A existência própria ao si (Dasein) significa ter relação, através do conteúdo essencial (
Wasgehalt) do ente, com seu conteúdo de presença bruta (
Dassgehalt).
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Existir (ek-sistere) significa estar exposto ao ente e engajado no debate com ele e consigo mesmo.
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A essência do si mesmo é existir, o que não é pensável no modo da redução eidética.
Heidegger recusa manter a oposição rígida entre intuição sensível e intuição categorial.
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O que se vê primeiro é o universal (por exemplo, “eis uma casa”), a presença da coisa enquanto tal.
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A intuição do ser da coisa é primária, sendo a base para qualquer modalidade intuitiva posterior.
A experiência da coisa mesma requer um domínio diferente do da consciência.
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Este outro domínio é nomeado Dasein, que possui a possibilidade nativa de se relacionar com o “há” (es gibt) de qualquer objeto.
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O Dasein se relaciona não apenas com o estar-em-presença, mas com o desdobramento da vinda à presença mesma.
A presença é dada em primeiro lugar, e sua própria fenomenalidade é um abismo enigmático.
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A ideia é pesada de sua vinda ao olhar; a evidência é pesada do mistério de seu eclodir.
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A intuição das essências não redobra a intuição sensível, mas a precede e a torna fenomenologicamente possível.
A doação da essência e a doação do ser são indissociáveis.
A compreensão do ser é o fator unificante e possibilitador da personalidade humana, embora abra para um abismo.
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Sem a compreensão do ser, o homem não poderia se comportar diante de si mesmo como ente, nem ser uma pessoa.
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A pré-compreensão do ser é tanto uma ajuda para o pensamento quanto a abertura de um novo problema: o relacionamento com o que não é ente.
O fundamento da possibilidade da visão (a
e-vi-dência) é ele mesmo insensível e invisível, exceto no aparecer de sua invisibilidade doadora.
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O surgimento da esfera de evidência convoca o pensamento a refletir sobre sua própria vinda à luz.
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Husserl trata o “olhar da pura visão” como um fato e fundamento últimos, o que Heidegger vê como contraditório, pois a pura visão é ela mesma dada.
A crítica à concepção husserliana de “dado” não conduz a uma regressão infinita.
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O dom do dado remete ao próprio dom, à sua entrada em presença como dado, sendo isto assumido pelo pensamento.
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O mistério reside no fato de que há doação, de que algo é dado a um olhar.
O ser é um desdobramento em presença e não se confunde com uma presença plena como a da evidência do eu puro.
O ser é o excedente (
Überschuss) horizontal que torna o objeto acessível, mas este excedente é ele mesmo insensível.
A irritante insensibilidade da origem pode levar à conclusão de que o ser é vazio.
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Nesta visão, o ser seria apenas o correlato do desdobramento de uma consciência, uma função para possibilitar a visão de essências.
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Para Heidegger, isto evacua todo caráter problemático do ego, deixado em uma evidência sem véus.
A intenção de Heidegger é levar a fenomenologia a concluir as questões que ela evita colocar.
Heidegger acusa Husserl de esquecer o ser ao fazer dele um mero instrumento metodológico para acessar a esfera da consciência.
O si habita no excedente; não há subjetividade transcendental separada da evanescente proximidade do ser.
A “bolsa” da imanência é rompida porque não é mais necessária para o acesso ao fenômeno em sua pureza.
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O si tem acesso direto ao ser, o transcendens por excelência, em uma compenetração cujas consequências a filosofia não pensou.
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A estrutura noético-noemática do si perde seu sentido quando o si está desde sempre fora de si, junto ao ser.
Heidegger fala de um sujeito como unidade estilhaçada ou disseminada, indo além da tendência de fluidificação da Lebensphilosophie.
A reflexividade e a autointerrogação atestam uma zona inicialmente rompida da consciência, não reconhecida pela fenomenologia transcendental husserliana.
Uma vez estabelecido o ego como princípio, não se pode mais sair dele.
