2 Psiquiatria

BINSWANGER, Ludwig. Discours, parcours, et Freud. Analyse existentielle, psychiatrie clinique et psychanalyse. Paris: Gallimard, 1970.

Analítica existencial e psiquiatria

1. A realização de uma conferência desejada por Kurt Beringer transforma a reunião de orador e ouvintes, inicialmente determinada por um tema, em uma convivência fundada na amizade, cuja continuidade não se deixa limitar pela distinção entre vivos e mortos.

2. A convergência entre diferentes países e disciplinas exige uma exposição capaz de comunicar-se com filosofia, psiquiatria, neurologia, biologia e medicina, embora a fragmentação científica dificulte essa tarefa, tornando indispensável distinguir a analítica existencial heideggeriana, que esclarece a estrutura a priori do ser-no-mundo, da análise existencial, que investiga empiricamente formas factuais de presença e depende daquela fundamentação filosófica.

3. A relação entre analítica existencial e psiquiatria envolve a possibilidade de uma organização fundamentada da ciência psiquiátrica, ultrapassando tanto a justaposição de métodos quanto as tentativas de reduzi-la integralmente à função cerebral ou à dinâmica libidinal, pois seus conceitos tornaram-se problemáticos e a subjetividade exige uma abordagem que não se esgota no conhecimento objetivante.

Sobre a pré-história e a história da analítica existencial e da análise existencial

1. A investigação da subjetividade adquire nova importância com Dilthey e ingressa explicitamente na problemática psiquiátrica com as conexões compreensíveis de Jaspers, desenvolvendo-se na distinção entre história interna da vida e função vital, enquanto as pesquisas fenomenológicas de Binswanger e Minkowski procuram esclarecer os fundamentos da prática clínica e a experiência do tempo; a publicação de Ser e tempo permite reconhecer que os conceitos científicos dependem de horizontes de compreensão anteriores à própria conceituação.

2. O desenvolvimento das investigações de von Gebsattel, Erwin Straus e Franz Fischer demonstra que a psiquiatria já buscava compreender a subjetividade e as estruturas da experiência antes da assimilação explícita de Heidegger, cuja obra, entretanto, oferece uma fundamentação ontológica que transforma o exame do tempo vivido em investigação da temporalização e permite elaborar sistematicamente formas maníacas, esquizofrênicas e outras configurações da existência.

3. A contribuição decisiva de Ser e tempo consiste em retirar a subjetividade do âmbito restrito da relação cognitiva entre sujeito e objeto e situá-la no ser-no-mundo como transcendência, tornando possível investigar como a existência se mantém ou se perde na totalidade de suas possibilidades e oferecendo à psiquiatria um fundamento mais abrangente do que os conceitos isolados de consciência ou vida.

Sobre a questão da legitimidade de remeter a análise existencial como método de pesquisa empírica à analítica existencial filosófica

1. A referência da investigação empírico-fenomenológica à ontologia heideggeriana suscita interpretações divergentes, que ora a consideram consequência legítima, ora um desvio antropológico, ora um equívoco produtivo enraizado na própria ambiguidade dos existenciais enquanto determinações do ser humano; essa referência permanece justificável desde que se reconheça que Heidegger interroga o sentido do ser e não pretende descrever exaustivamente as possibilidades antropológicas, cuja investigação pode exigir desenvolver dimensões como o amor, a materialidade, a coloração e a iluminação dos projetos de mundo.

O significado e a importância da analítica existencial para um possível plano da psiquiatria como ciência

1. A conexão ontológica entre manifestações biológicas e psíquicas não pode ser estabelecida apenas a partir de sintomas já constituídos por categorias científicas e avaliações biológicas, exigindo uma investigação anterior da existência humana que esclareça o terreno comum no qual se organizam os diferentes campos psiquiátricos e reconheça sua facticidade e sua condição de estar entregue a um fundamento que não escolheu.

2. Os projetos de mundo não constituem atos absolutamente livres de um ego soberano, pois são projetos lançados e mantêm entre si uma continuidade de compreensão cuja interrupção inteiramente arbitrária os tornaria desprovidos de fundamento e inacessíveis.

3. A psicose não deve ser identificada genericamente a uma ruptura imotivada da continuidade dos horizontes de compreensão, porque muitas configurações esquizofrênicas e maníaco-depressivas apresentam uma organização diferente, mas ainda estruturada, na qual a oposição a determinada forma pode produzir outra forma própria de existência.

