Muitos psicanalistas contemporâneos, médicos e psicólogos, consideram uma imposição que se lhes proponha ocupar-se de “filosofia”, porque a formação os habituou a privilegiar a ação e a desprezar como ociosas as perguntas sobre a origem e o fim do próprio empreendimento terapêutico, apoiando-se nos “milagres” da medicina moderna e nos resultados psicoterapêuticos como se o êxito prático dispensasse qualquer esclarecimento de fundamentos.
Em verdade, reexaminar sintomas e métodos de tratamento à luz de uma nova compreensão do homem não contém mais “filosofia” do que o procedimento costumeiro de abordá-los sob o ponto de vista das ciências naturais, pois toda abordagem empírica repousa sobre pressupostos prévios que raramente são tematizados quando se toma por óbvio o horizonte naturalista.
Os chamados “fatos puros” das ciências naturais não são puros no sentido de algo que seria “isto ou aquilo em si”, independentemente de uma ideia abrangente sobre a natureza do todo do real, já que cada “fato” científico é antecipadamente determinado por noções pré-científicas de época acerca do caráter fundamental do mundo.
A título de exemplo histórico, os gregos antigos pensavam o que é como “fenômenos”, e o termo “fenômeno” deriva de phainesthai, isto é, “brilhar para fora”, “aparecer”, “desvelar-se”, “sair do encobrimento”, de modo que a própria linguagem indica que o ser é pensado como aparecer.
Na Idade Média, tudo foi concebido como criação causada por Deus a partir do nada, enquanto a ciência de hoje repousa sobre um pressuposto igualmente pré-científico, a saber, a crença de que todas as coisas são objetos calculáveis, o que mostra que a pretensão de neutralidade do método naturalista encobre uma metafísica tácita.
Se toda ciência, inclusive a ciência da cura, se funda em pressupostos, torna-se possível em princípio adquirir uma compreensão nova e melhor do homem com base em suposições mais adequadas, e, nesse sentido, a análise do Dasein de Martin Heidegger oferece razões fortes para ser considerada mais apropriada do que os conceitos naturalistas introduzidos na medicina e na psicoterapia.
Se se puder demonstrar que a análise do Dasein se aproxima mais da realidade humana do que as ciências do comportamento moldadas pelo método naturalista, então ela poderá reivindicar, no sentido genuíno do termo, ser mais “objetiva” e mais “científica”, desde que “científico” seja entendido como “produzir conhecimento” e não como monopólio de um único tipo de método.
Assumindo esse sentido originário de “científico”, torna-se injustificável a tese de que apenas o método das ciências naturais fornece informação precisa, e, por isso, é razoável exigir do psicanalista o esforço de investigar o pensar daseinsanalítico, ainda que ele não esteja habituado a tal exercício.
Se o pensar daseinsanalítico efetivamente se aproxima mais da realidade humana, ele pode oferecer algo que faltou à teoria psicanalítica: uma compreensão do que se faz e por que se faz exatamente assim ao tratar um paciente, fundada em insights sobre a essência do ser humano, e tal compreensão aprofundada tende a beneficiar a própria prática.
Nos capítulos seguintes, propõe-se demonstrar em detalhe que a concepção de homem inerente à análise do Dasein cumpre essas expectativas, isto é, que ela não apenas inspira uma atitude, mas fornece inteligibilidade explícita do agir clínico.