Os vividos como fonte de direito de todo fenômeno e base da ciência pura.
Os vividos, pelo entrelaçamento do ego absoluto que se desdobra neles, são a fonte de direito de todo fenômeno; são o próprio fenômeno.
Sua evidência para a consciência é a base sobre a qual Husserl se apoia para afirmar não existirem outros meios de acesso a uma ciência pura e rigorosa da vida psíquica.
A presença imediata dos vividos à consciência é a base ou a garantia da verdade do método, que encarna o princípio da ausência de pressuposição nas pesquisas da teoria do conhecimento.
A intuição como domínio absoluto e acesso privilegiado à essência.
Na evidência do vivido, tudo é dado, tal como um objeto seria dado a um entendimento infinito.
A consciência atinge intuitivamente a própria essência; ela é o domínio da presença absoluta.
Esta intuição possui um caráter todo-poderoso, mas sua onipotência é apenas reconhecida, não interrogada.
Exemplo da intuição do vermelho: mantendo a imanência pura e realizando a redução, atinge-se a essência “vermelho em geral”.
Tal intuição, domínio do absoluto, é a estrutura do ego transcendental. Com ela, não se pode sonhar melhor acesso à coisa.
A evidência da qual o eu é capaz lhe confere atributos tradicionalmente reservados à divindade.
A não-interrogação da possibilidade dessa potência do eu.
Esta potência de apreensão do ser do próprio objeto pelo eu não é interrogada em sua possibilidade.
Para Heidegger, que o eu seja absoluto é um fato da redução, não um elemento de pensamento.
Este acesso do eu ao ser, ou mesmo esta identificação do eu e do ser em torno da dominação do eu afirmado como único ser, permanece considerado como uma evidência, um fato.
A questão do caráter de ser de uma intuição tão poderosamente fenomenalizante não pode, no entanto, ser rigorosamente evitada.
A intuição como termo intransponível e o apelo à tradição mística.
Para Husserl, a intuição permanece o termo intransponível ou a fonte inesgotável de direito. Nela deve-se buscar a origem do ser.
Husserl não considera a evidência como uma pressuposição, ligando-se a uma tradição da imediatidade para a qual o acesso direto não sofre questionamento.
Ele se refere a Descartes como o “verdadeiro pai fundador da fenomenologia”.
Não desdenha a comparação com a noção mística de intuição sine comprehension (intuição sem compreensão), descrevendo uma visão intelectual que não seria um saber da ordem do entendimento.
O misticismo husserliano versus o misticismo religioso.
Pela redução, que é a manutenção provocada na pura visão ou evidência, Husserl desvela uma atitude mística mais ambiciosa que a do mais puro dos místicos.
O místico (ex.: São João da Cruz) sabe que não pode se manter no coração dessa visão nua, pois ela não detém em si mesma sua possibilidade, mas depende do ser que a concede misteriosamente.
O místico tem consciência de não poder agarrar a luz para dela se tornar senhor. Sua relação é de busca, gemido e ausência.
Para Husserl, o “olhar da vista” ao qual recorre para aceder a uma esfera de evidência não sofre a comparação com o olhar ou a certeza mística, que se depara com uma luz tenebrosa ou uma treva luminosa.
A opacidade na fenomenologia: sempre reduzida à luz do ego.
Husserl fala de zonas de opacidade na vida da consciência, mas sempre para reconduzir seu sentido à luz única e originária do ego.
Para a fenomenologia transcendental, tudo é, em direito, determinável no campo do ego, que é o de uma e de uma única luz originária.
A resposta à crítica heideggeriana: a vontade de iluminar o “canto escuro”.
Contra as declarações de Heidegger de que Husserl não considerou o caráter de ser da subjetividade, pode-se retrucar que ele quis ter olhos apenas para ela.
Husserl declara que o “eu sou” é o fato primitivo diante do qual, como filósofo, não pode desviar o olhar.
Para as “crianças filósofas”, este pode ser o canto escuro onde retornam os fantasmas do solipsismo; o verdadeiro filósofo preferirá iluminar esse canto escuro.
