Consumação aristotélica da compreensão grega do ser-homem como presença luminosa
A ontologia aristotélica consuma a compreensão grega do ser-homem fundada na interpretação do ser como luz, presença e estar-em-obra, isto é, como aquilo que se manifesta a partir de si mesmo sob o primado da visibilidade.
O ser é pensado como aquilo que se oferece essencialmente ao olhar de uma contemplação adequada, de modo que a inteligibilidade coincide com a clareza do aparecer.
O si mesmo humano reduz progressivamente sua abertura ao âmbito do visível, abandonando a dimensão do combate com o inquietante e com o fundo não-ente que acompanha toda doação do ente.
Função decisiva do princípio de não-contradição no fechamento do horizonte do ser
O princípio de não-contradição expressa o ponto culminante dessa evolução ao excluir do pensamento toda consideração do não-ente enquanto fundo constitutivo do ente.
A ausência é expulsa do domínio da presença, pois tudo aquilo que implicaria uma co-pertinência entre presença e não-presença é declarado estranho à essência do ente.
Com isso, o ser é definitivamente pensado como plena positividade presente, e o retraimento originário da doação deixa de ser tematizável.
Eliminação da lethe como dimensão constitutiva do aparecer
A rejeição da lethe implica a perda da compreensão do ente como emergente de um fundo de ocultação.
O ente passa a ser considerado simplesmente como dado, encontrado aí, sem relação essencial com um domínio de não-manifestação.
A doação deixa de ser pensada como graça ou acontecimento, e o ente se estabiliza como produto acabado.
Consolidação do esquema produtivo do ente
O ente é interpretado como resultado de uma in-formação, seja pela natureza compreendida de modo técnico, seja pela ação humana.
O processo de manifestação é substituído por um esquema de produção no qual a forma antecede e governa o aparecer.
O ente já não se adianta a si mesmo na presença, mas é provocado a aparecer segundo um modelo previamente determinado.
Instauração da disponibilidade como traço fundamental do ser do ente
O ente é compreendido como subsistente colocado à disposição, desprovido de qualquer vínculo essencial com um processo originário de desvelamento.
A disponibilidade torna-se o caráter ontológico dominante, aquilo pelo qual o ente é propriamente ente.
O si mesmo reconhece no ente apenas um frente-a-frente utilizável e manipulável.
Metafisicação do si mesmo como meta-phýsis
O si mesmo humano se separa de sua origem no retraimento originário e passa a mover-se exclusivamente no domínio do que lhe é dado.
A ipsidade deixa de se compreender como lugar de acolhimento do ser e passa a identificar-se com a capacidade de manejar o ente disponível.
O esquecimento da proveniência da própria ipseidade acompanha o esquecimento do ser como abismo doador.
Esquecimento da injunção originária do ser
A sentença de Anaximandro, compreendida como injunção do ser, deixa de ser ouvida.
O deixar-ser recolhedor é substituído pela manipulação técnica do que é confiado.
A necessidade que exige o ser-homem degenera em simples possibilidade de uso e domínio.
Centralidade ontológica da ousia como disponibilidade
A ousia passa a designar primariamente o fundo de riqueza, o bem disponível, aquilo que está à mão.
Essa acepção pré-filosófica é consolidada pela determinação filosófica da ousia como aquilo que permanece.
A história posterior da metafísica herda essa determinação como evidência não questionada.
Determinação do ente como hypokeimenon
A ousia é precisada conceitualmente como hypokeimenon, o que jaz sob, o subjacente permanente.
O ente é aquilo que permanece idêntico através das mudanças, garantindo estabilidade e presença constante.
Essa determinação fornece o esquema fundamental para a interpretação posterior do ser do ente como substância.
Tradução latina do hypokeimenon como subjectum
O hypokeimenon é traduzido como subjectum, estabelecendo a estrutura da subjetidade.
Todo ente, inclusive o homem, é concebido como algo previamente dado que serve de base.
A subjetividade moderna herdará essa estrutura, antes de tudo, como subjetidade.
Redução da estrutura do si à estrutura do ente
O si mesmo passa a ser interpretado segundo o modelo do ente subsistente.
A estrutura ek-stática da ipseidade é silenciada em favor de uma identidade fechada e monolítica.
O si se compreende como um algo entre outros algos, dotado de permanência e disponibilidade.
Restrição do si ao domínio do não-oculto
O homem se instala no distrito do aberto sem retraimento.
A pertença ao não-oculto implica simultaneamente uma limitação quanto ao não-manifesto.
O eu emerge como efeito dessa restrição, não como centro originário, mas como medida moderada do visível.
Passagem gradual da moderação grega à desmedida moderna
A moderação do homem grego ainda reconhece o limite imposto pelo retraimento.
Progressivamente, essa moderação cede lugar à vontade de submeter todo ente à clareza.
A subjetividade moderna radicaliza essa tendência ao exigir a total disponibilidade do ente.
Distinção entre diferença ontológica e diferença metafísica
A diferença ontológica designa a distinção entre ser e ente, condição de possibilidade do filosofar.
Essa diferença permanece operante, mas não tematizada, no pensamento grego originário.
A diferença metafísica surge quando essa distinção é deslocada para o interior do ente, como distinção entre essentia e existentia.
Instauração da diferença metafísica como efeito do esquecimento do ser
A diferença entre essência e existência substitui a diferença entre ser e ente.
O ser é rebaixado à condição de determinação do ente.
O ente passa a conter em si mesmo o critério de sua própria inteligibilidade.
Hierarquização interna do ente
O ente é dividido em níveis, distinguindo-se o mais ente do menos ente.
A essência imutável é elevada à condição de fundamento.
A existência contingente é compreendida como derivada e secundária.
Consolidação da metafísica da subjetividade
A interpretação do ente como disponível e do si como subjectum prepara o advento da subjetividade moderna.
O homem se torna medida e fundamento do aparecimento do ente.
A metafísica culmina na dominação técnica do ente enquanto realidade inteiramente explorável.