o si mesmo e o crescente pôr-se à disposição de sua ousia (2005:451)
Oscilação constitutiva do si mesmo entre sophia e phronesis como possibilidades próprias do Dasein humano
O si mesmo aristotélico é pensado a partir de uma oscilação estrutural entre duas possibilidades fundamentais de realização de seu ser-próprio, a sophia e a phronesis, que não se excluem mutuamente, mas exprimem modos distintos de relação do voûs com o ente.
A sophia é explicitamente reconhecida como a possibilidade preeminente, enquanto a phronesis é reconhecida como mais próxima da realidade concreta do si mesmo, isto é, de sua possibilidade efetiva de realização existencial.
Essa dificuldade de decidir pela primazia definitiva de uma ou de outra revela que o si mesmo é pensado desde o início como tensionado entre a universalidade extrema do princípio e a singularidade irrepetível da situação concreta.
Diferença estrutural entre o ver do instante e o ver do sempre
A phronesis é caracterizada como um golpe de vista dirigido ao “esta-vez”, ao caráter singular e contingente da situação concreta, apreendida no Augenblick como fulguração momentânea do sentido.
Esse ver prático é definido como a apreensão do que pode sempre ser de outro modo, isto é, do ente na sua variabilidade essencial e na sua exposição à contingência.
Em contraste, o ver próprio da sophia dirige-se ao que é sempre, ao idêntico a si mesmo, ao que permanece presente na sua mesmidade, independentemente das variações da situação.
A distinção entre essas duas formas de ver não anula sua pertença comum a um mesmo horizonte temporal, no qual o instante e o sempre são modos derivados de uma mesma compreensão do tempo como presença.
Unidade subjacente das duas atitudes na compreensão do tempo como presença
A diferença entre sophia e phronesis não põe em questão o vínculo fundamental entre visibilidade e presença, mas apenas expressa modos diversos de apreensão do tempo enquanto presença constante ou presença instantânea.
Tanto o instante do olhar quanto o sempre do idêntico funcionam como critérios discriminantes de duas modalidades do voûs, sem que o tempo seja pensado fora da estrutura da presentidade.
As duas atitudes permanecem orientadas para um mesmo ideal, o das archai intemporais, que fornecem a estabilidade do ente na sua presença constante.
Centralidade das archai como elemento comum das possibilidades do si mesmo
As archai constituem o elemento comum que unifica sophia e phronesis, na medida em que ambas são modos de acesso ao ente enquanto presença constante.
A sophia mantém um contato direto, ainda que raro e descontínuo, com as archai, enquanto a phronesis busca extrair concretamente sua forma no interior do mundo submetido à contingência.
O mesmo objeto intemporal é visado em ambos os casos, a saber, aquilo que confere ao ente sua estabilidade disponível, sua ousia enquanto parousia.
Determinação do ser específico do Dasein a partir dessas duas possibilidades
Enquanto possibilidades do Dasein, sophia e phronesis não são simples capacidades cognitivas, mas modos de ser que determinam a posição do homem em relação ao ente.
A sophia determina a posição do si mesmo frente ao ente mundano em sentido pleno, isto é, ao ente enquanto tal, enquanto a phronesis determina a posição do si mesmo frente a si próprio enquanto ente singular e concreto.
Ambas constituem, assim, as possibilidades supremas de desvelamento do ente e definem o modo específico de ser do homem no interior do mundo.
Interpretação da presença como posse e ter do mundo
As duas atitudes são regidas por um mesmo sentido de ser, o da parousia, compreendida como ser no ter e enquanto ter do mundo.
Essa compreensão da presença constante revela uma intenção profunda do si mesmo, a saber, a de fixar o desdobramento inapreensível da physis no presente, tornando-o possuível.
O si mesmo busca apropriar-se do que está sob seu poder imediato e evacua a esfera na qual sua capacidade de domínio é impotente, ainda que essa esfera lhe diga respeito de modo essencial.