A fenomenologia tem a vocação de ir até o fim do ceticismo para encontrar o caminho de uma ciência rigorosa.
A diferença entre “iluminar” e “pensar” o canto escuro.
Para Heidegger, “iluminar o canto escuro” não é pensá-lo, deixando-o a si mesmo para exibir a plena tenência de seu fenômeno.
É, ao contrário, reconduzi-lo ao que uma subjetividade reduzida às suas claridades pode dele apreender.
A subjetividade só se atinge pela relação a um elemento situado mais longe que o sujeito. Para olhar o “canto escuro”, é preciso ter uma relação primordial com o escuro.
Esta zona obscura, para ser iluminada como o que é, não deve ser reduzida à luz. O fundo que extingue não pode ser dominado pelas luzes científicas derivadas.
A abordagem husserliana da obscuridade: destinada a tornar-se luminosa.
Husserl não afirma de saída que a região de obscuridade é em si luminosa, mas a aborda como se estivesse destinada a sê-lo.
A tarefa da fenomenologia consiste em levar a luz ao obscuro, não para fazê-lo aparecer como se dá (em sua obscuridade), mas para tentar infundi-lo de uma luz que não é a sua.
A confrontação com o “canto escuro” não é uma verdadeira imersão; ele é abordado à luz de requisitos de luminosidade que nele encontram sua principal contrariedade.
A escolha heideggeriana: pensar a obscuridade em vez de iluminá-la.
Não se trata de iluminar o canto escuro, mas de pensá-lo, sem atraí-lo a si subjetivamente, mas restituindo-o a si mesmo e buscando o sentido de sua obscuridade.
O “canto escuro”, se fosse deixado ser o que é, poderia aparecer como a graça de uma insondável difusão de presença, e não como um inferno.
Se a subjetividade possui nativamente uma parte de obscuridade, que torna possível esse rapport problemático consigo mesma, deve haver um motivo, e é este motivo que Heidegger não perde de vista.
A crítica ao primado da visão e à redução do fenômeno ao ente.
O problema do projeto husserliano, para Heidegger, não é ter ambição para o pensamento, mas reduzir o pensamento à visão.
A pensamento tem acesso a si mesmo e ao enigma do ser, a domínios agindo na invisibilidade.
Fazer tudo depender da vista ou do que o pensamento tem acesso imediato (o ente) é perder de vista as condições da vinda à presença.
Quem diz primado da vista diz primado do ente como vorhanden (subsistente) e redução do pensamento a uma atividade de manejo do ente.
Uma pensamento que pensa a singularidade do ipse em obra no si e uma pensamento do ser são concomitantes.
A evidência como absoluto e a questão de sua validade.
A pura visão tem para Husserl valor de absoluto. A evidência é uma incontestável dada e torna-se a medida para todo pensamento.
Mas de onde a evidência tira sua própria validade? Descartes ainda colocava esta questão, submetendo a evidência à hipótese do “gênio maligno”.
A noção de dado absoluto não tem sentido para um cartesianismo rigoroso.
Husserl, ao contrário, quer atestar que a intuição é a única ausência de pressuposição possível, pois é a única instância doadora originária.
A superação do problema da adequação pela redução.
Husserl realiza um progresso notável em relação às filosofias da representação: a consciência não precisa sair de seu domínio para atingir o objeto.
O problema da adequação entre sujeito e objeto é dissolvido pela redução, que permite a coincidência do sujeito consigo mesmo na imanência.
Uma pensamento é julgada completa quando intenção e intuição se unem no preenchimento.
Contudo, para Heidegger, o problema não é verdadeiramente superado, apenas resolvido ou dissolvido. A questão fundamental é a possibilidade da vinda à presença do ente.
A solução husserliana como recuo sobre o sujeito e a alternativa heideggeriana.
A solução de Husserl constitui um recuo sobre o sujeito, pressupondo a possível coincidência consigo de um eu puro.
Heidegger demonstra que a “subjetividade” é uma primordial saída de si, pois a consciência é capaz de um recuo reflexivo, de se olhar a si mesma.
