Esta tradição filosófica, que remonta a
Platão e se torna consciente de seu desejo com
Descartes, é, na leitura heideggeriana, uma vontade de luminosidade.
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Ela pretende reter como verdadeiramente sendo apenas o que é manuseável pelo pensamento racional ou pelo olhar objetal.
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É uma tradição da Vorhandenheit (do ser-à-mão, do ser-diante-dos-olhos), do ser enquanto aparece sob o horizonte da manuseabilidade.
Em
Husserl, o ato objetivante como estrutura da realidade é uma declinação dessa vontade de só considerar o
Vorhanden.
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O sujeito transcendental produz permanentemente o horizonte para a vinda ao olhar de um Vorhanden, único considerado como real.
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Apenas o que a consciência atinge nela mesma, sob suas exigências estruturais, é considerado verdadeiro ou sendo; a parte de sombra de nosso ser não é elevada à sua dimensão doadora.
O “princípio dos princípios” husserliano é um testemunho da filiação à tradição da luta pela luminosidade.
O vínculo de
Husserl com
Descartes se dá no terreno da evidência como fonte de verdade, não no da identificação das teorias do eu.
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Esta parentesco no nível do apego à teoria da evidência repercute, contudo, na teoria do eu.
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A evidência na subjetividade produz um modo de evidência dessa subjetividade, que permanece não pensada em seu fundamento.
Para
Husserl, não se pode remontar aquém da intuição, única doação originária.
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Heidegger responde que uma intuição, mesmo originária, diante de sua própria presença, se confronta com o mistério da presença dessa presença.
O si vive sua presença a si no enigma; toda conquista da presença a si é uma traição do fato de uma não coincidência a si.
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As maneiras de
Husserl são cartesianas, pois inspiradas pela vontade de uma “fundação geral e última apoiada em intuições absolutas”.
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A presença a si, característica de ser da consciência, é determinada pela subjetividade, mas a subjetividade mesma não é posta em questão quanto ao seu ser.
A filiação a
Descartes, com base na evidência da presença, repercute na compreensão que o si tem de si mesmo.
O problema de
Husserl, como o de
Descartes, é o do fundamento das ciências.
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O “giro transcendental” de
Husserl o aproxima de
Kant, fazendo da fenomenologia “uma problemática da teoria da experiência”.
Husserl se considera herdeiro da tradição que vai de
Descartes ao início do cumprimento kantiano.
Neste sentido heideggeriano, a fenomenologia de
Husserl é um idealismo, no sentido etimológico (
idein, ver), ou um “ideísmo”.
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O idealismo vulgarmente atribuído a
Husserl recobre um idealismo mais profundo: o reinado do ver.
Heidegger vincula
Husserl à tradição cartesiana e ao ideal científico da filosofia moderna.
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Não se deve aproximar excessivamente
Husserl e
Nietzsche, sob risco de perder os dois projetos fundamentais.
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Husserl visa o fundamento das ciências e a certeza;
Nietzsche relativiza noções como certeza e ciência pela prevalência da vontade de poder.
Nietzsche, na leitura heideggeriana, possui um estatuto à parte de lisibilidade metafísica.
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Ele representa uma caricatura da vontade de domínio sobre o visível que a metafísica dissimula desde
Platão.
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Em
Husserl, o projeto metafísico não é tão manifesto devido às épocas das quais se reconhece herdeiro.
Heidegger é claro: o acabamento da metafísica se chama “
Nietzsche”.
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Nietzsche antecipa o acabamento dos Tempos Modernos; está meta
fisicamente depois de
Husserl, embora cronologicamente antes.
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Nietzsche é a figura extrema, concentrada, que anuncia e sustenta um acabamento que
Husserl não realiza.
A fenomenologia de
Husserl se dissocia claramente do projeto nietzscheano.
Do ponto de vista heideggeriano, a fenomenologia se vincula ao idealismo cartesiano e ao ideal científico moderno.
O conceito de vontade de poder em
Nietzsche é mais violento que as consequências sistemáticas da fenomenologia transcendental.
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Com
Nietzsche, trata-se de infinitas “colocações em luzes”, perspectivas baseadas no domínio de um caos aceito, algo ausente em
Husserl.
O problema fundamental da fenomenologia de
Husserl, para Heidegger, é não ter visto o que nela mesma se descobria.
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Husserl é prisioneiro de uma tradição científica e metafisicamente conotada, que tanto possibilita sua ruptura quanto o retém.
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Nietzsche, ao contrário, recusa violentamente essa tradição, denunciando sua ausência de valor, mesmo que a reconduza de modo mais radical.
Nietzsche está, portanto, mais “adiantado” que
Husserl na escala do cumprimento do impensado no coração da metafísica: o esquecimento do ser.
É rigorosamente impossível superpor a intuição originária de
Husserl e o “grande sim” de Zaratustra.
Husserl, contudo, possui um aporte decisivo: abre um caminho para o fundo da idealidade na intuição categorial.
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Ele funda racionalmente a idealidade, enquanto
Nietzsche impõe, a partir do preconceito ser/devir, o absurdo do domínio do não-dado.
Para
Husserl, o absoluto é o imediatamente presente à consciência; o misterioso é rejeitado no transcendente.
Husserl suspende dogmaticamente o olhar para o que não é dado na evidência.
A redução é, em última instância, uma redução ao humano ou ao humanamente visível; evita o mergulho no enigma da presença.
Ao contrário de
Nietzsche,
Husserl opera a ruptura da intuição categorial, que faz aparecer a necessidade da relação inalienável entre ser e ipseidade.
Husserl, apesar de prisioneiro de uma tradição paralisante, dá fôlego ao questionamento filosófico, interrogando a fenomenalidade do fenômeno.
Husserl permanece uma figura ambígua: abre e fecha, avança e recua simultaneamente; abre uma possibilidade.
Heidegger usa a fenomenologia como caminho de retorno ao ser como horizonte que descobre o fenômeno, e de retorno ao si mesmo como aquele que vive em relação a esse ser.
O método redutivo sofre uma transformação em Heidegger: torna-se a recondução do olhar da apreensão do ente à compreensão do ser desse ente.
O movimento da fenomenologia heideggeriana consiste em retornar a fenomenologia contra si mesma a partir de seus próprios resultados.
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Não se trata de uma redução suplementar, mas da mesma redução a um nível superior: o dos vividos mesmos, para fazer ressaltar a nudez do primeiro olhar, o olhar para o ser.
A redução heideggeriana visa mais longe: o princípio de sua própria possibilidade, o ser que permite todo recuo reflexivo.
Heidegger não visa os
Sachen (os vividos) da fenomenologia husserliana, mas a
Sache mesma: o ser dos vividos, a proveniência misteriosa de onde surgem.
A região constituinte descoberta pela redução husserliana (a consciência) é um ponto de parada prematuro.
Heidegger, longe de abandonar a redução, reduz no interior do resíduo obtido (a consciência pura) todo olhar dirigido ao constituído.
O olhar obtido pela redução husserliana é um olhar para os vividos, portanto, um olhar ele mesmo reduzido ou diminuído.
É preciso voltar à fonte mesma do olhar, ver o ser como condicionante que abre ao si toda compreensão.
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Colocar a questão da possibilidade do ter-visto é impossível para
Husserl, prisioneiro da concepção de que o olhar basta.
Heidegger não pode se contentar com uma método que não vai até o fim de si mesma.
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O termo radical, que é também começo radical, é a abertura do si ao ser.
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A fenomenologia, corretamente compreendida, é o conceito mesmo de método.