Delimitação do sentido de traços e justificativa do agrupamento em pares
Os traços visados designam características de certas formas de lembrar que se encontram sempre de fato presentes ou ao menos potencialmente presentes em numerosas ocasiões.
A generalidade desses traços não significa uniformidade de ocorrência, mas recorrência efetiva ou disponibilidade estrutural em múltiplas experiências mnemônicas.
O agrupamento em pares responde a uma exigência interna do fenômeno, pois certos traços se articulam por alternância, outros por complementaridade, e outros por implicação mútua.
A estrutura em pares pretende captar relações internas entre modos de operar do lembrar, evitando a descrição atomizada de características isoladas.
Busca e exibição como movimentos correlatos e distintos do lembrar
Busca designa um conjunto de procedimentos aliados mobilizados para lembrar melhor ou para lembrar pela primeira vez aquilo que não se mostra de imediato.
A recordação é caracterizada, com Aristóteles, como busca em algo corporal por uma imagem, o que indica que lembrar pode exigir uma operação dirigida e não apenas um aparecimento espontâneo.
A busca mantém correlação estreita com o esquecer, mas não se esgota nele.
O campo do buscado excede o campo do esquecido, pois o lembrar pode visar aspectos tornados marginais, isto é, fora do pensamento atual sem terem sido propriamente apagados.
A busca pode visar conteúdos que jamais receberam atenção especial, de modo que a falha de evocação não coincide com a perda do conteúdo por esquecimento.
A ausência de lembrança é explicada, nesse caso, pela falta originária de tematização e não por deterioração ou supressão do traço memorial.
Quando há esquecimento genuíno, a busca tende a adquirir forma mais concentrada e prolongada, tornando-se mais dependente de inferências.
A inferência aparece como recurso para suprir lacunas, indicando que a busca pode operar por reconstrução indireta quando o acesso imediato falha.
Exibição como efetivação do lembrado e modos de sua ocorrência
Exibição designa a ocorrência de uma memória efetivamente recuperada.
Ela pode surgir ao final de uma busca, no curso dela, ou sem qualquer busca, o que mostra que a memória pode aparecer como resolução, interrupção ou pura irrupção.
Exibições podem emergir espontaneamente, sem solicitação explícita, o que indica que o lembrar não depende sempre de um projeto consciente de evocação.
A espontaneidade da exibição evidencia que a memória se autoatualiza em certas condições, sem que se execute um procedimento de busca previamente delineado.
Busca e exibição podem compor uma mesma experiência mnemônica.
Um episódio pode iniciar-se sem convocação, desencadear busca e terminar pela intervenção inesperada de uma exibição pertinente, mostrando que a dinâmica do lembrar pode ser composta e não linear.
A exibição não é necessariamente visual.
Ela pode ser multissensorial, pode ser não sensorial e pode combinar o sensorial e o não sensorial, o que implica que o modo de doação do lembrado é polimorfo.
O polimorfismo das exibições exige exame ulterior, pois a memória não se restringe a um único canal de apresentação.
A variedade de modalidades mostra que reduzir a memória ao modelo imagético empobrece a descrição do fenômeno.
Encapsulamento e expansão como traços complementares e não meramente alternativos
Diferentemente de busca e exibição, que tendem a suceder-se como alternativas, encapsulamento e expansão tendem a corresponder-se e a ajustar-se reciprocamente.
Um traço contrativo e um traço distensivo coexistem, configurando o lembrar como simultaneamente condensador e proliferante.
Encapsulamento como poder contrativo do lembrar e suas formas principais
Encapsulamento intrasscênico ocorre quando uma cena lembrada contém outra como parte de seu próprio conteúdo, de modo que uma memória se apresenta como pertencente à memória de outra.
Esse emboîtement é descrito como relativamente raro e dependente de meios auto-representativos capazes de inserir versões de si mesmos, como o filme.
Encapsulamento por amontoamento amorfo reúne experiências anteriores semelhantes sob forma implícita ou fragmentária.
O lembrar inclui, nesse caso, uma sedimentação de experiências afins que se apresentam como massa pouco diferenciada ou como fragmentos parciais.
