PEOS
* O não-ente não designa um nada indiferente nem uma simples ausência, mas aquilo que, ao não pertencer à ordem do ente, possibilita que o ente surja como tal, pois o aparecer do ente exige estruturalmente um afastamento, um retraimento que não se apresenta como coisa, mas como condição de possibilidade da delimitação e da determinação.
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O não-ente não se opõe ao ente como seu contrário, mas se distingue dele ao não se deixar reduzir à positividade do que aparece, instaurando o espaço no qual algo pode aparecer como algo, isto é, como ente determinado.
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A manifestação do ente supõe, assim, um fundo que não se impõe como ente concorrente, mas que permanece suficientemente apagado para permitir a emergência de contornos, identidade e singularidade.
* A transcendência do não-ente não deve ser compreendida como acesso a um domínio separado ou a uma região além do ente, mas como o próprio movimento pelo qual o ente é liberado para aparecer, movimento que não se fixa em presença e que acompanha toda fenomenalização.
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O não-ente não é um objeto oculto nem uma realidade negativa, mas o traço pelo qual o ser se mantém distinto do ente, garantindo que o ente não se confunda com o ser e possa, por isso mesmo, aparecer como ente.
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Essa transcendência não se acrescenta posteriormente ao ente, mas o precede estruturalmente, fazendo com que toda presença seja sustentada por um retraimento correlato.
* A proximidade estrutural do si ao não-ente manifesta-se no fato de que o si não apenas encontra entes, mas é constituído por uma abertura que o mantém em relação com aquilo que não é ente, abertura sem a qual não haveria nem mundo, nem possibilidade, nem compreensão.
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O si não se define primariamente como sujeito frente a objetos, mas como lugar de abertura no qual o ente pode aparecer e desaparecer, sendo essa mobilidade impossível sem a presença estrutural do não-ente.
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A relação do si consigo mesmo depende dessa abertura, pois somente um ente que não coincide plenamente consigo pode retornar a si, distanciar-se de si e assumir-se como si.
* A capacidade do si de se colocar em perspectiva, de suspender a imediaticidade do ente e de instaurar distância funda-se nessa proximidade ao não-ente, que impede o fechamento do si sobre si mesmo.
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O si não se compreende a partir de uma identidade substancial, mas a partir de uma não-coincidência originária que o mantém exposto a um horizonte que não é ente.
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Essa não-coincidência não é defeito nem carência, mas a condição mesma da possibilidade do si enquanto si.
* O mundo não se oferece como soma de entes simplesmente presentes, mas como horizonte aberto no qual os entes podem aparecer, remeter uns aos outros e adquirir sentido, horizonte que não é ele próprio um ente.
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Esse horizonte é sustentado pelo não-ente enquanto aquilo que não se deixa tematizar como coisa, mas que mantém aberto o campo da significação.
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A pertença do si ao mundo é, assim, inseparável de sua pertença estrutural ao não-ente.
* A relação com outrem também pressupõe essa proximidade ao não-ente, pois a coexistência não se funda em uma justaposição de sujeitos, mas em um espaço compartilhado que não pertence a nenhum ente em particular.
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O si e o outro só podem encontrar-se porque já se encontram situados em uma abertura que os precede e que não se reduz à presença de nenhum deles.
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Essa abertura comum não é um ente intermediário, mas o próprio campo de transcendência sustentado pelo não-ente.
* A proximidade estrutural do si ao não-ente impede toda redução do si à figura do sujeito metafísico, pois um sujeito entendido como substância positiva não poderia manter-se em relação com aquilo que não é ente.
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O si não é fundamento de si mesmo, mas lugar de passagem da transcendência, lugar no qual o não-ente opera silenciosamente ao possibilitar o aparecer do ente.
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A interioridade do si não é um espaço fechado, mas uma abertura atravessada por aquilo que não se deixa objetivar.
* Pensar adequadamente a estrutura do si exige reconhecer que sua verdade não se deixa apreender a partir da positividade do ente, mas apenas a partir de sua proximidade constitutiva ao não-ente.
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O si mantém-se constantemente em relação com aquilo que se retira, que não se apresenta como coisa, mas que sustenta toda apresentação.
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Essa proximidade ao não-ente não é uma falta a ser superada, mas a condição mesma da transcendência, da abertura ao ser e da possibilidade de compreensão ontológica.