Os três graus: o dado, a doação, o ser da doação.
-
Pode-se determinar três graus: o dado, a doação, e o ser dessa doação.
-
Este terceiro grau foi arrancado ao encapsulamento da subjetividade husserliana pela ênfase no valor de abertura do “enquanto” presente no coração da intuição categorial.
-
Heidegger escolhe a ontologia fundamental, que visa a penetração no mistério da doação como tal através da penetração no que a subjetividade tem de mais radical: a pré-compreensão do ser.
A fenomenologia não funda sua própria possibilidade.
-
A fenomenologia quer tornar evidentes as múltiplas estruturas do psíquico puro, objetivando as modalidades do comportamento da alma.
-
No entanto, a possibilidade mesma dessa objetivação não é pensada; a fenomenologia não fundamenta seu método no caráter de ser desse eu puro que é querido como fundamento de tudo.
-
Ela não pensa sua própria possibilidade, nem a possibilidade da redução no eu-resíduo da redução.
O fundamento absoluto como indescritível e a decisão metodológica arbitrária.
-
O fundamento absoluto, o ego transcendental, é o que não pode ser descrito de modo algum. Ele só aparece enredado em seus vividos.
-
Esta situação deveria fazê-lo depender do dado que desdobra e negar-lhe a pureza, não fosse a posição de sua absolutidade por motivos de eficácia científica.
-
Doador emaranhado no que dá, fundamento não fundamentado, polo invisível de um fluxo, o ego husserliano está lá apenas para dar impulso a uma nova ciência cujos fundamentos só interessam pelos resultados.
A crítica ao fundamento não questionado e o tropo da regressão ao infinito.
-
Heidegger pergunta de onde o fundamento tira seu ser-fundamento, opondo à fenomenologia husserliana o tropo cético da regressão ao infinito.
-
Este tropo não é usado para negar todo saber, mas para mostrar que um fundamento nunca é último, pois antes de ser fundamento, ele simplesmente é, depende do ser pelo qual é.
-
A questão de seu ser-fundamento torna-se, assim, a questão do ser.
A indeterminação do ego e o acesso secreto ao questionamento.
-
A afirmação husserliana da indeterminação do ego é pertinente, pois aponta para um modo de ser excluído de toda determinação objetal.
-
No entanto, para chegar a esse saber, é necessário ter entrado, ainda que minimamente, num questionamento sobre a tenência da indeterminação.
-
Os textos sobre a impossibilidade de estudar a zona de indeterminação revelam, para Heidegger, uma secreta vontade de não prosseguir um questionamento já iniciado.
A vontade de não descrever a origem e os limites do projeto husserliano.
-
A vontade de não descrever aquilo de onde todo fenômeno provém, de proibir-se todo questionamento essencial, manifesta os limites do projeto husserliano.
-
Ao fazer tudo repousar na intencionalidade obtida por redução, Husserl não coloca a questão da possibilidade dessa intencionalidade, nem do espaço no qual o ser-intencional da consciência pode se desdobrar.
-
A fenomenologia interessa-se pela gênese dos vividos, mas não pela possibilidade de que haja vivido, que supõe uma proximidade primeira ao ser.
A situação de dilaceração da fenomenologia.
-
A fenomenologia se vê dilacerada entre, de um lado, a manutenção de um princípio indizível que, no entanto, deveria poder ser dito para ser princípio, e de outro, o uso desse princípio para desdobrar uma intencionalidade que não está fundamentada.
-
A efetivação da redução torna visível toda a tenência intencional de um vivido, mas a redução mesma não é compreendida no ser da doação.
A necessidade de uma refundação do problema do ego na base do ser.
-
As diversas camadas de sentido das quais o eu é vetor não são bases estáveis, pois são impregnadas de um vazio doador de sentido.
-
Em vez de certezas fixas, elas são enigmas de presença que agitam continuamente o eu.
-
A superação das dificuldades do husserlianismo depende, para Heidegger, de uma refundação completa do problema do ego, com base na presença do ser à consciência conquistada pela compreensão da intuição categorial.
-
Trata-se de aprender a ver fenomenologicamente. Quando a compreensão das coisas mesmas é alcançada, a fenomenologia pode desaparecer.