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É necessário um novo ponto de partida: a dimensão originária que permitiu à fenomenologia seguir seu caminho redutivo, ou seja, a dimensão reflexiva e questionante.
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O ego cogito, para Heidegger, permanece uma caixa sem janelas, incapaz de responder pela possibilidade de sua própria dinâmica.
O novo ponto de partida é o Dasein, horizonte de todo acesso à coisa pela exposição primeira do si ao ser.
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O Dasein é caracterizado pela êxtase (estar-fora-de); a imanência está rompida de alto a baixo.
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O dirigir-se-a (Sichrichten-auf) do si repousa sobre um permanecer-junto-a (Sichaufhalten-bei), um permanente estar junto ao ser.
A apreensão da intencionalidade como estrutura essencial do Dasein revoluciona o conceito de homem.
Para Husserl, o termo
selbst (mesmo) não tem significado particular, implicando apenas a evidência do ser-dado na pura coincidência consigo.
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Selbst qualifica a doação “em carne e osso” de um objeto quando a intenção encontra seu preenchimento adequado.
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A função selbst está associada ao idem (o idêntico), não ao ipse (o si próprio enquanto abertura).
O ato inaugural da fenomenologia husserliana é criar a situação para que a manifestação da evidência de um objeto seja possível.
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O transcendente, lugar do não-subjetivo e da não-coincidência (selbstlos), é posto fora de circuito.
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Na redução, o sujeito se relaciona apenas com a maneira como o objeto lhe é dado na imanência, alcançando a coincidência consigo como idem.
Heidegger opõe a consistência rompida do
selbst, indissociável de uma abertura.
A originalidade de Heidegger é ter entrado sem reservas no ser mesmo do intencional, decifrando suas implicações ontológicas.
Para Husserl, a subjetividade transcendental é intencional, o que lhe confere seu poder constituinte.
Para Heidegger, entrar na consciência é chegar ao espaço do ser, que condiciona a própria intencionalidade.
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A meditação sobre a intuição categorial leva à evidência do mistério constituinte, do não fundamento.
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Entrar em si é encontrar o fora-de-si primordial, a dimensão noturna que dá orientação e espaço ao desdobramento da ipsidade.
Com base no poder-de-dizer-“ser” da consciência intencional, Heidegger contesta que a intencionalidade seja uma atividade mental auto-provocada na imanência.
Husserl desconhece o ser da intencionalidade ao vê-la apenas como a dinâmica inexplicada de um sujeito transcendental.
A principal objeção de Heidegger a Husserl é não ter buscado o fundamento do ser-intencional no
estar-fora-de-si do si e na pré-compreensão do ser.
A reflexão husserliana busca revelar a consciência a si mesma na imediatidade da evidência intuitiva.
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Heidegger argumenta que, para haver visada de objeto e de si por si, é necessário o acesso à presença, uma pré-apreensão do ser.
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A coincidência consigo só é possível com base em uma distinção prévia na relação pré-compreensiva com o ser.
Em Husserl, a intencionalidade reside na imanência do sujeito, partindo inexplicavelmente para o mundo.
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Heidegger opera um retorno interrogativo ao espaço de possibilidade desse movimento.
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Husserl reduz a consciência a objeto de olhar, deixando de interrogar o ser desse olhar e a vinda em presença da luz que o preenche.
Heidegger considera que Husserl não quis estar à altura das exigências implicadas por suas próprias descobertas.
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A fenomenologia, como Heidegger a concebe, é uma metamorfose constante do pensamento, que deve se aprofundar no que desvela.
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Sua vocação é situar-se no coração do desdobramento, no pensamento do seu caráter de ser.
A fenomenologia de Husserl busca estabelecer-se como ciência fundamental certa e independente.
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Para Heidegger, o essencial da fenomenologia não está em sua realização, mas em sua possibilidade como pensamento.
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Esta possibilidade é a de assumir o mistério da própria presença e de sua relação com o ser.