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Em
Freud, a corporeidade comparece sob o aspecto do Isso, entendido como reservatório caótico de necessidades, afetos e paixões sob o princípio do prazer, isto é, como aquilo por meio do qual o homem é “vivido” por forças invisíveis, semelhantes a entidades míticas chamadas instintos.
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O Isso não conhece negação, lógica de não contradição, valores ou temporalidade, opera por coexistência de impulsos contrários e por formações de compromisso, e é dominado pelo fator econômico-quantitativo ligado ao prazer.
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A corporeidade, enquanto instintualidade, se liga ao vegetativo; o corpo, enquanto órgão de percepção e motilidade, se liga ao Eu, que é organizado e personificado, e, nessa construção, comparece também um componente neurobiológico que participa do desenho do aparato psíquico.
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O aparato psíquico freudiano é simultaneamente órgão e diagrama clínico, exigindo que qualquer distúrbio seja compreendido por sua posição no conjunto topográfico-dinâmico-econômico, como se vê na teoria da angústia e, sobretudo, na elaboração funcional da repressão.
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A condensação teórica atinge, em
Freud, uma forma quase matemática ao afirmar que a resistência do consciente aos derivados do recalcado varia conforme sua distância do recalcado originário, o que expressa a ambição de formular eventos psíquicos como equações funcionais.
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O núcleo do homo natura freudiano é, assim, a extensão do mecanismo até regiões aparentemente livres do espírito, permitindo conceber a reparação terapêutica por procedimentos “mecânicos”, em especial pela técnica de desmascaramento e pelo mecanismo da transferência.
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O desejo, como motor do trabalho do sonho e como perspectiva fundamental, só se torna inteligível dentro do aparato construído, mas essa perspectiva é paga ao preço de reduzir o homem a um ser que apenas deseja, isto é, de empobrecer as modalidades originárias de significado, nas quais se deseja sempre algo determinado.
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O orgulho teórico freudiano não repousa sobretudo na interpretação de símbolos, mas na descoberta do mecanismo psíquico da doença e do sonho, isto é, na demonstração de que, a partir de condições dadas da organização natural do homem e de seu choque com o ambiente, derivam com necessidade mecânica tanto os processos normais quanto os patológicos e, ainda, a possibilidade de intervenção terapêutica pela transferência.
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Essa conquista funda um setor indispensável da psicologia médica e da psicoterapia, mas a medicina permanece um setor parcial da cultura humana, e a totalidade da condição humana exige uma delimitação antropológica do alcance do mecanismo.