O ser dá-se à escuta como um silêncio, como a pro-núncia de um não-dito (Ungesprochenes). O si-mesmo, sendo a pré-compreensão deste silêncio, fala ao responder-lhe. Na compreensão do ser, o si-mesmo se reporta a um ente, que lhe impõe a questão “o que é?”; o si-mesmo responde nomeando-o, desvelando-o e, nesse ato, desvelando-se inicialmente a si mesmo como um eu-coisa.
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O desvelamento do ente e a relação do si-mesmo com a clareira (Lichtung) não são nada além do próprio ser em ação. O homem só é si-mesmo, só acede à sua ipsidade própria, ao se relacionar com o ser, sendo aquele que, ao abrigar o deixar-ser do ser, desabriga e desvela o ente.
A aparição de um si-mesmo é uma necessidade ontológica. Na “crispação” do si-mesmo sobre si (quando o eu se esquece de seu ser), transparece justamente a exposição ao ser que torna possível tal crispação.
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A finitude do si-mesmo (não uma questão de tamanho, mas de estrutura) é o que permite que a desmedida do Imenso (o ser) apareça. O dom do ser acompanha-se do dom da ipseidade, que mantém o si-mesmo aberto, proíbe o fechamento sobre si e o expõe à desmedida de um espaço pático.
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A ipseidade só existe na medida em que a um ente é dado ouvir o apelo do longínquo (o ser), apelo que o assina a si mesmo como convocado. O apelo constitui o convocado em um “quem”, arrancando-o ao reino da coisa. O Dasein é um domínio de clareira que sempre se expressa em uma pessoa.
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O si-mesmo é uma realidade complexa. A fórmula “eu = eu” só é possível porque o “eu =” está dirigido, não para si, mas para o ser, que permite tal orientação. Toda centralização só é possível na ótica de uma “evaporação transcendental”.
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Esta evaporação é a proximidade do homem ao longínquo do transcendens puro, a proximidade, no próprio ser, ao longínquo do ser: isso é o si-mesmo. O si-mesmo é o ser-desvelado do ser, o ser-aí (Da-sein).
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A temporalidade da ipsidade presentifica, desvela, em relação ao não-ser, ao espaço temporal que abre futuro e passado. Esta temporalidade está inscrita na temporalidade do ser, no ser-temporal, gesto fundamental do ser que desvela um ente no seio da noite.
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O si-mesmo é, ao mesmo tempo, o pastor de um segredo: ele veicula o Desconhecido de que é tecido. O si-mesmo só é si-mesmo uma vez retomado naquilo que torna possível sua superabundância. Ele não pertence a si, é o ser que se desvela e se completa em um ente.
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O ser, ao fazer aparecer seu retiro, gera concomitantemente um si-mesmo para o qual, tratando-se do ser, trata-se necessariamente também de si (de seu próprio ser). O si-mesmo que compreende o ser compreende também seu ser, e constitui-se como si-mesmo nessa compreensão.
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O si-mesmo e a relação com o ser são co-originários. O si-mesmo é o domínio de aparição do ser em sua prepotência, uma prepotência que só pode ser experimentada se houver um ente finito para sofrer, através do isolamento, essa imensidão. O si-mesmo é a fratura pela qual o incomensurável vem à luz no ente.
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O si-mesmo não está sozinho; sua solidão manifesta a presença de uma ausência (o ser) sem a qual nenhuma solidão é possível. O si-mesmo não é um sujeito independente; sua independência deve-se à cumplicidade do ser em seu retiro.
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O si-mesmo está situado no ser, no despertar (Erwachen) que lhe concede ser liberdade do deixar-ser. O ser só pode aparecer na verdade de seu retiro para um si-mesmo que experimentará essa imensidão como o inexplicável que o domina. A imensidão da doação só se experimenta no exílio, e o exílio só é possível para um si-mesmo consciente da pontualidade de seu ser-lançado.