Abertura do problema da metafísica da subjetividade como aplicação da subjetidade ao homem
A metafísica da subjetividade é determinada como o momento histórico em que a estrutura da subjetidade, inicialmente independente do homem, é aplicada ao próprio homem, fazendo com que toda relação com o ente passe a ser mediada pelo moi.
O homem, ao procurar seu lugar exclusivamente em si mesmo, perde sua inserção originária no mundo e passa a dispor o mundo ao redor de si segundo a representação que dele toma.
O mundo deixa de ser o âmbito no qual o homem encontra sua medida e torna-se o correlato de uma disposição subjetiva que o ordena e o assegura.
Essa inversão marca a ruptura decisiva com a experiência grega do homem como pertencente ao aberto do ente.
Emergência do ego cogito como subjectum eminente
Com Descartes, o homem enquanto ego cogito torna-se o hypokeimenon eminente, isto é, o subjectum no sentido metafísico medieval de fundamentum inconcussum.
O sujeito é instituído como o ente mais certo, aquele a partir do qual toda verdade deve doravante ser medida.
A natureza aparece apenas como objeto para o sujeito, perdendo qualquer autonomia ontológica.
O ente só vale enquanto aquilo que pode ser assegurado na representação subjetiva.
Instauração do mundo como imagem e do ente como objeto representado
O mundo passa a ser compreendido como Bild, imagem fixada pela representação.
O ente não se dá mais na simplicidade de sua presença, mas apenas enquanto re-presentado diante do sujeito.
A verdade do ente desloca-se para o interior da subjetividade, que se torna o lugar exclusivo da validação do real.
O ente converte-se em ferramenta para a consciência, em algo manipulável e utilizável.
Centralidade da certitudo como critério supremo da verdade
A época moderna se caracteriza pela instalação do dúvida e pela necessidade de um fundamento absolutamente seguro.
A certitudo deixa de se apoiar no ente exterior e fixa-se na consciência de si do eu particular.
O ego cogito ergo sum fornece o primeiro ente absolutamente assegurado em seu ser.
A partir desse ente certo, tudo o mais será medido quanto ao seu grau de verdade e realidade.
Redução do si ao eu segundo a estrutura do subjectum
O soi passa a compreender-se exclusivamente como moi, isto é, como uma esfera de representação fechada sobre si.
Esse eu se concebe como uma coisa entre coisas, afetada pelo exterior apenas segundo relações mecânicas.
A abertura originária do soi ao mundo é encoberta por uma auto-relação representacional.
A estrutura do subjectum comanda integralmente a autocompreensão do homem.
Seção a) O domínio da certeza e a res cogitans como fundamento do saber
Constituição do domínio da certeza como espaço próprio do eu
O eu evolui num domínio no qual só encontra evidências, desde que aceite mover-se exclusivamente em si mesmo.
Esse domínio é exemplificado pelas essências matemáticas claras e distintas, que oferecem total visibilidade e disponibilidade.
A matemática fornece o modelo de um ente plenamente apreensível, passível de tomada e de domínio.
O saber se orienta prioritariamente para aquilo que pode ser assegurado sem resto.
Não pensamento do princípio no cogito cartesiano
Embora o cogito seja instituído como primeiro princípio da filosofia, ele não é interrogado em sua essência.
A relação possível do sujeito com o ser permanece inteiramente não tematizada.
O sentido do sum no cogito sum não é questionado quanto à sua proveniência ontológica.
O princípio funciona como fundamento operativo, mas permanece conceitualmente impensado.
Determinação da res cogitans como coisa pensante
O sujeito é definido como res cogitans, isto é, como uma coisa cujo atributo essencial é o pensar.
Essa determinação submete a consciência à maneira de ser da coisa, ainda que dotada de atividade representacional.
O pensar não abre o sujeito ao que o abriu desde sempre, mas serve à expansão de sua dominação.
A estrutura de coisa torna-se o modelo oculto da subjetividade.
Exclusão da dimensão onto-ekstática do sujeito
A estrutura negativa-intencional do soi não é percebida.
As múltiplas faculdades do sujeito são tomadas como dados positivos, sem interrogação ontológica.
A possibilidade de uma analítica do espírito orientada pela questão do ser é negligenciada.
A subjetividade se consolida como evidência não questionada.
Consolidação da representação como modo exclusivo de acesso ao ente
Todo objeto é objeto apenas para um sujeito e em referência a ele.
O sujeito, por sua vez, não é jamais interrogado como objeto de si mesmo.
A intencionalidade própria do sujeito é ignorada em favor de uma relação de domínio.
O ente só é verdadeiro enquanto conforme às exigências de certeza do sujeito.
Fixação do eu como fundamentum inconcussum
O eu é instituído como o ente mais verdadeiro, aquele cuja indubitabilidade resiste a toda hipótese cética.
A verdade se mede pela evidência com que o ente se apresenta ao sujeito.
O lugar da clareza é o ego, de onde emana o campo da verdade possível.
O ente deixa de encontrar sua verdade em si mesmo e passa a encontrá-la no sujeito.
Preparação do deslocamento para a subjetividade plena
A subjetidade, inicialmente estrutura do ente em geral, passa a identificar-se com o eu consciente de si.
Subjectum e ego tornam-se semanticamente equivalentes.
A subjetividade aparece como modo consumado da subjetidade.
O solo está preparado para a expansão técnica da representação e do domínio do ente.