CASEY, Edward S. Remembering: a phenomenological study. Second edition ed. Bloomington: Indiana University Press, 2010.
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Finitização da memória no tratado aristotélico e seu significado histórico
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A abordagem da memória em De Memoria et Reminiscentia submete o lembrar a uma finitude estrutural que marca decisivamente o destino posterior do conceito.
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A memória deixa de ser concebida como potência cósmica ou fonte de saber originário e passa a ser integrada a uma psicologia das faculdades finitas.
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Emergência da tradição passivista a partir do viés aristotélico
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A primeira consequência da finitização aristotélica é o surgimento de uma tradição passivista da memória.
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A memória é concebida como receptáculo de traços que resultam da ação dos objetos sobre o sujeito.
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O passivismo permanece dominante ao longo da história.
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Ele assume tanto a forma de empirismo ingênuo quanto de modelos sofisticados de processamento de informação.
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Essa perspectiva converte-se na visão oficial e respeitável da memória, isto é, na interpretação legitimada institucionalmente.
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Surgimento concomitante da tradição ativista da memória
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Como reação ao predomínio passivista, desenvolve-se uma tradição alternativa de caráter ativista.
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O lembrar não é entendido como duplicação interna do passado, mas como reconfiguração ativa.
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Vestígios desse ativismo já se encontram em
Platão e
Aristóteles.
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A persistência dessa ideia manifesta-se em noções modernas como ensaio e recuperação.
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Desenvolvimento pleno de modelos ativistas na modernidade recente
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Apenas em tempos recentes surgem modelos ativistas plenamente articulados.
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A memória passa a ser descrita como processo narrativo, interpretativo ou reconstrutivo.
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A reconstrução da memória por esquemas evidencia sua plasticidade.
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A adaptação e assimilação contínuas da experiência mostram que lembrar reflete mudanças estruturais do sujeito.
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Independência histórica entre passivismo e ativismo
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As duas tradições coexistem ao longo dos séculos sem convergência efetiva.
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Raramente ocorre uma tentativa consistente de articulação entre ambas.
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Exceções notáveis: alianças criativas entre passivismo e ativismo
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Em alguns casos excepcionais, observa-se uma combinação produtiva das duas perspectivas.
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Platão e
Freud figuram como exemplos paradigmáticos dessa convergência.
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Ambos recorrem a metáforas de impressão para descrever a memória.
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Simultaneamente, ambos adotam concepções ativas do lembrar.
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Nessas concepções híbridas, a memória é ao mesmo tempo inscrita e trabalhada.
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Polarização residual entre os extremos de passivismo e ativismo
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Fora dessas sínteses pontuais, a história do pensamento mantém-se polarizada.
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De um lado, figuras que reduzem a memória à cópia.
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De outro, teorias que enfatizam sua reconstrução ativa.
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Entre esses extremos, a dimensão transformadora da memória tende a ser reprimida.
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Tentativas históricas de reabilitação da memória transformadora
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Houve esforços para restaurar a dignidade da memória, sobretudo na Idade Média e no Renascimento.
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Nessas tradições, a memória conservava um vínculo com o saber sapiencial.
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O declínio dessas tradições culmina no século XVII.
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Pragmatização da mnemotécnica no século XVIII
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O renascimento não hermético da mnemotécnica no século XVIII reduz seu alcance.
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A ênfase desloca-se para a memorização de grandes quantidades de dados factuais.
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Técnicas antigas persistem, mas desprovidas de seu horizonte originário.
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A memória é avaliada por critérios quantitativos.
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Antecipação do modelo computacional da memória
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A redução pragmática da memória antecipa a concepção da mente como máquina de cálculo.
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Leibniz ocupa posição decisiva nesse processo.
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A tensão entre esses dois polos anuncia a transformação posterior da memória em função computável.
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Matematização da memória no contexto da ciência moderna
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A matematização da natureza conduz progressivamente à matematização da memória.
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Esse processo prepara o terreno para modelos computacionais contemporâneos.
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Desqualificação filosófica da memória na modernidade clássica
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A memória sofre desvalorização explícita em filósofos centrais da modernidade.
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A dúvida metodológica atinge a memória de modo privilegiado.
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Mesmo quando a dúvida é superada, a memória não é reabilitada.
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Redução racionalista da memória a associações corporais
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A memória é definida como associação de ideias conforme modificações do corpo.
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O lembrar é rebaixado a efeito colateral de processos fisiológicos.
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Consolidação empirista da memória como cópia
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A função da memória é reduzida à preservação da ordem e posição das ideias.
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A fidelidade da lembrança depende de sua semelhança estrutural com o ocorrido.
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A memória é convertida em máquina de replicação.
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Persistência do passivismo na tradição associacionista
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O associacionismo prolonga e reforça o modelo da memória como cópia.
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A memória permanece confinada a relações mecânicas entre ideias.
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Silenciamento do conceito de memória na filosofia crítica
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A memória é absorvida pela imaginação reprodutiva.
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O lembrar é tratado como função empírica subordinada.
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O apagamento do termo memória sinaliza um gesto defensivo.
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Nesse ponto extremo, a memória sofre um rebaixamento radical.