Encapsulamento emblemático ocorre quando uma lembrança singular funciona como fiadora de uma série de outras lembranças menos definidas.
Um único conteúdo exibido condensa e garante virtualmente um conjunto de memórias não recuperadas, mas em princípio recuperáveis.
Encapsulamento por relembrar consiste em lembrar o próprio lembrar, de modo que uma memória se torna objeto de nova memória.
Essa reiterabilidade pode prolongar-se em séries sucessivas, nas quais lembrar inclui lembrar que se lembrou, produzindo uma auto-inclusão progressiva.
A auto-inclusão reiterável é descrita como o encapsulamento mais abrangente do lembrar.
A memória adquire aqui caráter estritamente autoencerrado, pouco realizável com igual facilidade em outros atos mentais.
Expansão como poder distensivo do lembrar e seus modos característicos
Expansão por ramificação ocorre quando uma lembrança conduz a outras lembranças, formando cadeias de evocação.
As lembranças subsequentes podem manter continuidade de conteúdo ou formato, mas também podem surgir desconectadas, especialmente em estados de devaneio.
A cadeia resultante amplia significativamente o lembrar inicial, convertendo-o em ponto de partida de uma sequência.
Expansão por dilatação interna ocorre quando uma lembrança se preenche por dentro, tornando-se mais completa sem adição externa de novas lembranças.
Essa dilatação frequentemente resulta de busca, pois buscar implica procurar completude e, assim, promover expansão.
A expansão pode servir aos interesses do encapsulamento.
Uma lembrança tornada mais clara pode passar a representar melhor outras lembranças, de modo que o distender favorece a condensação representativa.
Expansão por potencial multimodal ocorre quando a lembrança acrescenta ao episódio rememorado traços sensoriais que não foram notados explicitamente na experiência original.
O lembrar amplia o conteúdo vivido ao reinscrevê-lo com riqueza sensível que excede a atenção originária.
Expansão temporal consiste em prolongar a meia-vida psíquica de uma experiência ao lembrá-la e descrevê-la.
Sob o aspecto de sobrevivência ou revivescência, a memória exerce função expansiva ao estender a presença do vivido para além de seu término imediato.
Persistência e passadidade como dimensões genéricas que exigem determinação própria
Persistência e passadidade estavam implicitamente implicadas na discussão anterior, mas requerem explicitação autônoma.
Falar de expansão temporal já implica que algo do passado se alonga no presente, e falar de encapsulamento já implica que algo do vivido persiste em forma abreviada.
Persistência como prolongamento do passado no presente e suas variações
Persistência designa a prolongação do passado no presente, de modo que o vivido anterior permanece acessível e atuante na experiência atual.
A persistência se manifesta de forma mais direta na memória primária, cuja função conservadora consiste em manter no presente um episódio recém decorrido.
Persistência pode derivar de aprendizagem por repetição e operar quase automaticamente.
Um conteúdo memorizado por encontros rotineiros persiste como informação prontamente recuperável, cuja origem e funcionamento são habituais.
Persistência pode também ser imprevisível e esporádica.
Um conteúdo não pensado por muitos anos pode persistir na forma mínima de poder reaparecer uma única vez, como extração ocasional do esquecimento profundo.
Persistência pode consistir em tendência a ser lembrado em ocasiões recorrentes, frequentemente associadas ao retorno a um lugar.
O lugar funciona como elemento lembrante e a recordação desencadeada por ele se torna veículo da persistência.
Passadidade como proveniência temporal do lembrado e condição de lembrabilidade
Passadidade nomeia a qualidade do lembrado pela qual ele se reconhece como originado em um tempo anterior ao presente.
Sem essa proveniência, não haveria lembrança, pois o presente enquanto presente vivo e o futuro enquanto futuro ainda por vir não são lembráveis como tais.
O tornarse passado pode ocorrer em graus.
Uma experiência ainda em curso pode adquirir passadidade suficiente quando se afasta do foco central da sensação presente e se torna recapturável como tendo acabado de ser.
