Husserl reconhece um núcleo de invisibilidade (
Kern) no cerne da aparição, cercado por um horizonte de co-dados e uma zona de indeterminação.
-
No entanto, este núcleo de indeterminação é, em direito, redutível à zona de sentido própria da esfera de imanência intuitiva.
A imperfeição da percepção é vista como uma modalidade de seu próprio desdobramento, um correlato necessário de sua atividade.
-
A sombra é instrumento do dia, e a “ausência a serviço da presença”.
-
A zona de sombra não é considerada como abertura do sujeito ao puro transcendente, mas como dependente da atividade perceptiva diretora.
O que para Heidegger é ocasião para romper os limites do círculo da ipseidade é usado por Husserl para reforçar este círculo.
-
Para Husserl, a zona de sombra é o horizonte de toda percepção, mas este horizonte é inexplicavelmente produzido pela vida perceptiva mesma.
-
Esta produção não é analisada; é um constatação. A indeterminação está lá como uma ocasião para ser determinada.
O ser transcendente é considerado por Husserl como pertencente, sob o aspecto de um motivo de ulterior doação de sentido, à zona de imanência.
A zona de sombra é um instrumento do desdobramento da consciência, mas sua obscuridade não é tomada em sua significação própria.
A transcendência não é apenas posta fora de circuito por Husserl; sua zona de sombra é integrada não como condição, mas como correlato necessário.
-
No entanto, um correlato necessário é uma condição, e uma condição deve ser pensada em si mesma para que seu caráter condicionante seja destacado.
-
Tudo se passa como se o eu nada devesse àquilo de que precisa para desdobrar sua imanência.
A zona de sombra do ser é vista como uma indeterminação ou um vazio suscetível de determinação progressiva após ser reduzida.
Para Husserl, o desconhecido tem sempre a forma estrutural do conhecido, a forma de objeto.
Tudo é regido pela estrutura imposta por uma intencionalidade que exige a presença de correlatos intencionais.
O ente só tem sentido por sua determinabilidade, por sua possível submissão à reativação de seu teor intencional.
A subjetividade husserliana se dá à embriaguez de uma sempre possível perspectiva de preenchimento e extensão do teor de sentido de sua única imanência existente.
A consciência é a única realidade que só precisa de si mesma para existir, pois “a consciência nasce da consciência”.
O conceito de preenchimento, constantemente usado por Husserl, atesta que o sujeito é compreendido como um continente.
-
Isso implica, queira-se ou não, o antigo modelo da res (substância).
-
Apesar das intenções de Husserl, sua própria terminologia o trai, e a subjetividade retorna ao estatuto de substância.
A ek-staticidade do si é incontestável, pois é ela que permite o recuo da reflexividade que torna possível a fenomenologia como empresa de redução.
O coração do olhar para as coisas multiformes é ele mesmo tingido de invisível.
Não há, em Husserl, escolha verdadeiramente possível quanto ao estatuto da transcendência ou de qualquer zona de não-luminosidade.
-
Ou a transcendência faz parte da visada de sentido da consciência imanente, e toda obscuridade se reduz a uma luminosidade posta primeiro.
-
Ou se entra na redução, onde toda obscuridade é igualmente regida por uma instância de luminosidade.
Heidegger nos remete a uma outra espécie de evidência: a do mistério remanescente da ipseidade que se confronta com o abismo de sua presença.
-
Um simples “por quê?” abala a noção de subjetividade transcendental em dois níveis.
-
Primeiro, porque a presença não basta para fundar e atrai o pensamento para o abismo de seu ser-aí.
-
Segundo, porque toda questão sobre a subjetividade atesta uma instância de questionamento dentro dela mesma, revelando sua não-monoliticidade.
A vida do ego possui características estruturais que lhe impedem de se propor como único absoluto.
É apenas a partir da visão do que ele não é, do acesso ao que lhe é totalmente outro, que o ego pode tomar consciência de si mesmo.
-
É no contato com o que lhe é obscuro que ele faz surgir sobre si uma luz.
-
A experiência da morte como possibilidade da impossibilidade torna a vida do si visível a si mesma; o si não é fonte de sua própria luz.
O desprendimento da luz provém de uma acessão primeira ao totalmente outro que a claridade.
-
É na proximidade do obscuro que uma bolsa de luz aparece a si mesma.
-
Nestas condições, o visível não pode aparecer como primeiro, nem a pura visão como condicionante.
A pura visão continua a ser erigida em princípio por uma filosofia esquecida do ser.
-
A fenomenologia husserliana se apresenta como um retorno radical a uma luminosidade pressuposta como originária.
-
A própria radicalidade desse retorno atesta a violência com que a obscuridade do mistério foi pressentida sem ser assumida pensativamente.
A característica do gesto de pensamento husserliano é a colocação em presença de todo objeto transcendente pela anulação do olhar para o que não pertence a um domínio de luminosidade pré-determinado.
A famosa “ruptura” das
Investigações Lógicas corresponde à instituição do “domínio da intuição geral ou universal”.
-
Isso não deve dissimular uma vontade de estabelecer todo mundo em uma colocação em presença da objetividade transcendente no interior da intuição.
-
É a vontade de se apoderar pelo pensamento da totalidade do ente tomado em vista.
Se a intuição categorial não é pensada em função do excedente que revela, ela é apenas uma tentativa de situar todo objeto categorial na visão.
A colocação em presença possibilitada pela evidência intuitiva desdobrada pelo ego torna-se universal.
Tudo é visível ou deve ser reduzido ao visível; o mundo da invisibilidade é uma dimensão do visível ou é considerado sem resultados satisfatórios.
A fenomenologia husserliana é uma tentativa de tornar (ao) visível todo objeto da consciência, todo ato de consciência e toda região do mundo.
-
Trata-se de um desvelamento total na certeza absoluta, e não de uma tomada em guarda do ser do qual depende o desdobramento da consciência.
-
Por esses motivos, Heidegger não pode subscrever ao projeto husserliano.