Heidegger afirma, contudo, no início da conferência “Tempo e Ser”, que o ser não é temporal e que o tempo não é, pois não é um ente, e só o ente é.
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Com o ser e o tempo, não se está mais no registro do ente ou da coisa.
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Está-se no registro do não-ente que faz ser o presente.
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É por isso que não se pode dizer com todo rigor que o tempo é, pois só o ente é.
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Nem se pode dizer que o ser é temporal, pois só uma coisa presente é temporal.
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Ser e tempo se determinam reciprocamente, mas de tal modo que aquele – o ser – não pode ser declarado temporal, não mais que este – o tempo – pode ser declarado ente.
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Como falar então de uma identidade do ser e do tempo?
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Distinguindo os registros: não é como dois entes que o ser e o tempo são idênticos, mas como dois não-entes.
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O ser tomado em si mesmo, isto é, em seu processo de desdobramento e fora de toda consideração de coisa, está impregnado do mesmo gesto de apresentação que o tempo, gesto que não é nada de ente.
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Igualmente, o tempo tomado em si mesmo, isto é, em seu processo de temporalização e fora de toda consideração de agora, está impregnado do mesmo gesto de desdobramento que o ser, gesto que não é nada de ente.
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É esse gesto, o Anwesen, cuja doação inerente deve ser pensada.
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É para que no próprio presente venha a se dar o lassen, isto é, o agir do desdobramento mesmo.
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O ser não é uma coisa; por consequência não é nada de temporal – e no entanto, enquanto ser-em-presença, ele é determinado pelo tempo.
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O tempo não é uma coisa; por consequência não é nada de ente – mas em seu passar, ele permanece constante, sem ser ele mesmo algo de temporal como o ente que está no tempo.
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A identidade do ser e do tempo não tem lugar num nível ôntico, mas no domínio do não-ente desdobrante, no domínio do Anwesen – onde se aloja o lassen.
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É no não-ente que o ser-temporal se desdobra, é como não-ente que ele é desdobrante.
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O ser não tem nada de ente, o tempo não tem nada de temporal.
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O não-ente desdobrante é a terra comum do ser e do tempo.
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Ser e tempo são idênticos no registro da doação nua, isto é, no seio da doação de um mesmo Es gibt.
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Esse Es gibt é o domínio no seio do qual desdobra aquilo que não é no sentido de que não é nada de ente.