O segundo sentido do quase designa o fato de que, mesmo quando o conteúdo se ordena em sequência com começo, meio e fim, permanece uma ausência decisiva em comparação com o contar histórias.
No contar histórias, a voz narradora comanda e delineia a totalidade do relato porque conhece o desfecho e a estrutura desde o início.
Mesmo quando a lembrança é repetida e conhecida, não se requer uma voz comandadora distinta da própria lembrança.
As lembranças tendem a articular-se a partir de dentro, como se se narrassem por si mesmas, sem necessidade de fonte separada de enunciação.
A conclusão é que a competência de recordar não pode ser identificada simplesmente com uma habilidade narrativa.
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Esquematismo como abreviação indistinta e variação interna de nitidez no lembrar
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Esquemático designa o caráter abreviado, esboçado ou borrado de uma lembrança, isto é, sua apresentação incompleta e indistinta.
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Nem toda lembrança é esquemática nesse sentido, pois algumas se apresentam com máxima clareza e transparência.
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No extremo oposto, certas lembranças incluem imagens sombrias difíceis de identificar e descrever coerentemente.
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Um mesmo episódio de lembrar pode conter simultaneamente elementos esquemáticos e não esquemáticos.
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Uma mesma memória global pode reunir cenas vividamente lembradas e cenas apenas esboçadas.
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Varia não apenas o grau, mas o tipo de esquematismo em uma mesma sequência.
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A necessidade descritiva passa a incluir o reconhecimento de múltiplos esquematismos coexistentes.
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Ruminescência como tonalidade afetiva específica que combina reminiscência e ruminação
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Ruminescência designa um estado afetivo que pode ser ocasionado pelo lembrar, articulando reminiscência e ruminação em uma mesma disposição.
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O termo visa capturar um fenômeno peculiar que, embora disseminado, foi negligenciado, em parte por sua origem ambígua e por sua frequência em formas tão brandas que quase não se deixam notar.
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A ruminescência abrange um espectro que vai da nostalgia ativa à melancolia morna e indistinta.
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A nostalgia descrita não se reduz a saudade genérica de tempos antigos, pois se constitui por dois suportes heterogêneos que convergem para o mesmo efeito.
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Um primeiro suporte consiste no retorno rápido de reminiscências vagas, cuja indistinção não enfraquece, e pode mesmo reforçar, o poder de comoção por intensificar a qualidade nostálgica.
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Um segundo suporte consiste em um pensamento apenas parcialmente formulado sobre a irreplicabilidade do que é lembrado, pensamento que opera como ruminação discreta, não tematizada explicitamente, mas ainda assim eficaz.
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A ruminação, entendida como mastigação reflexiva implícita, intensifica a ruminescência sem depender de exposição discursiva.
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Prazer específico do lembrar ruminescente e distinção entre conteúdo doloroso e atitude prazerosa
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Há um prazer particular na combinação de reminiscência e ruminação, prazer que deriva mais da atividade do lembrar nesse modo do que do conteúdo lembrado enquanto tal.
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A distância temporal favorece esse prazer, pois eventos mais remotos tendem a facilitar uma motivação prazerosa para recordar.
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A evocação de períodos anteriores da vida, percebidos posteriormente como mistura de inocência e espontaneidade, intensifica a tendência à ruminescência.
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Ainda assim, o ganho afetivo é atribuído prioritariamente à atividade presente de lembrar, e não à plena inteligibilidade dos eventos, que podem permanecer pouco discerníveis.
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Presença discreta de ruminescência e sua variabilidade entre diferentes lembranças
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A primeira lembrança selecionada como exemplo geral pode ser de infância remota, indicando afinidade entre distância temporal e rendimento prazeroso tingido de wistfulness.
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A ruminescência pode estar ausente em muitas lembranças, que se realizam sem coloração emocional delineável.
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A ruminescência é, portanto, traço opcional e variável, presente de modo distinto de caso a caso.
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Mesmo quando sua presença é comovente, ela permanece secundária, ao lado de quase-narratividade e esquematismo, como característica que pode ou não acompanhar uma experiência mnemônica.