A metafísica, compreendida como o ato de transcender do ente ao ser do ente, opera uma diferenciação que permanece impensada em sua própria origem, pois a distinção metafísica entre essência e existência apenas deixa transparecer de modo inadequado a diferença ontológica, diferença esta que não se acrescenta posteriormente ao si, mas da qual o si é, em seu próprio ser, o portador e o depositário.
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A diferença ontológica não se apresenta como estrutura abstrata exterior ao existente humano, mas como aquilo que só pode efetivar-se enquanto compreendida, de tal modo que apenas o si, enquanto compreensão de ser, pode sustentá-la, fazendo com que a metafísica, em qualquer de suas formas, tenha seu fundamento último na estrutura do si.
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Interrogar o fundo no qual o si desdobra essa essência significa, portanto, não investigar um substrato psicológico ou antropológico, mas reconduzir a transcendência do si àquilo que a torna possível enquanto transcendência, inaugurando o movimento regressivo que caracteriza o salto do si em direção ao seu próprio fundo.
A transcendência, enquanto estrutura essencial do si, não é um simples comportamento entre outros, nem uma capacidade escolhida ou assumida livremente, mas uma disposição originária que se impõe ao si e o excede, fazendo com que a própria atividade metafísica apareça como disposição natural do si, anterior a qualquer decisão reflexiva.
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A transcendência do si é ela mesma transcendida, não no sentido antropológico de um projeto autônomo que se ultrapassa, mas no sentido ontológico de um ser lançado em uma dimensão que o condiciona radicalmente, de tal modo que o si só pode transcender porque já se encontra entregue ao ser como sua condição de possibilidade.
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O fundo no qual a transcendência do si se enraíza não é um fundamento positivo, mas um fundo abissal, um fundo-sem-fundo, no qual o si, enquanto liberdade, encontra simultaneamente sua possibilidade e sua despossessão, sendo esse fundo a verdade mesma do si.
A entrada na Kehre consiste precisamente em deslocar o olhar do si tomado como centro para aquilo que, no si, o ultrapassa e o condiciona, substituindo a primazia da estrutura existencial pela primazia do ser que a torna possível, e reconhecendo que a analítica do si já aponta, desde o início, para além de si mesma.
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O plano a partir do qual se pensa o si e o ente não é produzido pelo si, mas é o próprio ser, entendido como aquilo que ilumina e dá a pensar, de tal modo que não há um plano no qual haja primeiramente homens para depois haver ser, mas apenas um plano no qual há primeiramente ser, e no qual algo como homem pode aparecer.
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Pensar a partir desse plano implica reconhecer que o ser e o plano coincidem, pois o ser não é um objeto do pensamento, mas o próprio ato de manifestar-se, e estar no ser significa simplesmente poder ver, isto é, participar da abertura na qual algo pode aparecer.
O si pertence transcendentalmente ao ser, e essa pertença não é posterior nem derivada, mas constitutiva, pois o si só pode determinar-se a si mesmo, colocar-se em perspectiva e assumir-se como compreensão de ser porque já se encontra situado em um ponto de vista que não é ele próprio, mas que o envia a si mesmo.
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A possibilidade de o si sair de si, colocar-se à distância de si mesmo e elaborar um discurso sobre si não se funda em uma faculdade reflexiva autônoma, mas no fato de que o si é dominado por um elemento que não é um ente e que, precisamente por isso, o abre à possibilidade de se relacionar consigo mesmo.
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A transcendência que o si recebe de sua proximidade com o transcendens puro é transcendental, pois funda toda projeção, toda fenomenalização e toda possibilidade de aparecimento do ente, fazendo com que o si só seja o si que é enquanto excede a si mesmo.
O excesso do si sobre si não deve ser compreendido como acréscimo ou superabundância, mas como não-coincidência originária, pois o si não é primeiramente um si para depois se abrir ao que o excede, mas só é si na medida em que permanece aberto ao que o ultrapassa e lhe concede ser.
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Ser em excesso sobre si significa não retirar o próprio ser de si mesmo, mas recebê-lo de uma verdade mais originária que determina tanto o ser quanto o modo de ser do si, fazendo com que a essência do si consista precisamente em não ser plenamente idêntico a si.
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O si define-se, assim, não como substância nem como sujeito, mas como dependência essencial de um fundo que o domina, fundo que o arranca de qualquer auto-posição e o mantém em uma abertura jamais fechável.
A ipseidade não coincide com o si empírico ou psicológico, mas enraíza-se em um elemento que possibilita a própria eclosão do si, não apenas fornecendo-lhe articulação, mas concedendo-lhe a possibilidade mesma de ser, de tal modo que o ser-si não constitui o fundamento da existência, mas é por ela sustentado.
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O fundo ao qual o si se refere não funciona como simples mediação cognitiva entre o si e si mesmo, pois não há termos previamente dados entre os quais o fundo interviria, mas é o próprio fundo que possibilita os termos e os mantém em sua relação.
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Sendo o si essencialmente abertura, sua essência não reside em si mesmo, mas naquilo que o abre, fazendo com que o si jamais se feche sobre si, jamais seja autossuficiente, e experimente sua autonomia apenas sob a forma da lei e do ser-jogado.
O ser mantém o si em abertura ao permanecer ele próprio em uma opacidade abissal que provoca o movimento do pensar e impede qualquer fechamento, de tal modo que o si só pode articular sua dinâmica existencial porque permanece exposto a uma dimensão que não se deixa reduzir a objeto nem a fundamento disponível.
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O ser não é apenas ratio cognoscendi ou ratio agendi, mas ratio essendi, pois não apenas permite ao si compreender-se e agir, mas concede-lhe o próprio ser, sendo essa determinação frequentemente esquecida por uma filosofia que se toma a si mesma como princípio.
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Pensar adequadamente a estrutura do si exige, portanto, restituir a prepotência dessa essência originária, recusando toda tentativa de submeter a verdade do ser às necessidades do si e assumindo, ao contrário, uma disposição de serviço em relação à verdade.
A fidelidade à estrutura do si exige reconhecer o primado do fundo essencial sobre o si, pois deter-se exclusivamente no si equivale a desnaturar, pelo próprio método da investigação, aquilo que se busca compreender, a saber, a essência do si como ser-aberto.
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Pensar a estrutura do si significa pensar a estrutura de origem, e isso só se torna possível quando o pensamento aceita saltar a partir do si para além do si, seguindo o movimento pelo qual o próprio si aponta incessantemente para aquilo que o torna possível.
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Nesse salto, não há oposição entre ruptura e continuidade, pois o salto é a única continuidade possível quando se trata da origem, uma vez que o si, ao transcender em direção ao ser, mostra em si mesmo aquilo que o rege e o ultrapassa.