Da relação entre análise existencial e psicopatologia

1. A análise existencial não constitui simplesmente uma modalidade de psicologia ou psicopatologia estrutural, pois pode reconhecer e descrever alterações em relação a uma norma sem possuir, por si mesma, critérios para qualificá-las como doenças, tarefa dependente da conceituação e da experiência psiquiátricas, embora suas descobertas possam transformar a compreensão clínica dos sintomas.

2. A evolução da compreensão da esquizofrenia conduz da enumeração de demência, delírios e alucinações à investigação dos distúrbios associativos, afetivos e subjetivos e, finalmente, ao reconhecimento de uma alteração global da personalidade, na qual manifestações motoras, pensamento, sentimento e fenômenos delirantes exprimem uma mesma transformação, em vez de constituírem sintomas independentes ou derivados uns dos outros.

3. A unidade entre a descontinuidade da expressão motora e as alterações do pensamento e da afetividade torna-se particularmente clara na análise do caso Jürg Zünd.

4. A contribuição clínica dessa perspectiva não elimina a diferença entre psicopatologia e análise existencial, pois conceitos como ego, pessoa e personalidade permanecem no domínio do conhecimento objetivante, enquanto a pergunta pelo quem da existência reconhece uma multiplicidade de modos de presença, incluindo o impessoal, o tu e o nós, que não se deixam reduzir a um sujeito individual previamente constituído.

5. A maneira de ser pode expressar-se diretamente em imagens, como o pássaro que sobe, cai ou é abatido, cujas formas e cores manifestam estruturas existenciais sem exigir a inferência de um conteúdo escondido, tornando a imagem uma expressão imediata do projeto de mundo e restituindo importância decisiva à linguagem e ao conteúdo manifesto dos sonhos.

6. A metáfora interessa à análise existencial não apenas como transferência linguística de uma significação entre campos distintos, mas sobretudo como manifestação de uma possibilidade fundada na própria estrutura da existência.

7. A despedida de uma pessoa amada, descrita por Minkowski, mostra alguém acompanhando o trem primeiro com o corpo, depois com o olhar e finalmente com o pensamento, enquanto permanece existencialmente levado pela partida do outro e experimenta sua própria presença como dividida entre o lugar físico e a distância afetiva.

8. O deslocamento corporal, o acompanhamento visual e o movimento do pensamento pertencem a uma mesma espacialização originária, na qual a despedida reúne separação e ser-levado-com, mostrando que o espaço não antecede simplesmente essas maneiras de percorrê-lo, mas se abre segundo sua dinâmica existencial.

9. A linguagem metafórica é própria da descrição fenomenológica porque apreende a unidade originária da experiência antes das divisões entre motricidade, visão e memória, permitindo compreender o ser-levado-com pela pessoa amada sem reduzir essa configuração a processos independentes reunidos posteriormente por conceitos.

10. A expressão “vento glacial da separação” manifesta determinações existenciais precisas da despedida, nas quais o esfriamento e a mobilidade em um espaço aberto pertencem ao afastamento vivido, independentemente da temperatura corporal e sem constituírem uma combinação linguística meramente ocasional.

11. A experiência de desaparecimento do mundo não pode ser reduzida a uma metáfora empregada para descrever estados internos previamente isolados, pois não há vivência humana desprovida de mundo e a maneira de existir e a fisionomia do mundo constituem uma unidade, cuja transformação se manifesta diretamente nas experiências e nas formulações delirantes.

Sobre a relação entre análise existencial e psicoterapia

1. A análise existencial nasce da investigação dos fundamentos da compreensão psiquiátrica, mas sua proximidade com as maneiras concretas de existir favorece efeitos terapêuticos e contatos antes inacessíveis, ao mesmo tempo que a psicanálise permanece frequentemente indispensável para esclarecer determinações biográficas; orientada existencialmente, ela amplia a interpretação dos símbolos, relaciona os vínculos biográficos às estruturas de presença e procura libertar o paciente para suas possibilidades mais próprias, sem converter sua história em destino inevitável.

O edifício da psiquiatria como ciência

1. A psiquiatria pode ser compreendida como um edifício arquitetônico de campos científicos articulados por diferenças fundamentais da existência humana, em vez de um agregado histórico de métodos concorrentes, permitindo ao profissional orientar-se no conjunto sem atribuir a uma área particular a representação exclusiva do todo.

