O si mesmo grego, face ao desvelamento, tende a se instalar no humanamente visível, esquecendo progressivamente seu contato originário com o fundo obscuro.
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O si mesmo se situa imediatamente frente ao inquietante, erigindo-se como o mais inquietante. Cessa de olhar para a causa profunda de sua atividade violenta de arrancamento ao velamento.
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A physis é pensada como o que se desdobra por si mesmo, independentemente do si mesmo. O si mesmo, não pensado em continuidade com a desocultação, é suscetível de esquecer o contra originário com o qual se constitui.
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A noção de αλήθεια (aletheia), comumente traduzida por “verdade”, contém mais do que a adequação no interior do desvelado. Significa o não-mais-estar-oculto, o ter-sido-arrancado ao retraimento (λήθη, lethe).
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O comportamento do si mesmo face à desocultação consiste em instalá-la para se instalar a si mesmo na luz. A luta para conquistar essa disponibilidade, para pôr em luz, é ainda consciente no grego originário.
As palavras dos primeiros pensadores são sinais desta consciência do perigo de perder de vista o fundo do qual a physis emerge.
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Anaximandro, Heráclito,
Parmênides tentam manter o pensamento e o si mesmo num vínculo essencial ao seu solo natal.
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No entanto, não pensaram a plena continuidade entre a obscuridade reconhecida como primeira e a luz que, apesar da prepotência do inquietante, aí se encontra.
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O vínculo do ser e do ser-homem que lhe faz face não é tomado em guarda. Não há palavra grega para a co-pertença ek-stática do homem ao ser.
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Esta continuidade impensada abre a porta para a dualidade e para a possibilidade de um dos domínios (a tendência humana à clareza ou a tendência do ser ao retraimento) predominar sobre o outro.
Heráclito, ao indicar a prepotência do retraimento, não pensa o lugar da realidade humana no “jogo” do ser consigo mesmo.
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O fragmento “physis kryptesthai philei” possui uma dupla dimensão: indica a tendência íntima do ser para permanecer em retraimento, mas não pensa a coexistência, no ser-homem, entre retraimento e emergência.
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A abertura (aletheia) é ela mesma um modo de ser do Dasein humano. Aletheuein significa ser-descobridor, arrancar o mundo à sua ocultação.
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A dimensão de retraimento do ser não deve mascarar sua dimensão de partilha com aquele que ele estabelece como seu Da (aí).
O si mesmo grego constrói-se contra a prepotência da ocultação, numa relação belicista.
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O si mesmo não é (ainda) um sujeito cortado do ser, mas é contra o ser no ser. Precisa do inquietante como o oposto ao qual se opõe para definir sua essência.
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Este precário equilíbrio no combate não pode durar, pois o ser e sua violência inquietante tendem a entrar em retraimento.
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Quando o inquietante se retrai, o si mesmo move-se apenas no interior do desvelado, e a relação com a ocultação primeira tende a esvanecer-se.
Com o advento do primado do visível e da luz – ou seja, com o início da metafísica –, o si mesmo perde seu obstáculo originário e entra em declínio.
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O si mesmo precisa, para ser si mesmo, de um obstáculo, de um “não-eu”. Para Heidegger, este obstáculo deve permanecer uma indeterminação abissal, não a figura de um ente.
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Este obstáculo abissal aparece em sua teneur apenas nos primeiros gregos, baseado na intuição da “prepotência do inquietante”.
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Com o retraimento do inquietante, o si mesmo interpreta-se a partir do ente aparecido, esquecendo-se como contato com o ser. A primazia do ente deixa de ser contradita pela maneira como o si mesmo se relaciona consigo.
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Inicia-se assim a “errância metafísica”, o esquecimento progressivo do ser como tal, associado a um crescimento do paradigma da visibilidade.