Esta possibilidade de reflexividade e autoquestionamento no coração do dado não é integrada por Husserl à atividade do ego absoluto.
Para Heidegger, este recuo provém da proximidade ao si do ser como retração.
A necessidade de interrogar a origem da evidência e a pré-compreensão do ser.
É preciso ir à origem da evidência, perguntar o que faz com que a evidência possa ser, que uma fonte doadora originária possa aparecer.
Para Husserl, este problema é absurdo, pois o ser é constituído pela fonte em questão.
Para Heidegger, uma questão sobre o ser dos vividos é a mola fundamental da fenomenologia; ela deve ter sua fonte no ego que tem uma relação ao ser.
Esta relação ao ser deve ser estudada por si mesma, sem reduzir precipitadamente o ser ao ego.
A atividade fenomenológica mesma depende desta relação do si e do ser. Um ser tão condicionante não pode ser rebaixado a constituído.
A pré-compreensão do ser como relação mais originária.
A pré-compreensão do ser é esta relação do si e do ser, e ela é o que há de mais originário e propriamente intransponível.
Esta compreensão não é inventada pela filosofia; ela já está presente na existência pré-filosófica do homem, sem a qual ele não poderia se comportar em relação ao ente.
A intuição como resultado do desejo de ausência de pressuposição.
Desde as Investigações Lógicas, a atitude redutora está presente em intenção, e a transcendência é reconduzida a uma visada de sentido do vivido subjetivo.
A intuição é considerada como resultado do desejo de ausência de pressuposição.
Sair da intuição é impossível e impensável para Husserl, assim como para Descartes era impossível sair da substância pensante.
A diferença entre Descartes e Husserl: a anulação da exterioridade.
Para Descartes, alcançar a transcendência do mundo é possível pela intervenção de Deus veraz.
Para Husserl, nenhum termo médio é necessário; a potência da apreensão intuitiva é julgada suficientemente intensa para anular toda noção de exterioridade.
A consciência desdobra em si mesma uma exterioridade, mas isto não explica como ela tem tal poder de doação.
A mudança de esquema proposta por Heidegger.
Heidegger muda o esquema do imanentismo intencionalista husserliano sem perder seu resultado (a abolição do problema da ponte).
A proximidade do si ao ser situa o si sempre já no exterior e junto ao ente. O si não precisa se perguntar sobre uma transcendência, pois já está no exterior.
O si não está menos perto de seu objeto, sem estar enclausurado em sua própria esfera.
A insuficiência da explicação husserliana e a consciência do vazio.
Husserl não pensa a consistência do fundo não-ôntico do ego, um tecido de evanescência cujo mistério é precisamente que um tal não-ente seja constituinte.
O eu puro aparece como uma inconsistência constituinte, mas apenas o lado constituinte é retido, não o fato de um vazio ser sua fonte.
Husserl quer um “terreno firme” e por isso contorna a exigência de pensar este vazio doador.
Há na fenomenologia transcendental uma vontade primeira de descobrir no si um elemento de solidez, a esfera intuitiva da evidência.
A intuição como estrutura essencial e sua não-interrogação.
A intuição é posta por Husserl como estrutura essencial do ego transcendental. Seu papel não é visto como um pressuposto, pois ela é fonte de doação.
Para abrir uma brecha no pensamento de Husserl, é preciso colocar a questão do ser de toda intuição como tal.
Esta questão tem dupla eficácia: força a olhar o próprio olhar e sua possibilidade, e atesta, por sua própria possibilidade, a presença de uma pré-compreensão do ser.
A questão fundamental: o caráter de ser da intuição doadora.
Por qual caráter de ser a intuição é doadora? O fato de poder se referir à fonte doadora colocando a questão de seu ser não coloca o questionado aquém do horizonte atestado?
Se a intuição, estrutura do ego, se confunde com a estrutura da objetidade, o que significa que a objetidade seja, isto é, que a intuição seja?
Como uma ipseidade intuitiva pode ser e ser intuitiva? Esta é a questão que Heidegger enfrenta.