Pseudo-abandono do princípio e retração ao domínio do familiar
Mesmo quando o si mesmo do sábio parece abandonar-se ao princípio, esse abandono não é um verdadeiro deixar-ser, mas uma retração ao domínio que lhe é mais familiar e menos inquietante.
O princípio é acolhido apenas na medida em que corresponde à estrutura do fora-de-retiro, isto é, à clareza e à visibilidade que reproduzem o si mesmo em sua parte dominável.
O abandono autêntico do si mesmo só ocorreria quando o princípio se impusesse como exigência que não provém do próprio si mesmo, mas essa possibilidade permanece estruturalmente evitada.
Preeminência paradoxal da sophia e seus limites existenciais
Apesar de todas as razões que pareceriam conduzir à primazia da phronesis, Aristóteles atribui a preeminência à sophia, o que gera um paradoxo estrutural.
A sophia é autônoma por visar ao que é eterno e intemporal, mas exatamente por isso não contribui diretamente para a existência concreta do homem.
A phronesis, ao contrário, concerne diretamente à existência humana, mas permanece dependente de uma estrutura de ser que não é originária nem autônoma.
Fundamentação da preeminência da sophia a partir do ente visado
A decisão em favor da sophia é tomada em função da qualidade do ente ao qual ela se dirige, a saber, o ser-permanente.
O ver mais puro é aquele que se mantém diante do ente mais elevado, e é isso que fundamenta a hierarquia das possibilidades do si mesmo.
Não é o conforto do si mesmo que decide a hierarquia, mas a dignidade ontológica do ente visado.
Limite constitutivo da sophia e necessidade da phronesis
A existência humana só é propriamente ela mesma quando permanece, tanto quanto possível, junto ao ente-permanente, mas essa permanência é recusada ao homem mortal.
A necessidade de descanso, distração e finitude impede o exercício contínuo da contemplação pura.
A oscilação aristotélica permanece, pois a sophia é preeminente mas inaplicável, enquanto a phronesis é aplicável, necessária e igualmente eminente em seu gênero.
Função fundante da sophia em relação à phronesis
A sophia é fundamental na medida em que abre o acesso às archai, sem as quais a phronesis não poderia exercer seu desvelamento no mundo.
As archai conferem sentido ao mundo sublunar, e a sophia, ao contemplá-las, fornece à phronesis a medida de sua ação concreta.
Do ponto de vista interno da existência humana, a valorização da phronesis revela o esforço de tornar permanente, ainda que de modo derivado, o contato com o ser-permanente.
Culminação do projeto grego da visão na phronesis
O projeto grego do ver não se consuma na sophia descontínua, mas na phronesis, que assegura a duração de um ver do permanente no interior da vida cotidiana.
A phronesis mantém constante o olhar sobre o permanente, ainda que à distância, garantindo a presença do princípio sob forma ideal.
O homem é assim referido à sua finalidade sem jamais estar nela, e essa impossibilidade de tocar a própria finalidade constitui a possibilidade paradoxal suprema do Dasein grego.
Fixação ideal do princípio e intensificação de sua eficácia prática
A inacessibilidade do princípio não o enfraquece, mas reforça sua eminência ao absolutizá-lo como ideal.
A luz suprema, tornada inacessível, converte-se em princípio dinâmico da vida humana e motiva a atividade constante da phronesis.
O trabalho do si mesmo sobre si mesmo torna-se obrigatório para todos, na medida em que a participação no princípio é pensada como universalmente praticável na ação prudencial.
Orientação final do si mesmo para a disponibilidade do ente no mundo
A consideração da existência humana orienta-se exclusivamente para a questão de saber em que medida o Dasein pode ser em permanência.
Esse sentido de ser como presença absolutamente desdobrada é extraído do próprio ser do mundo.
O espírito da sophia desemboca assim na phronesis, na qual a presença pura deve ser desvelada concretamente no interior do ente cotidiano.