proximidade estrutural do si à transcendência do não-ente (2005:1045)

PEOS

* O não-ente não designa um nada indiferente nem uma simples ausência, mas aquilo que, ao não pertencer à ordem do ente, possibilita que o ente surja como tal, pois o aparecer do ente exige estruturalmente um afastamento, um retraimento que não se apresenta como coisa, mas como condição de possibilidade da delimitação e da determinação.

* A transcendência do não-ente não deve ser compreendida como acesso a um domínio separado ou a uma região além do ente, mas como o próprio movimento pelo qual o ente é liberado para aparecer, movimento que não se fixa em presença e que acompanha toda fenomenalização.

* A proximidade estrutural do si ao não-ente manifesta-se no fato de que o si não apenas encontra entes, mas é constituído por uma abertura que o mantém em relação com aquilo que não é ente, abertura sem a qual não haveria nem mundo, nem possibilidade, nem compreensão.

* A capacidade do si de se colocar em perspectiva, de suspender a imediaticidade do ente e de instaurar distância funda-se nessa proximidade ao não-ente, que impede o fechamento do si sobre si mesmo.

* O mundo não se oferece como soma de entes simplesmente presentes, mas como horizonte aberto no qual os entes podem aparecer, remeter uns aos outros e adquirir sentido, horizonte que não é ele próprio um ente.

* A relação com outrem também pressupõe essa proximidade ao não-ente, pois a coexistência não se funda em uma justaposição de sujeitos, mas em um espaço compartilhado que não pertence a nenhum ente em particular.

* A proximidade estrutural do si ao não-ente impede toda redução do si à figura do sujeito metafísico, pois um sujeito entendido como substância positiva não poderia manter-se em relação com aquilo que não é ente.

* Pensar adequadamente a estrutura do si exige reconhecer que sua verdade não se deixa apreender a partir da positividade do ente, mas apenas a partir de sua proximidade constitutiva ao não-ente.