Passadidade inclui a dimensão de completude, término ou acabamento.
O lembrado se apresenta como concluído, expirado ou em via de expirar, variando do inteiramente terminado ao ainda latejante.
A completude extrema de uma experiência pode traduzir-se em incompletude memorial.
A distância temporal pode tornar a lembrança lacunosa e enevoada, sugerindo que o acabamento do vivido não garante riqueza do recordar.
Persistência e passadidade implicam-se mutuamente.
Apenas o que é passado pode persistir através do tempo interveniente e ser reavivado no presente, e apenas o que persiste se torna efetivamente lembrável.
Atualidade e virtualidade como dupla determinação do conteúdo lembrado
A passagem da passadidade à atualidade ocorre porque o passado é compreendido como domínio de atualidades, isto é, de acontecimentos que efetivamente foram o caso.
Lembrar refere-se ao que ocorreu de fato, ainda que algumas dessas ocorrências permaneçam sobreviventes no presente.
Atualidades lembradas podem ser objetivamente registráveis ou não.
Certos elementos podem ser observáveis e documentáveis externamente, enquanto outros consistem em pensamentos e sentimentos não apresentados publicamente.
Mesmo quando não públicos, tais elementos mantêm estatuto de eventos e, por isso, de atualidades.
A atualidade inclui databilidade, ainda que em graus distintos.
Um sentimento pode ser tão datável quanto uma posição corporal no mesmo episódio, indicando que a temporalidade partilhada sustenta a igualdade de estatuto eventivo.
A atualidade inclui a finishedness, isto é, um grau mínimo de acabamento coerente que torna o lembrado identificável como memória de algo determinado.
A coerência varia por contexto, pois um conteúdo pode ser adequado como memória em um contexto e incoerente em outro, o que colocaria em questão seu estatuto memorial.
A unidade do lembrado é descrita como condição de atualidade.
O lembrado deve manter um sentido de coesão interna como experiência ou conjunto de experiências, constituindo uma ou várias atualidades que se sustentam como tais.
A atualidade envolve ainda a presença do lembrante na ocorrência original.
O lembrado exige que o sujeito tenha estado presente em primeira pessoa no acontecimento, pois apenas nessa presença a atualidade é experimentável e, portanto, lembrável.
Datar um fato no passado é insuficiente; é necessário situá-lo no próprio passado do lembrante como algo diretamente vivido.
Virtualidade como prontidão de reativação e horizonte de mais-lembrabilidade
Virtualidade designa a prontidão de experiências passadas para serem reativadas.
Trata-se de um estar-em-reserva, um manter-se-pronto que corresponde, em linguagem descritiva, à convicção de que mais poderia ser lembrado do que aquilo que está sendo lembrado agora.
O horizonte virtual pode acompanhar tanto a lembrança global quanto cada incidente particular dentro dela.
Mesmo quando nenhum detalhe adicional é efetivamente recuperável, permanece a sensação de que uma incitação adequada poderia destrancar lembranças suplementares.
Virtualidade manifesta-se concretamente como incoesão e indefinição.
A falta de definição pode habitar o fundo do cenário, mas também o primeiro plano e a própria temporalidade do lembrado.
A indefinição pode situar-se entre episódios, dentro de episódios ou na forma geral de uma lembrança enevoada.
A indefinição não é apenas correlato abstrato da seletividade atencional.
Ela é um modo concreto pelo qual a virtualidade se insinua no lembrar, marcando zonas que solicitam exploração por se apresentarem como virtualmente ali.
A virtualidade contribui tanto para a pervasividade quanto para a evanescência da memória.
A sensação de que toda experiência presente está impregnada de memória é atribuída ao caráter virtual que permeia a percepção e o pensamento.
A rápida retirada de muitas lembranças é entendida como retorno a uma indefinição maior, isto é, a um estado de não lembrança.
O estado de não lembrança pode ser caracterizado positivamente como prontidão retida.
A perda aparente não se reduz a negatividade de um desaparecimento, mas pode ser descrita como permanência em reserva, fundamento da possibilidade de reativação.