2. A analítica existencial participa da própria construção científica ao explicitar suas fundações filosóficas, pois a compreensão do adoecimento exige uma compreensão prévia da constituição humana geral, fundamento compartilhado com outras ciências que investigam o ser humano em sua existência e não apenas propriedades ou produtos isolados.

3. A análise existencial ocupa, nessa arquitetura, o plano empírico imediatamente apoiado na analítica filosófica, da qual recebe orientações para investigar formas e estruturas determinadas de presença.

4. A especificidade do campo psiquiátrico em relação às demais ciências humanas torna-se mais definida com a constituição dos domínios da psicopatologia e da biopatologia, que se apoiam sobre aquela investigação da existência.

5. A redução diagnóstica transforma modos unitários de existência em sintomas e o semelhante em um caso clínico, permitindo, por exemplo, decompor a presença maníaca em necessidade de atividade, fuga de ideias e humor exaltado, mas tornando estéreis as tentativas posteriores de derivar causalmente esses sintomas uns dos outros quando se perdeu de vista sua unidade originária.

6. A redução diagnóstica estabelece a passagem entre análise existencial e psicopatologia sem eliminar a necessidade de manter aberto o retorno aos fenômenos e a comunicação com a investigação biológica.

7. O diagnóstico médico pressupõe uma referência ao organismo e à integridade de seus atos e funções, interpretando as manifestações clínicas como expressões de alterações funcionais ou processos biopatológicos, como ocorre na compreensão da mania e do delírio de perseguição.

8. A psicopatologia mantém, por isso, uma relação necessária com biologia, hereditariedade, anatomia, fisiologia, farmacologia e neurologia, embora cada domínio conserve autonomia temática e metodológica e deva permanecer acessível aos demais e ao fundamento comum da investigação.

9. A inseparabilidade entre psíquico e somático pode ser compreendida por analogia com a relação entre esquerda e direita, que só adquirem sentido em um espaço orientado comum, pois alma e corpo pertencem à unidade da constituição humana e o corpo vivido (Leib) não se confunde com um objeto corporal isolado (Körper).

10. A psicopatologia também se fundamenta na ideia de experiência comum, em relação à qual determinadas alterações são qualificadas como patológicas quando ameaçam a continuidade do indivíduo, incluindo não apenas sua integridade orgânica, mas também suas possibilidades de participação social.

11. A articulação entre experiência comum, organismo e patologia esclarece a necessidade de manter aberto o movimento entre as fundações existenciais da psiquiatria e seus campos de investigação especializados.

12. A redução diagnóstica encontra apoio em diferenças pertencentes à própria constituição da existência, pois organismo e psique integram a facticidade de um ser lançado que não estabeleceu seu fundamento e o encontra originariamente nas tonalidades afetivas, nas quais se abre o fato de existir sem que se esclareça imediatamente sua razão.

13. A ciência nasce da pergunta pelo porquê e transforma a facticidade da existência em investigação das condições de surgimento e manutenção de um ente vivo, constituindo campos temáticos específicos cuja legitimidade depende de conservar a referência à compreensão mais ampla do ser humano da qual procedem.

14. A psicoterapia e a somatoterapia devem conservar comunicação recíproca e apoiar-se nos conhecimentos psicopatológicos e biológicos, enquanto a terapêutica psiquiátrica em seu conjunto exige orientação pela compreensão da existência humana, sem que a organização da ciência seja reduzida à finalidade prática de sua aplicação.

15. A relação entre médico e paciente mantém também uma ligação direta com o fundamento existencial, pois a necessidade de ajuda e a disposição de oferecê-la constituem possibilidades específicas do ser-com e do estar-junto.

16. O princípio clínico ocupa a posição integradora da psiquiatria ao coordenar os diferentes campos de investigação segundo suas relações, seus níveis de conhecimento e a tarefa médica concreta, participando desde o fundamento da construção de uma compreensão articulada da patologia e da terapêutica.

17. A clínica deve preservar não apenas a comunicação interna entre suas áreas, mas também a abertura para outras ciências, para as artes e para a própria vida, evitando o fechamento da psiquiatria sobre seus instrumentos particulares.

18. A compreensão da psiquiatria como ciência esclarece simultaneamente o modo de ser do psiquiatra, cuja tarefa consiste em realizar concretamente uma possibilidade humana de conhecimento e cuidado em relação ao paciente que procura tratamento, fazendo da história dessa convivência e de suas exigências recíprocas uma dimensão constitutiva do destino terapêutico.