A clareza aparente é sempre penetrada e regida pela obscuridade, pois o ser, ao deixar aparecer o ente, retira-se simultaneamente, instaurando a diferença ontológica não como separação operada pelo si, mas como fenda originária na qual o si está implicado.
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A diferença ontológica não é efeito de uma distinção reflexiva, mas o próprio dobramento do ser que produz o ente e dele se afasta no mesmo ato.
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O si encarna esse dobramento, pois nele o ser aparece como noite do não-ente, diferença viva em relação a todo ente.
O ente deve ser pensado como traço do retiro do ser, pois aquilo que aparece o faz apenas porque o ser se retrai, deixando-o emergir no espaço aberto pela ocultação.
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Todo ente presente se mantém no mistério de sua própria presença.
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A ocultação rege o ente em totalidade, e o desvelamento provém sempre do velamento.
A clareza, por proceder da obscuridade, é um modo pelo qual a obscuridade mesma vem à manifestação sem deixar de permanecer obscura.
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A luz não anula a noite, mas a exprime de modo derivado.
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O aparecer do ente é, assim, a forma segundo a qual a obscuridade se dispensa sem se mostrar como tal.
Para o si, todo ente aparece como banhado na lethe, pois o ente só é ente porque o si se mantém para além dele, abrindo o espaço no qual seus contornos, limites e singularidade podem manifestar-se.
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No mesmo ato se dão a limitação do ente e o ilimitado que torna essa limitação possível.
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A noite do ser constitui o espaço do dia, sendo a condição de possibilidade de toda claridade ôntica.
A clareza é regida pela obscuridade não apenas porque dela provém, mas porque é um modo de aparição da obscuridade mesma, que se dispensa como obscura ao se retirar em favor da luz.
O pensamento deve percorrer três momentos para reencontrar a origem: o ente desvelado, o desvelamento enquanto tal, e a ocultação como condição inaparente de toda aparição.
A passagem do niilismo à pensamento do ser ocorre quando o nada de todo ente é reconhecido como paisagem invisível que condiciona a vinda ao aparecer de tudo o que é.
A noite é abertura inaparente e luminosa, não como luz visível, mas como espaço que possibilita toda manifestação.
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A doação se retira em favor do dado.
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Não é o dado que eclipsa a doação, mas a doação que se eclipsa a si mesma no dado.
A Lichtung nomeia esse ato inaparante de iluminar, distinto da luz enquanto fenômeno visível.
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Ela não é Licht, mas Lichtung, ato de esclarecer que não se mostra como luz.
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Sua luminosidade é noturna, pois consiste em dar espaço.
A noite, enquanto tal, é manifestabilidade, pois dar vazio é dar espaço, e somente onde há espaço algo pode surgir.
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A noite é produtiva, abridora, centrífuga.
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Ela é o fundo a partir do qual todo ente entra em presença.
A luz visível é sempre resultado de um ato de esclarecimento que permanece velado em si mesmo.
O si tem acesso simultâneo aos entes iluminados, à luz e à noite, pois sua estrutura lhe permite ver tanto o dia quanto a noite.
A noite não pode ser tornada visível pela luz que dela provém, pois isso reconduziria a origem ao derivado.
A relação do si com a noite funda-se em uma comunhão de consistência, pois o semelhante conhece o semelhante.
A noite não é a treva, mas o lugar secreto do claro, guardando-o junto de si.
A noite é nutridora, rica de possibilidades, portadora de uma luz que não é diurna.
A Lichtung deve ser compreendida segundo três níveis: a noite originária, o campo de luz e as claridades do ente.
A Lichtung não é a clareira enquanto estado, mas o ato de esclarecer que libera um campo livre.
A clareira é um dado no interior da floresta, e não a origem.
No Dasein, a Lichtung vem à aparição, pois o Dasein é ele mesmo a Lichtung, embora não seja sua fonte.
A presença torna-se enigmática quando aparece como presença, isto é, quando o “há” se manifesta como tal.
A Lichtung não é um ente nem algo pertencente à presença, mas concerne essencialmente ao pensamento.