A dependência da intuição em relação ao ser.
Heidegger pergunta como o “enquanto” ou o “é” do ente pode ser acessível à intuição se a categoria da intuição não a faz depender do ser ao qual dá acesso.
A consciência deve ser previamente submetida à estrutura fundamental de uma pré-compreensão do ser, que torna possível um rapport intuitivo ao ser do vivido.
A Sexta Investigação Lógica mostrou a Heidegger que o domínio das categorias é dado intuitivamente, e que o ser mesmo, indescritível, se torna condição de toda intuição.
Não podemos intuir senão porque nos mantemos incessantemente em uma compreensão do que “ser” significa.
A omissão de Husserl: não pensar o horizonte doador da intuição.
O horizonte pelo qual a intuição pode ser doadora não é pensado. A intuição mesma não é pensada.
Husserl se serve da intuição categorial para desenvolver a filosofia, mas não entra na questão do ser deste ser que a condiciona.
Isto é, para Heidegger, uma grave inconsistência.
A compreensão do ser como fundo de todo comportamento.
Não apenas na fala, mas em todo comportamento silencioso, prático ou teórico, já compreendemos o “é”.
Compreendemos o ser não apenas dos entes que nos cercam, mas também de nós mesmos e dos outros.
Esta compreensão precede toda expressão e todo enunciado. Nosso comportamento é regido por esta compreensão do ser.
A luz do ego alimentada por uma fonte obscura.
O contato constante com o elemento noturno concede fenômeno e luminosidade.
A vigília do ego luminoso e provedor de luz é ela mesma alimentada por uma fonte obscura.
É da proximidade desta noite que o si se relaciona com o fenômeno e pode transmitir aparição.
A crítica à falta de autoquestionamento da fenomenologia husserliana.
Enquanto a intuição doadora pode ser objeto de uma questão, sem conter em si a instância de possibilidade da questão, ela permanece aquém do princípio verdadeiro.
Husserl não interroga a fonte doadora, nem coloca nela a possibilidade do questionamento sobre si mesmo.
Tanto ontológica quanto metodologicamente, sua démarche não é satisfatória para Heidegger.
Husserl interroga as significações, mas não reconduz as possibilidades de investigação a seu fundamento: a possibilidade do questionamento fenomenológico mesmo.
A intuição das essências e a questão de sua possibilidade.
Husserl estabelece uma intuição das essências (Wesensschau) pela redução eidética.
Mas como a consciência possui a capacidade do recuo necessário para tal redução? O que nela permite tal processo de distinção?
Husserl não responde a estas questões ligadas à possibilidade mesma de toda redução e, portanto, de toda fenomenologia.
O trabalho sobre o fundo intuitivo e a não-penetração na doação.
Husserl trabalha exclusivamente sobre o fundo da mesma fundamentação intuitiva, constatando sua eficácia.
Busca um fundo para desdobrar uma “ciência nova”, mas não um fundo tomado como tal para pensar sua consistência essencial.
Vê um domínio de doação, mas não se coloca diante da estrutura doadora como tal. A doação é constatada, não pensada.
O mérito e a limitação de Husserl segundo Heidegger.
Husserl tem o grande mérito de ter mostrado a necessidade do dado categorial.
Mas não entrou na necessidade assim mostrada; não fez entrar o si sob o que lhe é dado.
Não entrou no lugar do vínculo entre o si e o puro dom do ser, o que lhe teria permitido estabelecer em que termos a doação impregna a consciência.
O gesto da tradição: servir-se da doação para pensar outra coisa.
Husserl, como toda a tradição, serviu-se da doação para pensar outra coisa que a doação, mas não se submeteu a ela.
Reconhecer seu caráter originário implicaria para o pensamento uma atitude de “Gelassenheit” (serenidade, abandono).
Husserl vê o domínio de doação, mas não entra nele; recondu-lo a um conceito conhecido, o ego.
O contato permanente do eu com a obscuridade e sua consciência de mistério são afastados para que o eu continue sendo fundamento.