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A ideia diretiva da atividade inesgotável de Freud encontra-se na sua concepção do homem como natureza, isto é, como homo natura, em contraste tanto com a tradição do homem como homo aeternus ou coelestis, quanto com a imagem do homo universalis, e ainda com a teoria antropológico-ontológica mais recente do homem como homo existentialis.
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Uma ideia produtiva é animada por uma fé precisa, isto é, pela certeza de poder descobrir algo da realidade do ser e, a partir disso, configurar o mundo; essa fé não pertence apenas à religião, à arte ou à moral, mas também ao gesto científico.
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Freud constitui exceção ao cientificismo que nega sua própria fé, ao afirmar, em O futuro de uma ilusão, a convicção de que a obra científica pode descobrir algo sobre a realidade do mundo e, assim, aumentar o poder humano de orientar a vida.
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Mesmo essa fé científica carrega um mysterium tremendum, um assombro pressentido diante de um invisível imenso, que em Freud se exprime no sentimento de que, por trás dos instintos particulares, oculta-se algo profundo e poderoso, aproximável apenas com cautela, como se a teoria dos instintos fosse uma mitologia de seres indeterminados e decisivos.
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Nesse assombro do naturalista diante da vida e da morte, Freud assume que a vida impõe sofrimento sem compensação e que o primeiro dever do vivente é suportá-la, o que exige preparar-se para a morte, conferindo primazia à veracidade, inclusive quando o verdadeiro é doloroso.
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A irritação freudiana diante da hipocrisia individual e cultural nasce da constatação de que se vive psicologicamente “acima” da condição real, convertendo sofrimento em bem-estar e miséria em virtude, e nisso Freud encontra, em afinidade com Friedrich
Nietzsche, um ápice de falsidade.
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A técnica freudiana de desmascaramento visa elucidar o enigma da neurose por meio de uma resposta constante, segundo a qual a questão “o que é?” reencontra sempre “o homem”, de modo que o tema originário de vida e morte dá origem ao par verídico e falso, como determinação específica do problema humano do bem e do mal.
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Freud concebe os opostos como condicionando-se mutuamente, mas estabelece uma assimetria decisiva: o mal aparece como princípio de ser do bem, o ódio como princípio do amor, a hostilidade como princípio da amizade, a tristeza como princípio da felicidade, sem admitir a reversibilidade desse nexo.
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Ao valorizar positivamente o mal como força ativa, Freud se distingue de
Agostinho e Johann Gottlieb
Fichte, aproximando-se de Jakob Böhme, Franz von
Baader e Friedrich Wilhelm Joseph
Schelling, bem como do Mefistófeles de Goethe e de Nietzsche, ainda que com uma diferença estrutural decisiva.
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A diferença decisiva consiste em que, ao contrário desses filósofos, Freud não reconhece o bem como força originariamente ativa e criadora, mas o compreende sobretudo como instância negativa de inibição, limitação, condenação e repressão, isto é, como coerção.
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A transformação de impulsos egoístas em impulsos sociais, isto é, a passagem do “mau” ao “bom”, realiza-se, segundo Freud, por coerção externa na história da humanidade e por predisposição herdada e reforçada no curso da vida do indivíduo, culminando na internalização da coerção como Super-Eu.
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A cultura, conquistada por renúncia à gratificação pulsional, exige de cada novo indivíduo a mesma renúncia, de modo que o modelo do homem como natureza comparece, aqui, em sua pureza metodológica: prazer, renúncia por vantagem, pressão social, família como protótipo, e uma “historicidade” convertida em história natural.