O pensamento de Heidegger descobre e remonta dois retiros na manifestação da presença.
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Primeiro retiro: a fixação da presença em permanência, ou do ser no ente presente.
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Segundo retiro: a ocultação inerente à própria presença, que se vela em favor da zona de clareira ou de presença que declausura o presente.
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Esse segundo retiro é o da própria presença, que em si mesma é puro velamento.
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O próprio da presença é sair a todo momento da ausência e ser por essência a ela ligada.
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Essa ausência não é nada e é assim consubstancial à presença enquanto tal.
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A presença é em si mesma a zona não-ôntica e velada em quem todo espaço de clareza se abre para abrir por sua vez o ente presente.
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Apesar de sua obscuridade nativa, a presença deve ser pensada como o coração impensado mas de modo algum impensável de toda presença.
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Ela é a água subterrânea que permite à fonte jorrar.
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Reconhecem-se aqui os três níveis da vinda em presença: a água subterrânea que dá a fonte, que ela mesma faz jorrar algo.
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O pensamento metafísico acede ao primeiro registro de velamento, sabendo detectar a maneira como o ente vela o essencial que o torna possível.
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Mas esse essencial, apreendido a justo título como a zona luminosa onde a coisa aparece, apreendido como ideia, não é interrogado no mistério de sua própria presença.
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Para um pensamento meditante, a presença aparece ela mesma como se redobrando em seu próprio seio do mistério de sua própria presença.
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Isto é, do mistério de seu “il y a”.
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A metafísica pode aceder ao pensamento de uma primeira forma de doação.
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Ela não chega, porém, à meditação da doação dessa doação e à tomada a cargo do enigma segundo o qual há o “il y a” da doação.
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Na presença apreendida como zona velada de clareira e de pura claridade, perde-se o vínculo com a ausência.
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Pensa-se no pensamento platônico, que evolui ainda no limite de um não-ôntico no qual não se deixa penetrar.
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Ele descobre bem a zona de clareira primeiramente dissimulada ao olhar, a Ideia do Bem que permanece velada ao homem.
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O homem, tomado pelo mirar do sensível, é incapaz de remontar o primeiro registro de velamento pelo qual a Ideia permanece invisível enquanto torna visível.
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Mas esse pensamento não toma a cargo a presença dessa presença que torna visível.
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Ele não se imerge no “il y a” dessa presença.
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Ele toma a Ideia como um mistério certamente admitido, mas que se torna uma evidência cuja doação não se sonda.
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O pensamento platônico desvela o velamento da Ideia no ente, mas não interroga a presença da Ideia ela mesma.
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Não interroga a presença da presença.
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É o vínculo da presença com seu mistério que Heidegger reencontra através do pensamento da presença como presentificação, temporalização da temporalidade, doação.
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É a doação da doação, a doação desse mistério de doação, que é tomada a cargo.