A primazia do olhar, diante do qual todo ente deve comparecer para ser julgado como ente, é uma tendência herdada por
Husserl de uma tradição bimilenar.
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Essa tendência impede o si mesmo de atingir a consciência de sua proximidade com o ser, pois tudo o que é visto só é na medida em que é visível.
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Toda proveniência não-ente de um objeto, toda zona de sombra inerente à presença, é sistematicamente apagada ou reduzida a um campo de luminosidade.
A compreensão que o si tem de si mesmo como estando na luz e fazendo luz é uma redução inadequada.
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O si é portador de luz, estando, portanto, aquém daquilo que lhe é dado produzir por seu vínculo com o ser.
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A descoberta da pré-compreensão do ser ensina o contrário dessa redução do si à luz.
A presença da noite no coração do si, revelada pela pré-compreensão do ser, diminui o alcance do sujeito.
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O sujeito é obrigado a se abaixar diante do enigma, mas essa humilhação se transfigura em humildade diante do que é verdadeiramente grande.
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Tornar-se pouco é condição para o pressentimento do grande e para o autêntico espanto, que supera o que vai de si.
A zona de sombra, fonte de toda vinda em presença, é duplamente reduzida por
Husserl.
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Primeiro, pelo nível conhecido da redução, fundada no princípio dos princípios que faz da intuição a fonte de direito do conhecimento.
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Segundo, em um nível mais sutil, pela tentativa de reduzir a zona de sombra (ou indeterminação) do núcleo noturno das Abschattungen à esfera de imanência da consciência.
A redução husserliana põe entre parênteses a noite e o mistério, impedindo o pensamento de mergulhar no enigma que o requer.
O ângulo de visão mais visível torna-se progressivamente o único possível, e a visão em geral se confunde com este ângulo de máxima visibilidade.
Husserl reconhece um núcleo de invisibilidade (
Kern) no cerne da aparição, cercado por um horizonte de co-dados e uma zona de indeterminação.
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No entanto, este núcleo de indeterminação é, em direito, redutível à zona de sentido própria da esfera de imanência intuitiva.
A imperfeição da percepção é vista como uma modalidade de seu próprio desdobramento, um correlato necessário de sua atividade.
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A sombra é instrumento do dia, e a “ausência a serviço da presença”.
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A zona de sombra não é considerada como abertura do sujeito ao puro transcendente, mas como dependente da atividade perceptiva diretora.
O que para Heidegger é ocasião para romper os limites do círculo da ipseidade é usado por
Husserl para reforçar este círculo.
O ser transcendente é considerado por
Husserl como pertencente, sob o aspecto de um motivo de ulterior doação de sentido, à zona de imanência.
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Heidegger observa que, para
Husserl, “o ser transcendente é sempre dado na figuração e [que] se apresenta assim diretamente como objeto da intencionalidade”.
A zona de sombra é um instrumento do desdobramento da consciência, mas sua obscuridade não é tomada em sua significação própria.
A transcendência não é apenas posta fora de circuito por
Husserl; sua zona de sombra é integrada não como condição, mas como correlato necessário.
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No entanto, um correlato necessário é uma condição, e uma condição deve ser pensada em si mesma para que seu caráter condicionante seja destacado.
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Tudo se passa como se o eu nada devesse àquilo de que precisa para desdobrar sua imanência.
A zona de sombra do ser é vista como uma indeterminação ou um vazio suscetível de determinação progressiva após ser reduzida.
Para
Husserl, o desconhecido tem sempre a forma estrutural do conhecido, a forma de objeto.
Tudo é regido pela estrutura imposta por uma intencionalidade que exige a presença de correlatos intencionais.
O ente só tem sentido por sua determinabilidade, por sua possível submissão à reativação de seu teor intencional.
A subjetividade husserliana se dá à embriaguez de uma sempre possível perspectiva de preenchimento e extensão do teor de sentido de sua única imanência existente.
A consciência é a única realidade que só precisa de si mesma para existir, pois “a consciência nasce da consciência”.
O conceito de preenchimento, constantemente usado por
Husserl, atesta que o sujeito é compreendido como um continente.
A ek-staticidade do si é incontestável, pois é ela que permite o recuo da reflexividade que torna possível a fenomenologia como empresa de redução.
O coração do olhar para as coisas multiformes é ele mesmo tingido de invisível.
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Esta primordial acessão do si ao obscuro como tal é constantemente relegada a segundo plano pela tradição cartesiano-platônica de que
Husserl é herdeiro.
Não há, em
Husserl, escolha verdadeiramente possível quanto ao estatuto da transcendência ou de qualquer zona de não-luminosidade.
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Ou a transcendência faz parte da visada de sentido da consciência imanente, e toda obscuridade se reduz a uma luminosidade posta primeiro.
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Ou se entra na redução, onde toda obscuridade é igualmente regida por uma instância de luminosidade.
Heidegger nos remete a uma outra espécie de evidência: a do mistério remanescente da ipseidade que se confronta com o abismo de sua presença.
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Um simples “por quê?” abala a noção de subjetividade transcendental em dois níveis.
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Primeiro, porque a presença não basta para fundar e atrai o pensamento para o abismo de seu ser-aí.
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Segundo, porque toda questão sobre a subjetividade atesta uma instância de questionamento dentro dela mesma, revelando sua não-monoliticidade.
A vida do ego possui características estruturais que lhe impedem de se propor como único absoluto.
É apenas a partir da visão do que ele não é, do acesso ao que lhe é totalmente outro, que o ego pode tomar consciência de si mesmo.
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É no contato com o que lhe é obscuro que ele faz surgir sobre si uma luz.
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A experiência da morte como possibilidade da impossibilidade torna a vida do si visível a si mesma; o si não é fonte de sua própria luz.
O desprendimento da luz provém de uma acessão primeira ao totalmente outro que a claridade.
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É na proximidade do obscuro que uma bolsa de luz aparece a si mesma.
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Nestas condições, o visível não pode aparecer como primeiro, nem a pura visão como condicionante.
A pura visão continua a ser erigida em princípio por uma filosofia esquecida do ser.
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A fenomenologia husserliana se apresenta como um retorno radical a uma luminosidade pressuposta como originária.
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A própria radicalidade desse retorno atesta a violência com que a obscuridade do mistério foi pressentida sem ser assumida pensativamente.
A característica do gesto de pensamento husserliano é a colocação em presença de todo objeto transcendente pela anulação do olhar para o que não pertence a um domínio de luminosidade pré-determinado.
A famosa “ruptura” das
Investigações Lógicas corresponde à instituição do “domínio da intuição geral ou universal”.
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Isso não deve dissimular uma vontade de estabelecer todo mundo em uma colocação em presença da objetividade transcendente no interior da intuição.
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É a vontade de se apoderar pelo pensamento da totalidade do ente tomado em vista.
Se a intuição categorial não é pensada em função do excedente que revela, ela é apenas uma tentativa de situar todo objeto categorial na visão.
A colocação em presença possibilitada pela evidência intuitiva desdobrada pelo ego torna-se universal.
Tudo é visível ou deve ser reduzido ao visível; o mundo da invisibilidade é uma dimensão do visível ou é considerado sem resultados satisfatórios.
A fenomenologia husserliana é uma tentativa de tornar (ao) visível todo objeto da consciência, todo ato de consciência e toda região do mundo.
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Trata-se de um desvelamento total na certeza absoluta, e não de uma tomada em guarda do ser do qual depende o desdobramento da consciência.
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Por esses motivos, Heidegger não pode subscrever ao projeto husserliano.