PEOS
O outono passa mais rápido, para frente, para trás, do que o ancinho do jardineiro. O outono não se apressa no coração que exige o galho com sua sombra. René Char, À M. H.
Pelo pensamento que, como logos, guarda a memória do ser, temos continuamente os olhos mergulhados no ser, mesmo contra a nossa vontade, mesmo no máximo da validade no ser-público; todo o ser está rodeado pelo lethe, único meio em que os contornos podem aparecer; todo o ser está rodeado pela retirada do ser, o Seinlassen. Na região que lhes é concedida, também lhes é concedido encontrar. O vazio permite o aparecimento; ele não é nada e dá margem à expressão. “O desconhecido é a matéria do nosso conhecimento”, diz Claudel nesse sentido. O eu pode se relacionar com todas as coisas, inclusive consigo mesmo, e assim ser um eu, porque vê a retirada do ser, porque para ele, ao contrário do que pode alcançar o reino animal, o nada não é nada, mas é a retirada. Ao se relacionar, pela compreensão do ser, com o ser que é, o eu faz aparecer seu corpo e pode associar cada um dos impulsos de seu organismo — que não apareceriam como tais se a compreensão do ser não existisse — a um pensamento. Mas ele também pode se enganar sobre a natureza do seu eu, acreditando ver o originário quando vê apenas o derivado, confundindo o que revela e o que é revelado, o eu e o eu, a fenomenalização e o fenômeno, o Dasein e o corpo. Todo pensamento do eu como objeto, substância estável, antigo, corporal, inerte e bem assegurado, toma o corpo como referência e como se esse corpo se reduzisse ao espaço que ocupa, e constitui in nuce um absurdo, uma vez que é invalidado pelo próprio pensamento que o pensa e que sempre já afirmou a não-onticidade e a não-localidade inerentes à transcendência que torna possível o eu = eu. O corpo só aparece para um Dasein; o animal não tem seu corpo; o corpo só pertence ao campo de manifestação desenhado por uma consciência, ou seja, por uma relação com o ser capaz de criar o vazio em torno de um ser, de acompanhar a retirada do ser, a fim de tomar esse ser como objeto de atenção e interrogá-lo sobre o que ele é.
Toda introspecção só é possível para o eu que compreende o ser, toda identificação do eu com o eu, da identidade com a localidade antiga desenhada pela situação do corpo, do homem com o ser corporal que ocupa tal lugar no meio do ser — sem que jamais seja enfatizada a irredutibilidade do corpo humano à sua pele, ele que é capaz de irradiar sua presença em qualquer lugar que a preocupação investe - é precisamente uma identificação, um ato de se colocar como tal ou tal, e esse ato exclui, por sua própria presença, a esfera à qual pretende se reduzir. Nesse caso, esse tal ou tal em que o ato se coloca e pressupõe nunca recolhe em si mesmo e nessa imagem redutora que dá de si mesmo o fato de que é precisamente capaz de se colocar como tal ou tal, o processo sendo ocultado em favor do que ele gera. É bem o eu que temos diante dos olhos, mas um eu empobrecido, privado da possibilidade de se ver a si mesmo; proclama-se em voz alta a consciência de si, mas nunca se leva realmente a sério, nunca é objeto de uma temática própria; presente na intenção em todas as doutrinas, a consciência de si nunca o é de fato, e a estrutura do eu continua sendo pensada de acordo com o que ela fenomenaliza, nunca de acordo com essa fenomenalização que ela transmite e na qual é lançada. A queda do eu provém de sua própria estrutura, ou seja, do próprio ser em seu recuo, mas só se mantém pela ignorância dessa estrutura, uma vez que esta é trazida à luz. Uma vez revelada a estrutura, o auto-isolamento do eu, o aprisionamento do eu em si mesmo se manifesta e explode à luz do dia. «Na Terra, ocorre um obscurecimento do mundo. Os eventos essenciais desse obscurecimento são: a fuga dos deuses, a destruição da Terra, a gregarização do homem, a preponderância do medíocre. […] O obscurecimento do mundo implica uma enervação (Entmachtung) do espírito, sua decomposição, sua consunção, sua evicção e sua má interpretação. […] O enfraquecimento do espírito provém dele mesmo.
Nessa descida do eu para o que ele possibilita, o eu permanece sempre junto ao ser; o eu é sua abertura, Erschlossenheit, logos, mas não assume sua identidade na Entschlossenheit, noein. O noein é o pensamento do logos em seu ser e a assunção do que essa estrutura implica; pensar a Verfallenheit é já sair dela, curar o pensamento calculista pelo pensamento pensante e colocar-se do lado do ser, em vez de se deixar afundar no indefinido de um On agora manifestado.
O logos é a compreensão da Palavra do ser, e essa compreensão “exige que o homem comprometa seu eu mais próprio” 2, pois esse eu, quer ele queira ou não, ou seja, estruturalmente, está propriamente ligado ao apelo contido no logos, sendo o logos a expressão do ser a um eu. Nós pertencemos ao logos, mas raramente respondemos a ele. “Devemos, então, fazer um esforço prévio para alcançar uma correspondência com o ser do existente? Nós, seres humanos, não estamos já nessa correspondência, e isso não apenas de fato, mas por nossa essência? Essa correspondência não constitui a característica fundamental do nosso ser? É verdade. Mas, se é assim, então não podemos mais dizer que precisamos primeiro acessar essa correspondência. E, no entanto, dizemos isso com razão. Pois é verdade que estamos sempre e em todos os lugares em correspondência com o ser, mesmo que raramente estejamos atentos ao chamado do ser”. É, portanto, a resposta ao que e com o que já correspondemos que o eu de cada um deve assumir para acessar sua própria vida. É pelo pensamento que se manifesta o vínculo entre o pensamento e o ser, entre o noein e o logos. Vejamos como se desenvolve essa assunção do logos no e pelo noein — par que sucede, após Sein und Zeit, ao do ser-aberto (Erschlossenheit) e da abertura-resoluta (Entschlossenheit). O que é o noein em relação ao legein? No alvorecer do pensamento ocidental, Parmênides expressa a articulação fundamental do legein e do noein em uma frase cuja consistência impensada Heidegger deseja meditar: to legein te noein te. Como pensar essa articulação?