriam morrido há muito sem esses artifícios técnicos, e também isso pode ser hibridez, o privar esses seres humanos a qualquer preço de sua morte natural.